Ideb 2025 avança no Brasil e mostra aos municípios onde a educação está funcionando e onde é preciso agir
Resultados divulgados pelo Inep mostram melhora nas três etapas da educação básica. Para as redes municipais, porém, a principal mensagem não é comemorar uma nota: é transformar o Ideb em diagnóstico de aprendizagem, fluxo escolar e planejamento para os próximos anos.
Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025 trazem uma mensagem relevante para prefeitos, secretários de Educação, dirigentes escolares e equipes pedagógicas: o Brasil avançou, mas as diferenças entre redes continuam grandes e o número final do indicador precisa ser convertido em decisões concretas dentro de cada município.
Divulgado em agosto de 2026 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Ideb 2025 atingiu os maiores valores da série histórica iniciada em 2005 nas três etapas avaliadas. Considerando redes públicas e privadas, o país passou de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais, de 5,0 para 5,3 nos anos finais e de 4,3 para 4,5 no ensino médio, entre 2023 e 2025. Na rede pública, os resultados chegaram, respectivamente, a 6,1, 5,0 e 4,3.
No painel oficial do Inep apresentado nesta reportagem, há outro dado diretamente relacionado às prefeituras: nos anos iniciais, a rede municipal brasileira avançou de Ideb 5,8, em 2023, para 6,1 em 2025.
O avanço merece reconhecimento. Mas o Ideb deve ser tratado menos como troféu e mais como instrumento de gestão.
Por que o Ideb continua sendo estratégico para os municípios
Criado em 2007, o Ideb combina duas dimensões fundamentais da educação básica: aprendizagem e trajetória escolar. De um lado estão os resultados de língua portuguesa e matemática medidos pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb); do outro, as taxas de aprovação apuradas a partir do Censo Escolar.
Essa combinação é importante porque impede uma leitura simplista da qualidade educacional.
Uma rede pode ter elevada aprovação, mas aprendizagem insuficiente. Outra pode alcançar bons resultados nas avaliações, mas apresentar reprovação, abandono ou distorções no fluxo escolar. O Ideb procura sintetizar essas duas dimensões.
Por isso, a pergunta que deveria chegar às reuniões das secretarias municipais não é simplesmente:
“Qual foi nosso Ideb?”
A pergunta mais útil é:
“O que aconteceu com a aprendizagem e com o fluxo dos nossos estudantes para chegarmos a esse resultado?”
É nessa decomposição que o indicador começa a produzir gestão pública.
O Brasil avançou também na aprendizagem medida pelo Saeb
Os dados de 2025 não mostram apenas melhora no índice agregado. Houve avanço nas médias de aprendizagem da rede pública.
No 5º ano, a média de língua portuguesa passou de 207,6 pontos em 2023 para 215,1 em 2025; em matemática, de 218,3 para 227,4. No 9º ano, português avançou de 252,9 para 256,6, enquanto matemática passou de 249,9 para 255,3.
Esse é um aspecto especialmente importante para as redes municipais. Melhorar o Ideb com crescimento simultâneo de aprendizagem é muito mais relevante do que observar apenas o número final do indicador.
E os dados precisam chegar até a escola: área do conhecimento, ano escolar, unidade, turma, níveis de proficiência, participação dos estudantes e evolução histórica.
Oito municípios chegaram a 10 nos anos iniciais
Os resultados de 2025 produziram um dado até pouco tempo pouco comum no Ideb: oito redes municipais alcançaram nota 10 nos anos iniciais do ensino fundamental.
São elas:
- Coruripe (AL)
- Santana do Mundaú (AL)
- União dos Palmares (AL)
- Catunda (CE)
- Coreaú (CE)
- Cruz (CE)
- Pedra Branca (CE)
- Pires Ferreira (CE)
O grupo aparece em levantamentos realizados a partir dos dados divulgados pelo Inep.
O resultado chama atenção principalmente pela concentração de experiências no Ceará e em Alagoas. Isso não significa que os oito municípios devam ser tratados automaticamente como modelos integrais de política educacional. O Ideb é um indicador importante, mas não mensura sozinho inclusão, equidade, clima escolar, infraestrutura, atendimento à educação especial, permanência, desenvolvimento integral ou inúmeras outras dimensões da qualidade.
A experiência desses municípios, contudo, merece investigação: o que fizeram na alfabetização? Como acompanham a aprendizagem? Como organizam formação docente, avaliação, gestão escolar e recomposição?
É aí que um resultado deixa de ser ranking e passa a produzir conhecimento para outras redes.
Sobral mostra a importância da continuidade
Entre municípios de maior porte, Sobral, no Ceará, continua sendo um caso que merece especial atenção.
A rede municipal registrou Ideb 9,6 nos anos iniciais e 8,0 nos anos finais em 2025. Nos anos finais, o município havia alcançado 7,9 em 2023, chegando agora ao maior resultado de sua própria série histórica nessa etapa. A Secretaria Municipal de Educação aponta, entre as estratégias da rede, acompanhamento pedagógico, formação continuada, monitoramento da aprendizagem e planejamento das ações educacionais.
A lição de Sobral não deve ser resumida à nota 9,6.
O aspecto mais relevante é a continuidade institucional. Bons resultados educacionais dificilmente são construídos durante um único mandato ou a partir de uma ação isolada. Exigem políticas que atravessem anos: alfabetização, currículo, avaliação, formação, liderança escolar, acompanhamento das escolas e intervenção diante das dificuldades de aprendizagem.
Replicar Sobral não significa copiar um programa. Significa compreender sua arquitetura de gestão e avaliar quais elementos podem ser adaptados à realidade local.
Nos anos finais, Deputado Irapuan Pinheiro chama atenção
Outro caso de 2025 está no Ceará.
A rede municipal de Deputado Irapuan Pinheiro registrou Ideb 9,3 nos anos finais, o maior resultado municipal identificado nessa etapa. A trajetória é ainda mais interessante quando observada no tempo: 5,1 em 2017; 5,4 em 2019; 7,0 em 2021; 8,8 em 2023; e 9,3 em 2025.
Reportagens locais sobre a experiência apontam acompanhamento permanente da aprendizagem, escolas em tempo integral e um sistema municipal próprio de avaliação entre as estratégias desenvolvidas.
Mais uma vez, é necessário cuidado com causalidade: o Ideb não permite afirmar isoladamente que uma única política produziu o resultado. Mas a trajetória oferece uma pergunta relevante para qualquer secretaria municipal: quais mecanismos de acompanhamento permitiram identificar estudantes com dificuldades antes que elas chegassem ao 9º ano?
Esse talvez seja um dos principais desafios educacionais brasileiros.
O alerta: 442 municípios ainda estão abaixo de 4,9
Os resultados nacionais positivos não eliminam a desigualdade.
O Inep informou que 442 municípios permanecem com Ideb abaixo de 4,9 nos anos iniciais. Eram 1.097 em 2023 e 4.110 em 2005. O Ministério da Educação anunciou assistência técnica especialmente direcionada a esses municípios.
A redução é expressiva, mas 442 redes nessa condição significam milhares de crianças que ainda vivem contextos educacionais muito diferentes daqueles observados nas redes de maior desempenho.
Aqui está uma das principais utilidades do Ideb: revelar onde a política pública precisa chegar com maior intensidade.
Não para punir municípios.
Para orientar apoio técnico, recursos, formação, recomposição e capacidade institucional.
O que os municípios podem fazer na prática
A divulgação do Ideb deveria desencadear um ciclo formal de planejamento dentro de cada secretaria de Educação.
1. Abrir o resultado, e não trabalhar apenas com a nota final. Separar Ideb, aprovação, desempenho em português e matemática e níveis de proficiência do Saeb.
2. Construir a série histórica. Comparar 2019, 2021, 2023 e 2025. Uma fotografia diz pouco; a trajetória diz muito mais.
3. Analisar escola por escola. A média municipal pode esconder escolas muito acima e muito abaixo do resultado da rede.
4. Localizar desigualdades. Avaliar território, vulnerabilidade socioeconômica, zona urbana e rural, estudantes público-alvo da educação especial e outros recortes disponíveis.
5. Priorizar aprendizagem. Identificar quais habilidades de língua portuguesa e matemática precisam de intervenção, usando o Saeb em conjunto com avaliações diagnósticas locais.
6. Transformar diagnóstico em formação docente. A formação continuada deve responder a problemas reais encontrados nos estudantes, e não funcionar como calendário desconectado das necessidades da rede.
7. Fortalecer diretores e coordenadores pedagógicos. Dados precisam chegar à gestão escolar acompanhados de apoio técnico para gerar planos de ação.
8. Criar acompanhamento entre avaliações nacionais. Esperar dois anos pelo próximo Saeb é tempo demais. Redes precisam de instrumentos formativos e diagnósticos durante o percurso.
9. Monitorar frequência, abandono, reprovação e aprovação. Melhorar aprendizagem sem garantir permanência é insuficiente assim como melhorar fluxo sem aprendizagem não resolve o problema.
10. Estudar municípios comparáveis. O melhor benchmarking não é necessariamente o município com maior Ideb do Brasil, mas aquele com população, vulnerabilidade, estrutura de rede e condições semelhantes que conseguiu avançar.
Participação no Saeb também é responsabilidade da gestão
Há ainda um aspecto técnico que não pode ser negligenciado.
Para divulgação de resultados municipais no Saeb 2025, a regulamentação estabeleceu critérios mínimos de participação. Entre eles estão a presença de pelo menos dez estudantes na etapa avaliada e participação mínima de 50% dos matriculados para resultados municipais. Para divulgação de resultados de escolas nas aplicações censitárias, a referência é de pelo menos 80% de participação, além do número mínimo de estudantes.
Isso significa que mobilização, atualização cadastral, acompanhamento da frequência e organização da aplicação também precisam fazer parte do planejamento das redes.
Sem participação adequada, o município pode perder capacidade de diagnóstico.
Ideb é importante mas não pode virar sinônimo de qualidade
O crescimento dos resultados também exige maturidade na interpretação.
O Ideb é provavelmente o indicador educacional brasileiro de maior capacidade de síntese e comparação histórica, mas não representa sozinho toda a qualidade de uma rede de ensino.
Uma secretaria responsável deve acompanhar conjuntamente alfabetização, Saeb, Ideb, frequência, abandono, distorção idade-série, educação infantil, inclusão, infraestrutura, formação docente, equidade e condições de oferta.
Também não é recomendável transformar o Saeb em treinamento para prova ou utilizar aumento artificial da aprovação para perseguir uma nota. O objetivo de uma rede municipal não pode ser melhorar o indicador; deve ser melhorar a educação e permitir que o indicador registre essa melhoria.
Essa diferença parece pequena. Na gestão pública, é enorme.
O que os municípios de destaque ensinam
Pires Ferreira, Coruripe, Santana do Mundaú, Sobral e Deputado Irapuan Pinheiro possuem portes, contextos e trajetórias diferentes. Portanto, não existe autorização técnica para concluir que há uma única fórmula por trás de seus resultados.
Há, entretanto, elementos que aparecem repetidamente nas experiências de redes de melhor desempenho: continuidade das políticas educacionais, prioridade à alfabetização, acompanhamento frequente da aprendizagem, liderança pedagógica, formação dos profissionais, utilização de avaliações e capacidade da secretaria de transformar dados em intervenção.
É esse processo e não apenas a posição em uma tabela que outros municípios precisam investigar.
O Ideb precisa entrar na mesa de decisão
O Ideb 2025 oferece aos municípios uma oportunidade que não deveria terminar na divulgação de uma postagem comemorativa.
Cada número divulgado pelo Inep pode ser convertido em uma pergunta de gestão.
Onde avançamos?
Onde permanecemos estagnados?
A evolução veio da aprendizagem, do fluxo ou dos dois?
Quais escolas precisam de apoio?
Quais práticas internas já estão funcionando?
Que município semelhante ao nosso conseguiu avançar?
E, principalmente: o que faremos entre agora e a próxima avaliação?
Indicador educacional tem valor quando muda uma decisão.
Para os municípios brasileiros, o Ideb deve ser exatamente isso: não uma nota para decorar a parede da secretaria, mas um instrumento para fazer com que mais estudantes aprendam, permaneçam na escola e concluam cada etapa com o conhecimento a que têm direito.
Fontes: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Ideb 2005-2025 e Sistema Saeb; painel oficial de resultados do Ideb 2025; Secretaria Municipal da Educação de Sobral; bases do Ideb/Inep utilizadas nos levantamentos municipais.



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