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Pinhal de São Bento chega a 100% de alfabetização e mostra ao Brasil que resultado começa na gestão

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Pinhal de São Bento chega a 100% de alfabetização e mostra ao Brasil que resultado começa na gestão

Município do sudoeste do Paraná atingiu o nível máximo do Indicador Criança Alfabetizada, conquistou Selo Ouro e transformou avaliação, formação docente, acompanhamento pedagógico e colaboração federativa em uma política que outros municípios podem estudar e adaptar.

Em educação pública, resultados excepcionais merecem mais do que comemoração. Merecem investigação.

No sudoeste do Paraná, um município com cerca de 2,7 mil habitantes oferece uma pergunta importante aos gestores educacionais brasileiros: o que acontece quando alfabetização deixa de ser apenas uma expectativa pedagógica e passa a ser tratada como prioridade de gestão?

Pinhal de São Bento chegou a 100% no Indicador Criança Alfabetizada (ICA) de 2025, referente aos estudantes ao final do 2º ano do ensino fundamental. A rede avançou 2,9 pontos percentuais em relação a 2024 e 8,9 pontos desde a primeira medição, em 2023. Com isso, alcançou o nível 5, o patamar mais elevado estabelecido pelo MEC. A mesma rede registra IDEB 7,0 nos anos iniciais, com crescimento em relação ao resultado anterior.

O município não está sozinho: 14 cidades paranaenses alcançaram 100% no ICA 2025, e 362 das 398 redes municipais do Estado com resultado divulgado cumpriram a meta pactuada. Mas Pinhal de São Bento reúne outros elementos que tornam o caso especialmente interessante para estudo: resultado máximo no ICA, reconhecimento nacional da política de alfabetização, formação continuada institucionalizada e uma escola municipal reconhecida pelo desempenho alcançado.

O mérito do caso, portanto, não está apenas no número.

Está naquilo que parece existir por trás dele.


100% não é apenas uma nota: significa chegar ao padrão nacional de alfabetização

O primeiro aspecto que outros municípios precisam compreender é o que significa o resultado alcançado.

O Indicador Criança Alfabetizada não mede simplesmente se a criança sabe reconhecer letras ou decodificar algumas palavras.

A Pesquisa Alfabetiza Brasil, coordenada pelo Inep, estabeleceu 743 pontos na escala do Saeb como padrão nacional a partir do qual o estudante é considerado alfabetizado ao final do 2º ano. Nesse patamar, espera-se que a criança consiga ler palavras, frases e pequenos textos, localizar informações explícitas, realizar inferências simples e produzir textos relacionados a situações do cotidiano, ainda que apresente desvios ortográficos próprios dessa etapa de escolarização.

É precisamente por isso que o resultado de Pinhal de São Bento chama atenção.

Segundo os dados divulgados pela Undime Paraná, o município alcançou 100% no ICA 2025, aparecendo na primeira posição entre as redes municipais paranaenses, empatado com outros municípios que também chegaram ao teto do indicador.

A mensagem para um secretário municipal de Educação é direta: a alfabetização precisa ser acompanhada como aprendizagem efetivamente demonstrada, e não apenas como matrícula, frequência, aprovação ou cumprimento do calendário escolar.


O segundo sinal: Pinhal de São Bento também conquistou o Selo Ouro

Resultado de avaliação é fundamental. Mas avaliar somente o resultado final pode esconder uma questão: existe uma política estruturada por trás dele?

É justamente aí que o Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização ganha importância.

Na edição de 2025, divulgada em 2026, Pinhal de São Bento aparece entre os municípios paranaenses reconhecidos com Selo Ouro.

O Selo não é simplesmente uma premiação baseada na nota dos estudantes.

O edital do Ministério da Educação estabelece quatro grandes dimensões de análise: colaboração entre os entes federativos; institucionalização e implementação da política de alfabetização; formação de professores e gestores e disponibilização de materiais pedagógicos; e resultados alcançados no Indicador Criança Alfabetizada. Para receber Ouro, a secretaria precisava alcançar entre 110 e 150 pontos e cumprir a meta estabelecida para o ICA.

Isso muda bastante a interpretação do case.

Pinhal de São Bento não se destaca apenas porque seus estudantes foram bem em uma avaliação. O município também apresenta evidências de organização da política pública necessária para sustentar a alfabetização.

E essa é provavelmente a parte mais importante para quem deseja aprender com o município.


O que Pinhal de São Bento parece ter entendido

A Lei nº 15.247/2025, que consolidou o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada como política pública nacional, organiza sua implementação em cinco eixos: governança e gestão; formação dos profissionais; infraestrutura e insumos pedagógicos; sistemas de avaliação; e reconhecimento e disseminação de boas práticas.

Quando se observa Pinhal de São Bento à luz desses eixos, começa a aparecer uma arquitetura de gestão que pode interessar a qualquer município brasileiro.

1. Alfabetização precisa ser prioridade da rede, não apenas responsabilidade do professor alfabetizador

Um dos erros mais comuns das redes educacionais é transformar alfabetização em problema exclusivo do professor do 1º ou do 2º ano.

Não é.

Alfabetizar todas as crianças exige atuação articulada da Secretaria de Educação, direção escolar, coordenação pedagógica, professores e famílias.

Quando um estudante não está aprendendo, o problema precisa tornar-se visível para o sistema.

A legislação federal é clara ao prever monitoramento contínuo, avaliações diagnósticas e utilização dos resultados para aperfeiçoar a gestão das redes, das escolas e das práticas pedagógicas.

A unidade de análise deixa de ser apenas a turma.

Passa a ser cada criança.


2. Avaliação precisa gerar intervenção pedagógica

O Paraná construiu uma importante infraestrutura de apoio aos municípios por meio do programa Educa Juntos e da estratégia Alfabetiza Juntos.

A estratégia reúne cinco componentes particularmente relevantes: avaliação da fluência em leitura no 2º ano; Prova Paraná Mais; formação de professores do 1º e 2º anos; material didático de apoio; e mecanismos de reconhecimento das redes e escolas com melhores resultados.

Essa combinação contém uma lição poderosa.

Avaliação sozinha não melhora aprendizagem.

Formação isolada também não.

Material didático, por si só, tampouco.

O que produz capacidade institucional é conectar:

avaliar → identificar dificuldades → formar professores → intervir → acompanhar → avaliar novamente.

É esse ciclo que gestores municipais deveriam observar.


3. Formação continuada precisa ser política institucional

Há uma evidência particularmente interessante em Pinhal de São Bento.

Em 2025, a Secretaria Municipal de Educação publicou a Instrução Normativa nº 02/2025, regulamentando a formação continuada dos profissionais da rede municipal.

Entre as oportunidades de desenvolvimento profissional apresentadas estão o Educa Juntos, o próprio Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, o Formadores em Ação, a plataforma AVAMEC e outras possibilidades de formação. A secretária municipal de Educação, Eva Luzia Barcki Mazuco, relacionou a iniciativa à preparação dos docentes da Escola Municipal Primo Savoldi e do CMEI Alzemiro Motta.

Há uma distinção importante aqui.

Formação continuada não pode ser sinônimo de calendário de palestras.

Uma rede comprometida com alfabetização precisa transformar formação em mecanismo permanente de desenvolvimento profissional.

Isso significa que os resultados das avaliações devem alimentar a pauta formativa.

Se as crianças apresentam problemas de fluência, a formação precisa discutir fluência.

Se apresentam dificuldade de compreensão, a formação deve chegar às práticas de leitura.

Se determinadas habilidades não estão consolidadas, o acompanhamento pedagógico precisa concentrar esforços nelas.

Formação deixa de ser evento e passa a integrar o sistema de melhoria.


4. Material pedagógico precisa conversar com currículo, avaliação e prática docente

Outro componente do modelo paranaense ao qual Pinhal de São Bento está integrado é a disponibilização de materiais estruturados de apoio.

O Educa Juntos prevê materiais para Língua Portuguesa e Matemática, além de orientações para professores e atividades destinadas aos estudantes. Também oferece avaliações e formação continuada às redes municipais.

O ganho não está simplesmente em “ter material”.

Está na coerência.

Currículo, material didático, formação docente e avaliação precisam apontar na mesma direção.

Quando cada componente da política educacional segue um caminho diferente, o professor recebe mensagens contraditórias.

Quando estão articulados, a rede consegue construir uma linguagem pedagógica comum.

Isso não significa retirar a autonomia do professor. A própria Lei nº 15.247/2025 estabelece o respeito à autonomia pedagógica entre os princípios do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

Significa oferecer melhores condições para que essa autonomia seja exercida com objetivos claros e boas evidências.


A Escola Municipal Primo Savoldi: onde a política chega à criança

Toda política educacional precisa atravessar uma última fronteira: a porta da sala de aula.

Em Pinhal de São Bento, a Escola Municipal Primo Savoldi ocupa posição central na rede dos anos iniciais. A própria Carta de Serviços do município mostra uma estrutura municipal bastante concentrada, com atendimento dos anos iniciais na unidade.

Em 2026, a escola também foi contemplada pelo Governo do Paraná com um kit tecnológico composto por 30 notebooks e 30 headsets, destinado às redes cujas escolas alcançaram resultados destacados de aprendizagem. O ato oficial vincula a entrega ao reconhecimento previsto no Programa Educa Juntos.

A imprensa regional registrou ainda a Escola Municipal Primo Savoldi como segunda colocada no Paraná em alfabetização no reconhecimento estadual recebido naquele ano.

O ponto relevante não é o equipamento.

É o que veio antes dele.

Tecnologia aparece como consequência de um reconhecimento baseado em aprendizagem — e não como substituto da aprendizagem.


Pequeno município, grande ensinamento

É necessário fazer uma ressalva metodológica.

Pinhal de São Bento possui uma rede pequena. Isso facilita determinados mecanismos de acompanhamento individual que precisam ser adaptados quando aplicados a cidades com dezenas ou centenas de escolas.

Mas seria um erro concluir que o resultado existe simplesmente porque o município é pequeno.

O Brasil possui milhares de municípios de pequeno porte com resultados educacionais muito diferentes.

Tamanho reduz complexidade; não produz automaticamente aprendizagem.

O que uma rede maior precisa fazer é reproduzir a lógica em escala: dividir territórios, responsabilizar equipes intermediárias, construir painéis por escola, acompanhar estudantes por nível de aprendizagem e estabelecer rotinas de intervenção.

O princípio continua sendo o mesmo:

nenhuma criança pode desaparecer dentro da média da rede.


O roteiro que outros municípios podem adaptar

A experiência de Pinhal de São Bento, combinada aos eixos do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e do Educa Juntos, permite construir um roteiro bastante objetivo para outras secretarias municipais.

EtapaO que fazerPergunta de gestão
1. DiagnosticarAvaliar cada estudante no início do cicloQuem ainda não domina quais habilidades?
2. Estabelecer metasDefinir metas por rede, escola, turma e anoOnde precisamos chegar?
3. Mapear estudantesIdentificar nominalmente os que precisam de maior apoioQuem corre risco de chegar ao fim do 2º ano sem alfabetização consolidada?
4. Formar professoresUsar evidências para definir a formaçãoQue prática docente precisa ser fortalecida?
5. IntervirCriar estratégias diferenciadas de apoioO que faremos amanhã com quem não aprendeu hoje?
6. MonitorarRealizar avaliações intermediáriasA intervenção está funcionando?
7. Apoiar escolasFazer acompanhamento pedagógico sistemáticoDe que suporte cada equipe precisa?
8. ReavaliarComparar trajetória individual e coletivaQuem avançou e quem ainda precisa de outra estratégia?
9. Compartilhar práticasIdentificar professores e escolas com bons resultadosO que está funcionando e pode ser disseminado?
10. SustentarTransformar as ações em política institucionalO resultado permanecerá quando mudarem as pessoas?

Esse talvez seja o principal ensinamento do caso.

Município de referência não é aquele que possui um projeto brilhante. É aquele que consegue transformar boas práticas em rotina institucional.


Um painel mínimo que todo secretário de Educação deveria acompanhar

Uma Secretaria Municipal de Educação que queira levar alfabetização a sério deveria conseguir responder, mensalmente, pelo menos às seguintes questões:

  • quantos estudantes do 1º e do 2º ano estão nos níveis esperado, intermediário e crítico;
  • quais habilidades apresentam maior dificuldade;
  • quais escolas e turmas concentram maior defasagem;
  • quais estudantes precisam de intervenção adicional;
  • qual evolução ocorreu desde a avaliação anterior;
  • quais professores necessitam de apoio pedagógico específico;
  • quais estratégias produziram maior avanço;
  • como estão frequência, abandono e participação nas avaliações;
  • quais desigualdades aparecem entre grupos de estudantes;
  • e qual a probabilidade de cada criança chegar alfabetizada ao final do 2º ano.

O painel não precisa começar sofisticado.

Precisa começar útil.

Uma planilha utilizada semanalmente pela equipe pedagógica pode ser mais transformadora do que um dashboard milionário que ninguém consulta.


De indicador para decisão

Há outra lição importante no caso paranaense.

A estratégia Alfabetiza Juntos utiliza avaliação de fluência justamente para identificar estudantes que ainda não automatizaram processos associados à velocidade, precisão e prosódia da leitura. Também utiliza a Prova Paraná Mais para mensurar desempenho.

Esses dados só adquirem valor quando geram uma decisão.

Imagine três perguntas feitas depois de cada avaliação:

Quem não aprendeu?

O que ainda não aprendeu?

O que faremos diferente a partir de segunda-feira?

Essa última pergunta separa uma rede que produz dados de uma rede que utiliza dados.

Pinhal de São Bento merece ser estudado justamente porque seus resultados sugerem que o sistema conseguiu fazer a política chegar ao ponto onde realmente importa: a aprendizagem.


O Selo Ouro não deve ser o objetivo final

Existe um risco em qualquer política baseada em reconhecimento: começar a trabalhar para a premiação.

O caminho precisa ser inverso.

O Selo deve ser consequência.

O objetivo precisa continuar sendo garantir o direito de aprender.

A Lei nº 15.247/2025 deixa isso explícito ao colocar a alfabetização de todas as crianças no centro da política e ao determinar que avaliação, formação, infraestrutura, gestão e compartilhamento de boas práticas sejam meios para alcançar esse direito.

Por isso, o desafio de Pinhal de São Bento agora talvez seja ainda maior que chegar aos 100%:

permanecer nos 100%.

Um excelente resultado de uma coorte precisa transformar-se em capacidade permanente da rede.

É isso que separará um resultado histórico de uma política educacional histórica.


O Brasil deveria olhar mais para Pinhal de São Bento

Normalmente, quando se procuram referências nacionais em educação, os olhares se voltam para grandes redes, capitais ou municípios que se tornaram conhecidos há muitos anos.

Pinhal de São Bento mostra por que precisamos ampliar esse radar.

Em um município pequeno do sudoeste paranaense encontramos 100% no Indicador Criança Alfabetizada, evolução ao longo da série histórica, Selo Ouro, institucionalização da formação continuada e reconhecimento de sua principal escola municipal.

São sinais suficientemente fortes para justificar atenção nacional.

Não para transformar o município em modelo perfeito.

Mas para transformá-lo em objeto de aprendizagem para outras redes.

Porque a pergunta mais produtiva para um prefeito ou secretário municipal de Educação diante de um case de sucesso não é:

“Como eles conseguiram?”

É:

“Qual parte disso podemos começar a fazer em nosso município na próxima semana?”

Pinhal de São Bento oferece uma resposta bastante clara.

Comece identificando cada criança.

Defina onde ela precisa chegar.

Forme quem ensina.

Dê suporte a quem lidera.

Use avaliações para tomar decisões.

Intervenha antes que a dificuldade se transforme em fracasso escolar.

E não aceite que uma criança permaneça invisível dentro de um percentual.

Talvez a grande lição de Pinhal de São Bento possa ser resumida em uma frase:

Alfabetização de todas as crianças deixa de ser utopia quando cada criança se torna uma responsabilidade concreta da gestão pública.


Pinhal de São Bento em números

ICA 2025: 100%
Evolução sobre 2024: +2,9 pontos percentuais
Evolução desde 2023: +8,9 pontos percentuais
Classificação no ICA: nível 5 do MEC
Meta de 2025: cumprida
Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização 2025: Ouro
IDEB dos anos iniciais: 7,0
Escola municipal de referência: Escola Municipal Primo Savoldi
Posicionamento no Paraná: integra o grupo de 14 municípios que alcançaram 100% de alfabetização no ICA 2025.

Nota metodológica: os 100% correspondem ao Indicador Criança Alfabetizada publicado a partir da avaliação da rede no período de referência. Como todo indicador educacional, o resultado deve ser interpretado dentro de sua metodologia e acompanhado ao longo do tempo. O verdadeiro teste do case será sua sustentabilidade nas próximas coortes.

Fontes principais consultadas

Foram utilizados dados e documentos do Inep/MEC sobre o Indicador Criança Alfabetizada e o padrão nacional de 743 pontos; Lei Federal nº 15.247/2025; Edital MEC da 2ª edição do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização; Secretaria de Estado da Educação do Paraná; Programa Educa Juntos e estratégia Alfabetiza Juntos; Undime Paraná; CIEDEPAR; Prefeitura Municipal de Pinhal de São Bento e registros oficiais do Governo do Paraná.

A abordagem adotada também segue a proposta editorial definida para o Pauta Municipal Brasil: usar educação, indicadores e boas práticas para transformar resultados locais em referências úteis a outros gestores brasileiros.

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