Do chão de fábrica à sala de aula: o que Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema ensinam ao Brasil
Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá foram profundamente moldadas pela industrialização brasileira. Hoje, suas trajetórias educacionais mostram que o próximo salto de desenvolvimento da região dependerá menos da quantidade de fábricas instaladas e cada vez mais da capacidade de transformar conhecimento, aprendizagem e qualificação em capital humano.
Quem percorre Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá não está atravessando apenas cinco municípios da Região Metropolitana de São Paulo. Está atravessando parte importante da história econômica, social e política do Brasil.
Ferrovias, indústrias químicas, metalurgia, montadoras, fábricas de autopeças, cerâmicas, petroquímica e milhares de pequenas e médias empresas transformaram esse território em um dos principais complexos industriais brasileiros.
O Grande ABC é oficialmente formado por sete municípios além desses cinco, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra e possui uma característica rara: suas cidades são territorialmente integradas e compartilham infraestrutura, mercado de trabalho, história migratória e problemas metropolitanos. O próprio Consórcio Intermunicipal destaca a posição estratégica da região entre a capital e o Porto de Santos, próxima às rodovias Anchieta e Imigrantes, ao Rodoanel e à ferrovia.
Mas existe uma outra história, menos celebrada que a das grandes fábricas: a construção das redes educacionais.
E talvez esteja nela a chave para compreender o futuro da região.
Uma região industrial que também precisa ser lida como território educacional
O Ideb 2025 ajuda a dimensionar esse patrimônio.
Considerando as sete cidades do Grande ABC, os anos iniciais do Ensino Fundamental avançaram de 6,5, em 2023, para 6,7 em 2025. Nos anos finais, a região permaneceu em 5,3, e no Ensino Médio avançou de 4,5 para 4,6. Nas três etapas, o desempenho regional ficou acima da média nacional; nos anos iniciais e finais, também superou a média estadual apresentada no levantamento.
Mas um cuidado é necessário.
Não seria adequado transformar esses números simplesmente em uma competição entre municípios. As redes possuem tamanhos, perfis socioeconômicos e repartições de responsabilidades diferentes. Mauá, por exemplo, concentra atualmente grande parte de sua rede municipal na Educação Infantil, enquanto outras cidades possuem participação municipal muito maior no Ensino Fundamental.
Mais importante do que perguntar quem ganhou a corrida é compreender por que um território tão industrializado construiu diferentes respostas educacionais ao longo de sua história — e o que essas experiências podem ensinar ao Brasil.
Santo André: educação acompanhando a transformação da cidade
A história de Santo André praticamente se confunde com a própria formação industrial do Grande ABC.
A ferrovia instalada no século XIX criou condições privilegiadas para o transporte entre o interior paulista, a capital e o Porto de Santos. A proximidade da linha férrea, a disponibilidade de terras e a infraestrutura começaram a atrair fábricas. No final do século XIX e início do XX surgiram empreendimentos têxteis, químicos, moveleiros e, posteriormente, metalúrgicos e de autopeças.
A industrialização trouxe algo além das fábricas: população.
Trabalhadores, imigrantes e posteriormente migrantes de várias regiões brasileiras passaram a construir suas vidas no ABC. Isso significou novos bairros, famílias e uma demanda crescente por serviços públicos.
A escola tornou-se parte desse processo de urbanização.
Hoje, a rede municipal de Santo André atende mais de 44 mil estudantes, com aproximadamente 3,1 mil professores, distribuídos entre Educação Infantil, Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos. A cidade também construiu um Documento Curricular próprio por meio de um processo desenvolvido em 2017 e 2018 envolvendo discussão e participação dos profissionais da rede.
Há aqui uma primeira lição.
Santo André mostra que redes educacionais sólidas não são construídas em um mandato. Elas resultam de décadas de institucionalização, expansão, formação profissional, currículo e capacidade administrativa.
A indústria acelerou a cidade. A educação precisou aprender a acompanhá-la.
São Bernardo do Campo: produzir resultado educacional em grande escala
Se Santo André ajuda a compreender a formação industrial do ABC, São Bernardo tornou-se talvez sua representação mais conhecida.
A inauguração da Via Anchieta, em 1947, modificou decisivamente o município. A localização logística, a disponibilidade de mão de obra e os incentivos econômicos favoreceram a chegada de grandes companhias. Nas décadas seguintes, montadoras como Volkswagen, Scania e Ford e numerosas empresas de autopeças transformaram São Bernardo em um dos maiores polos industriais brasileiros.
Esse desenvolvimento provocou intensa migração e crescimento populacional.
Administrar a educação em uma cidade dessa escala é diferente de fazê-lo em uma rede pequena.
Por isso o resultado recente merece atenção.
São Bernardo alcançou 6,8 no Ideb 2025 nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Entre os municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes, obteve a terceira melhor posição nacional, atrás apenas de Londrina e Curitiba e empatada com São José dos Campos.
Mas o aspecto mais interessante está atrás da nota.
A Secretaria Municipal identificou dificuldades por meio de avaliações individuais dos estudantes e passou a acompanhar as unidades e direcionar ações relacionadas à alfabetização. Ou seja, há uma lógica importante de gestão: diagnóstico, intervenção e monitoramento.
A própria documentação educacional do município registra uma longa tradição de produção curricular e formação continuada, incluindo propostas construídas antes mesmo de alguns documentos nacionais.
São Bernardo oferece ao Brasil uma pergunta relevante:
como produzir aprendizagem em escala?
Para municípios grandes, talvez esse seja um case ainda mais interessante do que simplesmente observar a maior nota do ranking.
São Caetano do Sul: quando educação se torna estratégia de desenvolvimento
São Caetano apresenta uma configuração diferente.
É territorialmente menor, possui condições socioeconômicas próprias e historicamente construiu forte capacidade institucional. Mas sua relação entre indústria e educação é especialmente reveladora.
Na década de 1960, São Caetano vivia expansão acelerada. Em 1965, já ocupava posição destacada na produção industrial paulista, com forte presença nos setores metalúrgico, químico, cerâmico e automobilístico. Documentos históricos municipais mostram que escolas daquele período estavam diretamente associadas à necessidade de preparar jovens para uma cidade industrial em rápida transformação.
Décadas depois, os resultados educacionais colocam São Caetano em posição de referência regional.
No Ideb 2025, a rede municipal alcançou 7,2 nos anos iniciais do Ensino Fundamental, o melhor resultado do Grande ABC. Todas as 17 escolas municipais avaliadas nessa etapa ficaram acima da média estadual.
Outro indicador ajuda a compreender esse resultado: mais de 80% das escolas municipais oferecem educação em tempo integral e 93,6% dos docentes da Educação Infantil possuem formação superior adequada à área de atuação. Além disso, levantamento recente aponta atendimento de 100% das crianças de quatro e cinco anos.
São Caetano mostra que desempenho não nasce de uma única ação.
É resultado da combinação de acesso, formação profissional, jornada escolar, acompanhamento da frequência, infraestrutura e continuidade.
Talvez seja justamente essa capacidade de transformar educação em política permanente que explique parte de sua consistência.
Diadema: educação em um território construído pelo trabalho
Diadema ajuda a evitar uma interpretação simplista segundo a qual todas as cidades industriais do ABC tiveram o mesmo desenvolvimento.
Não tiveram.
Ao contrário de Santo André, São Caetano e Mauá, que se beneficiaram precocemente da ferrovia, Diadema teve industrialização mais tardia. Seu impulso ocorreu principalmente depois da expansão rodoviária. Enquanto grandes multinacionais se concentravam em São Bernardo, Diadema recebeu forte presença de pequenas e médias empresas nacionais, muitas delas inseridas nas cadeias produtivas regionais.
O crescimento populacional foi rápido e acompanhado de enormes pressões urbanas.
Por isso sua trajetória educacional precisa ser compreendida também pela perspectiva da democratização dos serviços públicos.
Em 1988, por exemplo, o município já havia instituído um Estatuto do Magistério para sua rede municipal de pré-escola, estabelecendo princípios educacionais, participação familiar e responsabilidades dos profissionais.
Nas décadas seguintes, essa estrutura foi ampliada.
Mais recentemente, Diadema institucionalizou um Centro de Formação Continuada dos Professores, um Memorial da Educação Municipal e uma Escola de Aplicação, criando uma estrutura interessante de desenvolvimento profissional, preservação da memória educacional e experimentação pedagógica.
Essa decisão merece atenção especial.
Redes educacionais frequentemente investem em cursos. Diadema busca institucionalizar uma estrutura de formação.
A diferença não é pequena.
Formação docente deixa de ser calendário de eventos e passa a compor a infraestrutura permanente da política educacional.
Mauá: da Cidade da Porcelana ao desafio de preparar uma nova geração
A inclusão de Mauá torna essa análise ainda mais relevante.
Sua história econômica também está profundamente ligada à ferrovia.
A Estrada de Ferro Santos – Jundiaí contribuiu para o desenvolvimento local e para a instalação das primeiras indústrias. A disponibilidade de argila favoreceu olarias, cerâmicas e fábricas de porcelana, a ponto de o município tornar-se conhecido como Cidade da Porcelana. A partir da década de 1950 ocorreu outra transformação: cresceram as indústrias mecânicas, metalúrgicas, químicas e petroquímicas, com destaque para o Polo Petroquímico de Capuava.
Mauá, portanto, não é apenas vizinha das grandes cidades industriais do ABC.
Ela é parte estrutural dessa história.
Na educação, entretanto, possui uma particularidade importante.
Em 2026, sua rede municipal reúne 48 unidades – 44 próprias e quatro conveniadas e atende aproximadamente 16 mil estudantes. A grande maioria encontra-se na Educação Infantil. A própria prefeitura informa 14.941 crianças matriculadas nessa etapa e 1.080 estudantes no Ensino Fundamental, concentrados em uma escola municipal.
Isso muda completamente a leitura dos indicadores.
Mauá não pode simplesmente ser comparada com São Caetano ou São Bernardo pela mesma lógica administrativa, porque a divisão da oferta entre município e Estado é diferente.
No Ensino Médio estadual, a cidade registrou Ideb 4,4 em 2025, repetindo o resultado de 2023, enquanto as outras seis cidades do Grande ABC avançaram. O dado não deve ser usado como instrumento de crítica simplista, mas como diagnóstico: existe uma oportunidade concreta para aprofundar a articulação entre Município e Estado na trajetória educacional dos jovens.
E há movimentos recentes que merecem ser acompanhados.
Para 2026, a Prefeitura projetou cerca de R$ 342,5 milhões para a Educação Infantil, aproximadamente 40% acima do valor informado para 2025. O município também estabeleceu parceria com o Instituto Federal para formação continuada de aproximadamente 1.400 professores.
Mais significativo ainda para uma cidade industrial foi a inauguração, em julho de 2026, do campus do Instituto Federal de São Paulo em Mauá, com investimento federal informado de R$ 37 milhões e capacidade projetada para cerca de 1.400 estudantes.
Quase parece um reencontro histórico.
Uma cidade que cresceu com cerâmica, metalurgia, química e petroquímica amplia agora sua infraestrutura de educação profissional e tecnológica.
Mas afinal: a indústria produz melhores resultados educacionais?
Não necessariamente.
Essa relação precisa ser tratada com cuidado.
Uma fábrica não melhora o Ideb.
Uma montadora não alfabetiza uma criança.
Um polo petroquímico não forma automaticamente melhores professores.
O que a industrialização pode produzir são condições econômicas, sociais e institucionais que, quando transformadas em políticas públicas, favorecem o desenvolvimento educacional.
No Grande ABC, a indústria trouxe empregos, trabalhadores e arrecadação. Atraiu migrantes e imigrantes. Ampliou a urbanização. Criou demanda por qualificação profissional. Fortaleceu movimentos sindicais e organizações sociais. Aproximou empresas, instituições de formação e poder público.
Em outras palavras, a industrialização ajudou a produzir capacidade territorial.
Mas transformar capacidade econômica em aprendizagem depende de escolhas políticas.
E as cinco cidades mostram que essas escolhas foram diferentes.
Da qualificação da mão de obra à formação do cidadão
Durante boa parte do século XX, havia uma pergunta relativamente previsível:
“De quais trabalhadores a indústria precisa?”
Essa pergunta orientou grande parte da educação profissional brasileira.
O século XXI exige uma questão mais complexa:
“De quais conhecimentos as pessoas precisarão para viver, trabalhar, aprender e tomar decisões em uma sociedade profundamente transformada pela tecnologia?”
Essa mudança é decisiva para o Grande ABC.
Automação, inteligência artificial, robótica, manufatura avançada, transição energética, novos materiais e digitalização estão modificando justamente os setores que construíram a riqueza regional.
Portanto, a velha separação entre política educacional e política de desenvolvimento econômico perdeu sentido.
Matemática é desenvolvimento econômico.
Alfabetização é desenvolvimento econômico.
Ciências são desenvolvimento econômico.
Formação de professores é desenvolvimento econômico.
Competência digital é desenvolvimento econômico.
Mas todas essas dimensões são, antes disso, direitos educacionais.
A escola não deve formar crianças para uma fábrica específica. Deve oferecer repertório suficiente para que elas possam escolher onde estarão quando as fábricas, as profissões e as tecnologias forem diferentes das atuais.
O Grande ABC poderia se tornar um grande laboratório educacional brasileiro
Talvez a maior oportunidade esteja justamente na proximidade dessas cidades.
Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema e Mauá praticamente formam um único território urbano.
Por que suas políticas educacionais ainda precisam ser estudadas apenas dentro das fronteiras municipais?
Imagine uma agenda regional na qual as redes comparassem sistematicamente suas experiências em alfabetização, aprendizagem matemática, formação de professores, educação integral, avaliação, tecnologia educacional, educação especial e combate às desigualdades.
São Caetano possui evidências importantes de desempenho e educação integral.
São Bernardo pode oferecer conhecimento sobre gestão educacional em grande escala.
Santo André possui uma rede extensa e uma trajetória institucional consolidada.
Diadema tem experiências relevantes em formação permanente e participação social.
Mauá pode aprofundar a articulação entre primeira infância, rede estadual, formação profissional e desenvolvimento industrial.
Nenhuma precisa copiar a outra.
Mas todas podem aprender entre si.
A própria região possui precedente institucional para isso. O Consórcio Intermunicipal Grande ABC existe desde 1990 para promover articulação regional, e sua trajetória inclui iniciativas de alfabetização de jovens e adultos, projetos de qualificação profissional e implantação regional de Fatecs.
Educação poderia ocupar posição ainda mais estratégica nessa cooperação.
Depois do capital industrial, o capital educacional
Durante décadas, o Grande ABC ajudou a fabricar o Brasil.
Produziu automóveis, caminhões, ônibus, produtos químicos, porcelanas, máquinas, componentes e bens que circularam pelo país inteiro.
Agora enfrenta outra tarefa histórica.
Construir uma economia baseada cada vez mais em conhecimento exigirá professores altamente qualificados, estudantes alfabetizados na idade adequada, aprendizagem consistente em Matemática e Ciências, jovens capazes de resolver problemas e sistemas educacionais capazes de identificar rapidamente quem está ficando para trás.
O Ideb é importante porque permite enxergar parte desse processo.
Mas a verdadeira riqueza educacional desses municípios não cabe em uma única nota.
Está na história de suas escolas.
Na profissionalização de seus professores.
Na capacidade de planejamento de suas secretarias.
Na expansão da Educação Infantil.
Na articulação com universidades e instituições profissionais.
Na disposição de aprender com dados.
E, principalmente, na compreensão de que desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano não podem caminhar separados.
Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá ajudaram a construir uma das maiores regiões industriais da América Latina.
O desafio agora é ainda maior:
transformar um histórico reduto industrial em um dos mais importantes territórios de aprendizagem, conhecimento e inovação educacional do Brasil.
Porque, no século passado, a competitividade de uma cidade podia ser medida pelo tamanho de seu parque industrial.
No século XXI, cada vez mais ela será medida pela capacidade de suas crianças e jovens de aprender.



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