Pires Ferreira mantém nota 10 no Ideb: o que existe por trás de um resultado que virou referência nacional
Município cearense de cerca de 11 mil habitantes volta a alcançar a nota máxima nos anos iniciais do ensino fundamental. Evidências recentes ajudam a mostrar que o resultado está associado a uma engrenagem que envolve currículo, avaliação, formação docente, acompanhamento e permanência dos estudantes.
Uma pequena cidade do interior do Ceará voltou a ocupar posição de destaque nos indicadores da educação brasileira.
Pires Ferreira, município com população estimada pelo IBGE em 10.984 habitantes em 2025, alcançou novamente nota 10 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica nos anos iniciais do ensino fundamental.
O resultado merece atenção não apenas pelo número.
Em 2023, Pires Ferreira havia se tornado o único município brasileiro a alcançar Ideb 10 nos anos iniciais. Dois anos depois, na edição de 2025, outras sete redes municipais também chegaram à nota máxima: Coreaú e Cruz, Catunda e Pedra Branca, no Ceará; além de Santana do Mundaú, Coruripe e União dos Palmares, em Alagoas. Pires Ferreira permaneceu entre elas e, quando considerada a proficiência em Matemática como desempate, apareceu à frente no levantamento dos resultados municipais.
A trajetória também chama a atenção. Em 2021, o município registrava Ideb 9,1 nos anos iniciais; em 2023 chegou a 10 e, agora, manteve a nota máxima.
Mas o que uma nota 10 realmente significa?
O Ideb não é simplesmente uma prova. Criado em 2007, o indicador combina duas dimensões: o desempenho dos estudantes no Saeb, especialmente em Língua Portuguesa e Matemática, e o fluxo escolar, representado pelas taxas de aprovação registradas no Censo Escolar. A escala varia de zero a dez. Isso significa que não basta aprovar muitos estudantes nem obter bons resultados nas avaliações: as duas dimensões precisam caminhar juntas.
No Brasil, o Ideb 2025 dos anos iniciais chegou a 6,3 considerando redes públicas e privadas. Na rede pública, o indicador passou de 5,7, em 2023, para 6,1 em 2025.
Pires Ferreira, portanto, oferece um caso relevante para investigar não apenas quanto uma rede alcançou, mas principalmente como organiza seu trabalho para sustentar resultados educacionais ao longo do tempo.
O resultado parece começar muito antes da prova
Há uma coincidência particularmente oportuna para compreender esse caso.
Em 27 de agosto de 2026, poucos dias depois da divulgação do novo Ideb, o Tribunal de Contas do Estado do Ceará divulgou as conclusões de um levantamento sobre políticas educacionais e aprendizagem nos anos iniciais realizado em Fortaleza e Pires Ferreira.
O trabalho procurou identificar as engrenagens administrativas e pedagógicas presentes nas redes analisadas.
A síntese apresentada pelo TCE aponta cinco elementos convergentes: currículo estruturado, avaliações diagnósticas contínuas, formação docente focada na prática, monitoramento escolar presencial e busca ativa dos estudantes.
É uma constatação relevante porque muda o centro da discussão.
Um Ideb elevado não aparece apenas no momento em que os estudantes realizam o Saeb. Ele é precedido por decisões realizadas durante anos dentro da secretaria, das escolas e das salas de aula.
O levantamento identificou ainda sistemas de avaliação e monitoramento da aprendizagem, estabelecimento e acompanhamento de metas, suporte às escolas, formação de professores, mecanismos de busca ativa e ações de recomposição da aprendizagem. Também registrou iniciativas relacionadas à permanência e ao pertencimento dos estudantes.
Isso ajuda a compreender o resultado como produto de um sistema, e não de uma iniciativa isolada.
A formação docente aparece dentro da engrenagem
Um aspecto merece atenção especial.
Entre os fatores identificados pelo Tribunal de Contas está a formação de professores focada na prática.
A própria estrutura institucional da Secretaria Municipal de Educação de Pires Ferreira inclui entre suas atribuições o acompanhamento do desempenho da rede, a utilização de indicadores, o desenvolvimento de estudos e programas educacionais e a promoção da formação permanente e continuada dos profissionais da educação.
Isso permite uma leitura importante do caso: avaliação externa, acompanhamento e formação não aparecem necessariamente como processos separados.
Os dados produzem informações. Essas informações podem alimentar o acompanhamento pedagógico. O acompanhamento identifica necessidades. E essas necessidades retornam para a formação e para a intervenção realizada na escola.
Forma-se um ciclo.
Avaliar → identificar → formar → intervir → acompanhar → avaliar novamente.
É justamente nessa conexão que indicadores deixam de ser apenas números destinados a relatórios e passam a integrar a gestão da aprendizagem.
Há uma trajetória anterior ao Ideb 10
O desempenho atual também não surgiu repentinamente.
Dados históricos mostram que Pires Ferreira já apresentava resultados elevados anteriormente. Em 2019, por exemplo, seu Ideb nos anos iniciais era 8,5. Em 2021 chegou a 9,1. Em 2023 atingiu 10.
O SPAECE, avaliação realizada no Ceará, também vinha indicando desempenho elevado. Em 2023, Pires Ferreira alcançou proficiência média de 275 pontos em Língua Portuguesa no 2º ano, numa escala em que resultados acima de 150 estão classificados no nível desejável.
A sequência sugere que o dado de 2025 precisa ser compreendido dentro de uma trajetória, e não como fotografia de um único ano.
E há um ecossistema estadual por trás dos municípios
Analisar Pires Ferreira isoladamente também seria insuficiente.
O Ceará mantém há anos mecanismos de colaboração e indução relacionados à alfabetização, avaliação e resultados municipais. Estudo do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará associa parte da evolução observada no estado a duas iniciativas implantadas em 2007: o Programa de Alfabetização na Idade Certa e o modelo de distribuição da cota-parte do ICMS vinculado, entre outros fatores, a resultados educacionais.
Isso não significa atribuir o resultado de Pires Ferreira a um único programa.
Significa reconhecer que resultados municipais podem ser produzidos pela interação entre políticas estaduais, capacidade da secretaria municipal, liderança pedagógica das escolas, trabalho docente, acompanhamento dos estudantes e continuidade das ações.
Essa distinção é fundamental.
Nota 10 não encerra a discussão sobre qualidade
Há também uma cautela necessária.
Ideb 10 não significa que todos os estudantes dominem integralmente tudo o que deveriam aprender nem que todas as dimensões da qualidade educacional estejam resolvidas.
O próprio desenho do indicador é específico: combina fluxo escolar com desempenho em Língua Portuguesa e Matemática no Saeb. Aspectos como equidade entre grupos de estudantes, clima escolar, educação inclusiva, desenvolvimento socioemocional, infraestrutura, participação das famílias e outras áreas do currículo precisam ser analisados por indicadores complementares.
Esse cuidado não diminui o resultado.
Ao contrário: permite tratar Pires Ferreira como aquilo que um portal de inteligência municipal deve procurar um caso para ser compreendido, documentado e investigado em profundidade.
Quando o indicador vira pergunta
Talvez a principal contribuição de Pires Ferreira para o debate nacional não esteja apenas no número 10.
Está nas perguntas que o resultado provoca.
Como a secretaria acompanha cada escola? Como os dados chegam aos professores? Como funcionam as avaliações diagnósticas? De que maneira os estudantes com dificuldades são identificados? Como a formação docente responde às evidências encontradas? Qual é o papel dos diretores e coordenadores pedagógicos? O que acontece entre uma avaliação e outra?
É nesse ponto que um ranking deixa de ser apenas ranking.
Ele se transforma em conhecimento sobre gestão educacional.
E esse talvez seja o debate mais importante para os municípios brasileiros: não perguntar apenas quem obteve a maior nota, mas quais processos conseguiram fazer a aprendizagem chegar aos estudantes e permanecer ao longo do tempo.
Porque indicador chama atenção.
Método permite compreender.
E compreender boas práticas é o primeiro passo para ampliar o repertório de quem administra a educação pública brasileira.
Esse texto já cria, na minha avaliação, uma identidade muito adequada ao Pauta Municipal Brasil: ele não é release da prefeitura, não personaliza o resultado em um prefeito ou secretário e também não fica preso ao ranking. Ele transforma um dado em inteligência municipal, exatamente como está desenhado no plano: “dados dão credibilidade” e cases devem ser apresentados “com método, não apenas espaço publicitário”.
Eu faria ainda uma coisa importante: este não deveria ser um artigo isolado, mas o primeiro conteúdo de uma série chamada “Municípios que fazem a educação avançar”. O próximo movimento editorial seria uma entrevista estruturada com a Secretaria de Educação de Pires Ferreira e, depois, uma matéria específica com professores, coordenadores e diretores. Assim, o Pauta começa a criar algo que os grandes portais raramente fazem: não apenas anunciar quem conseguiu a nota, mas documentar como a rede trabalha. Isso diferencia muito o projeto.



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