São Paulo e o desafio de educar em escala: o que a maior rede municipal de ensino pode ensinar às grandes cidades brasileiras
Com mais de 1 milhão de estudantes e mais de 4 mil unidades educacionais, a capital paulista avança no Ideb, na alfabetização, no Saeb e na permanência escolar. Mais do que comparar posições em rankings, compreender São Paulo exige olhar para o que significa fazer uma política educacional chegar, simultaneamente, a milhares de escolas, professores e estudantes em territórios profundamente diversos.
Há municípios brasileiros em que o secretário de Educação conhece praticamente todas as escolas pelo nome. Em São Paulo, a escala transforma completamente a natureza da tarefa.
A capital paulista tinha população estimada pelo IBGE em 11,9 milhões de habitantes em 2025. É o município mais populoso do Brasil. Na educação, essa dimensão ganha números igualmente excepcionais: a Rede Municipal de Ensino atende mais de 1 milhão de estudantes, da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos, distribuídos em mais de 4 mil unidades educacionais. A própria Secretaria Municipal de Educação a classifica como a maior rede municipal de ensino da América Latina.
Esse dado precisa anteceder qualquer leitura sobre resultados educacionais de São Paulo.
Não porque a dimensão da rede deva servir como justificativa para os resultados, mas porque ela altera profundamente o problema de gestão.
Melhorar a aprendizagem de algumas centenas de estudantes já exige bons professores, currículo, avaliação, liderança e acompanhamento. Fazer isso para centenas de milhares de crianças e adolescentes, simultaneamente, demanda uma verdadeira arquitetura de implementação.
E é justamente nessa perspectiva que a experiência paulistana merece ser observada pelos grandes municípios brasileiros.
O Ideb 2025 mostra uma rede novamente em trajetória de crescimento
Os resultados mais recentes do Ideb, divulgados pelo Inep em agosto de 2026, registraram avanço nas duas etapas do Ensino Fundamental da Rede Municipal de São Paulo.
Nos anos iniciais, o índice passou de 5,6, em 2023, para 5,8, em 2025. Nos anos finais, avançou de 4,8 para 4,9 no mesmo período.
Visto isoladamente, um crescimento de dois décimos ou de um décimo pode parecer pequeno. Em uma rede desse tamanho, entretanto, o indicador representa o desempenho agregado de uma estrutura educacional que atende centenas de milhares de estudantes.
Há uma reflexão importante aqui para gestores de grandes cidades: indicadores não deveriam ser analisados apenas pela fotografia do número final. É preciso observar também a direção da trajetória, o número de estudantes envolvidos, a heterogeneidade dos territórios e a capacidade da política pública de produzir mudanças em escala.
São Paulo voltou a crescer.
E outros indicadores ajudam a compreender melhor esse movimento.
O Saeb mostra avanço na aprendizagem
O detalhamento do Saeb 2025 acrescenta uma informação particularmente relevante.
Nos anos iniciais, a proficiência média dos estudantes paulistanos do 5º ano em Língua Portuguesa passou de 198,68 pontos, em 2023, para 205,72 em 2025, crescimento de 7,04 pontos.
Em Matemática, passou de 210,61 para 218,17 pontos — avanço de 7,56 pontos.
Para uma política educacional, esse dado talvez seja até mais instrutivo que o Ideb isoladamente.
O Ideb combina aprendizagem e fluxo escolar. Quando se observa o Saeb, pode-se enxergar mais diretamente o movimento da proficiência dos estudantes.
E os resultados indicam que a rede conseguiu deslocar positivamente as médias de Língua Portuguesa e Matemática nos anos iniciais entre as duas avaliações.
Novamente, a dimensão importa: fazer uma média avançar significa produzir mudança na distribuição de desempenho de um contingente enorme de estudantes.
A alfabetização talvez seja o sinal mais claro da trajetória recente
Outro indicador ajuda a compreender o movimento educacional da capital.
Em 2023, aproximadamente 38% das crianças estavam alfabetizadas no indicador utilizado pelo Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. Em 2024, o percentual chegou a aproximadamente 48%. Em 2025, alcançou 53%.
A meta estabelecida pelo Ministério da Educação para São Paulo naquele ano era de 51%. Portanto, o município não apenas avançou cinco pontos percentuais em relação ao ano anterior, como ultrapassou a meta federal. Em comparação com 2023, o crescimento acumulado é de aproximadamente 15 pontos percentuais.
Mais importante do que comemorar um percentual isoladamente é perceber a sequência:
38% → 48% → 53%.
Em políticas públicas educacionais, séries históricas dessa natureza dizem muito.
Elas permitem identificar se determinada estratégia está produzindo um movimento consistente e se existe uma trajetória sobre a qual a gestão pode continuar trabalhando.
O reconhecimento institucional também apareceu. A Prefeitura de São Paulo recebeu novamente a categoria Ouro no Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização, alcançando 122 pontos na avaliação relacionada às políticas implementadas.
Aprender depende também de permanecer na escola
Resultados educacionais não são produzidos apenas dentro da sala de aula.
Antes de aprender, o estudante precisa estar matriculado, frequentar regularmente a escola e permanecer nela.
Nesse aspecto, outro indicador paulistano merece atenção.
Dados do Censo Escolar de 2024 apontaram taxa de abandono de apenas 0,6% entre os estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Municipal, o menor percentual registrado na década. Em 2014, o índice era de 1,9%.
A política envolve diferentes estratégias, entre elas ações de busca ativa e programas destinados ao acompanhamento da frequência.
Essa é uma lição particularmente relevante para grandes municípios.
A política de aprendizagem não pode ficar restrita à secretaria de Educação ou ao trabalho pedagógico da escola. Frequência e permanência frequentemente envolvem vulnerabilidade social, saúde, transporte, proteção social, território e condições familiares.
A própria metodologia da Busca Ativa Escolar, desenvolvida pelo UNICEF e pela Undime, parte justamente dessa lógica intersetorial.
Quanto maior a cidade, mais necessária tende a ser essa capacidade de conectar políticas.
Uma Secretaria de Educação que precisa funcionar como um sistema
Talvez uma das características mais interessantes de São Paulo para outros grandes municípios esteja menos nos programas individualmente considerados e mais na arquitetura da rede.
Não seria possível administrar mais de 4 mil unidades diretamente a partir de um único órgão central.
Por isso, São Paulo possui 13 Diretorias Regionais de Educação as DREs. Elas aproximam a política central dos territórios e possuem estruturas de supervisão escolar, acompanhamento pedagógico, administração e educação integral.
Essa organização permite compreender uma característica fundamental da gestão educacional em escala:
uma grande rede não pode ser apenas centralizada nem simplesmente descentralizada. Ela precisa ser coordenada.
A Secretaria central estabelece currículo, políticas, prioridades e sistemas. As estruturas regionais aproximam essas diretrizes das escolas. As unidades educacionais transformam as políticas em experiências concretas de aprendizagem.
O desafio passa a ser preservar coerência sem ignorar as diferenças territoriais.
Para municípios de 500 mil, 800 mil, 1 milhão ou mais habitantes, essa discussão é decisiva.
À medida que uma rede cresce, aumenta também a necessidade de construir instâncias intermediárias fortes de acompanhamento.
Dados precisam chegar à escola
São Paulo desenvolveu outro elemento interessante dessa arquitetura: um sistema próprio de avaliação e acompanhamento.
O Sistema Educacional de Registro da Aprendizagem, o SERAp, reúne informações das avaliações da Rede Municipal, incluindo a Prova São Paulo.
O sistema permite visualizar resultados da rede, das 13 DREs, das escolas, das turmas e até dos estudantes. Professores e gestores podem acompanhar o desempenho e utilizar os resultados no planejamento pedagógico.
Em 2025, a Secretaria também disponibilizou materiais pedagógicos apresentando resultados da Provinha e da Prova São Paulo acompanhados de orientações para sua utilização no planejamento e na formação dos profissionais.
Aqui aparece outra importante lição.
Avaliação externa tem pouco valor quando termina em uma apresentação de PowerPoint na Secretaria.
O ciclo só se completa quando ocorre algo semelhante a:
avaliação → análise → diagnóstico → planejamento → intervenção pedagógica → acompanhamento → nova avaliação.
Grandes redes precisam transformar dados em rotina gerencial e pedagógica.
A formação precisa ter escala equivalente à rede
Há ainda outra questão incontornável.
Nenhuma estratégia educacional alcança milhares de salas de aula se os professores não compreenderem o que precisa mudar em sua prática.
Em 2026, segundo a Secretaria Municipal de Educação, a rede contava com mais de 160 mil profissionais, entre eles aproximadamente 112 mil professores.
O número ajuda a dimensionar o problema.
Uma formação excelente realizada com algumas dezenas de professores pode produzir uma experiência interessante. Em São Paulo, uma política educacional precisa encontrar mecanismos para chegar a milhares de profissionais, preservar qualidade e, ao mesmo tempo, dialogar com necessidades distintas.
Por isso, formação continuada, acompanhamento pedagógico e atuação das Diretorias Regionais aparecem associados às estratégias recentes de recomposição das aprendizagens divulgadas pela Secretaria.
A pergunta para os grandes municípios passa a ser menos “quantos cursos oferecemos?” e mais:
quanto daquilo que definimos como política pedagógica efetivamente chegou à prática das escolas?
Educação integral e território
A dimensão de São Paulo também aparece na infraestrutura educacional.
Em 2025, quatro novos Centros Educacionais Unificados foram inaugurados, levando a cidade à marca de 62 CEUs. No mesmo ano, a rede recebeu outras novas unidades de Educação Infantil e Ensino Fundamental.
O conceito dos CEUs é particularmente interessante porque amplia a noção de equipamento educacional. Educação, esporte, cultura, lazer e convivência comunitária passam a compartilhar o território.
Para grandes cidades, nas quais os estudantes vivem realidades profundamente distintas dentro do mesmo município, pensar territorialmente pode ser tão importante quanto pensar administrativamente.
A cidade é uma só no mapa. Educacionalmente, são muitas cidades convivendo dentro dela.
O que os grandes municípios podem aprender com São Paulo
A experiência paulistana permite extrair pelo menos uma conclusão central: quanto maior a rede, mais importante se torna a capacidade institucional de implementação.
Não basta possuir um bom programa.
É necessário fazê-lo chegar a todas as escolas.
Não basta realizar uma avaliação.
É preciso transformar resultados em decisão pedagógica.
Não basta criar uma política central.
É necessário construir estruturas regionais capazes de acompanhar sua execução.
Não basta matricular.
É preciso garantir frequência e permanência.
Não basta formar alguns professores.
É necessário produzir desenvolvimento profissional em escala.
E não basta olhar exclusivamente para a posição de um município em determinado ranking. Redes de grande porte precisam acompanhar simultaneamente o nível alcançado, a evolução histórica, as desigualdades territoriais, o fluxo escolar e a aprendizagem.
Esse talvez seja o aspecto mais relevante da experiência de São Paulo.
Mover uma rede com mais de 1 milhão de estudantes exige governança, dados, território, professores, acompanhamento e continuidade.
O tamanho transforma educação em problema de engenharia de implementação
Para prefeitos e secretários de grandes municípios brasileiros, São Paulo apresenta uma questão que merece atenção.
Em redes pequenas, muitas vezes é possível administrar por proximidade. O secretário visita escolas, conhece diretamente gestores e consegue intervir rapidamente.
À medida que o sistema cresce, esse modelo deixa de ser suficiente.
Surge a necessidade de construir uma verdadeira engenharia de implementação: definição clara de prioridades, instâncias intermediárias, indicadores, sistemas de informação, formação, acompanhamento e mecanismos capazes de fazer a política percorrer todo o caminho entre a Secretaria de Educação e a carteira do estudante.
É justamente por isso que os resultados recentes de São Paulo merecem ser acompanhados.
O Ideb avançou. O Saeb registrou crescimento de proficiência. A alfabetização passou de aproximadamente 38% para 53% em dois anos. A meta federal de alfabetização de 2025 foi superada. E o abandono escolar chegou ao menor nível da década.
São indicadores diferentes apontando para dimensões distintas de um mesmo sistema.
Em um município dessa magnitude, cada movimento agregado significa milhares de trajetórias escolares sendo afetadas.
Por isso, talvez a pergunta mais produtiva para outras grandes cidades brasileiras não seja simplesmente:
“Qual é a posição de São Paulo no ranking?”
A pergunta mais estratégica é outra:
“Como se faz uma política educacional chegar a mais de um milhão de estudantes, em milhares de escolas e territórios diferentes, e ainda assim produzir uma trajetória sustentável de melhoria?”
Responder a essa pergunta interessa a São Paulo.
Mas interessa igualmente a todas as grandes redes municipais brasileiras.
Porque, quando a educação ganha escala, gestão deixa de ser apenas administração.
Passa a ser capacidade de transformar estratégia em aprendizagem.



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