Escolas Conectadas: ter internet não basta o desafio dos municípios é transformar conectividade em aprendizagem
Estratégia Nacional de Escolas Conectadas quer garantir conectividade significativa em todas as escolas públicas. Para as prefeituras, o desafio envolve velocidade, Wi-Fi, equipamentos, formação docente, currículo, segurança, manutenção e uso pedagógico efetivo da tecnologia.
Uma escola pode ter contrato de internet, roteador instalado e computadores no patrimônio e, ainda assim, não estar verdadeiramente conectada para ensinar.
Essa diferença é central para compreender a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas (Enec). Instituída pelo Decreto nº 11.713/2023, a política federal foi desenhada para articular programas e recursos destinados a universalizar a conectividade de qualidade para uso pedagógico e administrativo nas escolas públicas brasileiras. O objetivo não é simplesmente fazer a internet chegar ao prédio escolar, mas criar condições para que estudantes e professores possam utilizá-la, simultaneamente e com intencionalidade pedagógica.
Na atualização federal divulgada em maio de 2026, com dados consolidados até o fim de abril, o Brasil havia alcançado 100.720 escolas públicas dentro dos parâmetros considerados adequados de conectividade, equivalentes a 72,9% de aproximadamente 138 mil unidades. Em 2023, esse percentual era de 45,4%. O avanço é expressivo, mas também mostra o tamanho da etapa restante para atingir a universalização.
Para os municípios, porém, existe uma questão ainda mais importante: a meta não deveria ser apenas ter 100% das escolas com internet. A meta precisa ser ter 100% das escolas capazes de utilizar a tecnologia de maneira pedagógica, segura, equitativa e sustentável.
O que significa, afinal, uma escola realmente conectada?
O conceito de conectividade adotado pela Enec é mais exigente que o simples registro de que existe acesso à internet.
A metodologia federal considera como condições essenciais energia elétrica adequada, conexão em velocidade suficiente e distribuição interna do sinal por Wi-Fi capaz de atender os ambientes pedagógicos. A referência nacional de velocidade estabelece, para conexões terrestres, pelo menos 50 Mbps para escolas com até 50 alunos no turno mais movimentado; acima disso, utiliza-se como referência aproximadamente 1 Mbps por aluno, chegando a 1 Gbps para estabelecimentos com mais de mil estudantes no maior turno. Para conexão via satélite, a referência mínima indicada é de 20 Mbps.
A rede interna é igualmente importante. Não resolve contratar 500 Mbps se o sinal chega à secretaria e desaparece quando o professor entra na sala de aula. As orientações da Enec recomendam cobertura dos ambientes pedagógicos, segurança, monitoramento e manutenção da rede. Quando não for possível realizar dimensionamento técnico por mapa de calor ou avaliação equivalente, a referência é de aproximadamente um ponto de acesso – Access Point, ou AP – para cada dois ambientes escolares.
É por isso que o Ministério da Educação estruturou o Indicador Escolas Conectadas (Inec).
Ele classifica as unidades em seis níveis, do nível 0 ao nível 5. Nos níveis mais baixos estão escolas sem conexão adequada, sem energia suficiente ou com internet e Wi-Fi insuficientes. O nível 5 representa a situação em que velocidade e rede interna atendem aos parâmetros definidos. Para o monitoramento nacional, os níveis 4 e 5 são considerados adequados para uso pedagógico.
Isso muda a pergunta que uma Secretaria Municipal de Educação deveria fazer.
Em vez de perguntar apenas “quantas escolas têm internet?”, é mais útil perguntar:
“Quantas das nossas escolas conseguem colocar uma turma inteira para trabalhar pedagogicamente conectada, sem queda de sinal, com equipamentos disponíveis e professores preparados para utilizar esses recursos?”
A resposta é muito mais reveladora.
Conectividade significativa é uma política educacional, não apenas uma política de TI
Outro avanço conceitual da Estratégia Nacional de Escolas Conectadas é reconhecer que infraestrutura, isoladamente, não produz transformação pedagógica.
O desenho federal organiza a transformação digital da educação em eixos que incluem conectividade; ambientes e dispositivos; currículo; formação e competências; recursos educacionais digitais; e gestão e transformação digital.
Isso significa que comprar tablets, instalar fibra óptica ou distribuir notebooks é apenas uma parte da política.
Um município pode possuir excelentes equipamentos e ter baixo uso pedagógico. Pode haver laboratórios fechados por falta de manutenção. Professores podem receber recursos sem formação suficiente. Plataformas digitais podem ser contratadas sem integração ao currículo. Redes podem acumular sistemas diferentes sem avaliação de resultados.
Tecnologia educacional sem desenho pedagógico corre o risco de se transformar em patrimônio imobilizado.
A escola conectada precisa fazer a tecnologia chegar à aprendizagem.
Isso envolve, por exemplo, pesquisa orientada, leitura digital, produção de textos e conteúdos, experimentação científica, programação, pensamento computacional, robótica, avaliação formativa, acessibilidade, recursos para educação especial, produção audiovisual, colaboração entre estudantes e acesso qualificado a recursos educacionais digitais.
A própria política federal destaca que formação de professores e gestores, recursos educacionais digitais e infraestrutura precisam funcionar de maneira articulada.
Boa Vista mostra por que “ter internet” e “estar adequadamente conectado” são coisas diferentes
Boa Vista, em Roraima, oferece uma experiência especialmente interessante porque permite observar diferentes dimensões da política.
A prefeitura informou que a rede municipal alcançou, em 2025, 100% de adesão à Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e que todas as unidades contam com acesso à internet, inclusive escolas do campo e indígenas, algumas atendidas por conexão via satélite. Também informa que todas as escolas possuem Plano de Aplicação Financeira implementado e medidores de conectividade instalados.
Mas o dado mais instrutivo está justamente no planejamento seguinte.
Para 2026, a rede estabeleceu como objetivo colocar pelo menos 80% das escolas nos níveis 4 ou 5 do Inec. Ou seja: 100% das escolas terem internet não significa automaticamente que 100% já tenham conectividade adequada para uso pedagógico.
Essa distinção deveria orientar todas as redes municipais.
Boa Vista também definiu metas de formação: 100% dos professores capacitados em educação digital básica e 60% em nível avançado. Em uma das escolas destacadas pelo município, a Escola Municipal Palmira de Castro Machado, classificada no nível 5 do Inec, a infraestrutura aparece associada a Espaço Maker, chromebooks, tablets, telas interativas, robótica educacional e projetos pedagógicos de leitura.
É uma combinação importante: infraestrutura, monitoramento, formação e utilização curricular.
Não se pode atribuir melhora de aprendizagem simplesmente à presença desses equipamentos — seriam necessárias avaliações específicas para estabelecer causalidade. Mas o desenho da política municipal mostra algo replicável: a conexão deixa de ser finalidade e passa a funcionar como infraestrutura para práticas pedagógicas.
Santana de Parnaíba associa conectividade, dispositivos e plataformas educacionais
Outro exemplo que merece atenção está em Santana de Parnaíba, na Região Metropolitana de São Paulo.
Em julho de 2026, dados divulgados pela prefeitura com base no Inec indicaram que 70,3% das escolas públicas monitoradas no município estavam dentro dos parâmetros adequados de conectividade. O conjunto analisado incluía 72 colégios municipais e duas Etecs. Todas as unidades apresentavam energia adequada, 78% tinham velocidade de internet considerada adequada e 25 escolas haviam alcançado o nível máximo, nível 5.
A rede relaciona esse avanço à modernização da infraestrutura de internet e a investimentos em inclusão digital, incluindo chromebooks para alunos e professores e utilização de plataformas voltadas a componentes como Matemática e Língua Portuguesa.
Novamente, o aspecto importante não é transformar equipamentos ou plataformas em sinônimo de qualidade educacional.
O ensinamento está na integração.
Infraestrutura de rede permite utilização de dispositivos; dispositivos permitem acesso aos recursos digitais; esses recursos precisam ser incorporados ao planejamento docente; e o uso precisa posteriormente ser acompanhado para verificar se contribuiu para aprendizagem.
É esse ciclo que diferencia política educacional de simples aquisição tecnológica.
Caraguatatuba trabalha conectividade junto com currículo e formação
Caraguatatuba, no litoral paulista, apresenta outro caminho que pode interessar aos gestores municipais porque conecta infraestrutura digital à implementação curricular.
Em agosto de 2026, a Secretaria Municipal de Educação informou que 61 unidades foram selecionadas para ações vinculadas à Política de Inovação Educação Conectada e à Enec, com R$ 195.744 em recursos do Programa Dinheiro Direto na Escola destinados às iniciativas. Outras 11 unidades municipais participam das fases 5 e 6 do projeto Aprender Conectado, prevendo internet com velocidade adequada, rede Wi-Fi nos ambientes escolares e suporte técnico especializado por 24 meses.
Mas o aspecto mais relevante talvez esteja fora dos cabos e roteadores.
O município estruturou referenciais próprios de Educação em Tecnologia e Computação, constituiu grupo de trabalho, envolveu o Conselho Municipal de Educação e organizou as aprendizagens em torno de pensamento computacional, mundo digital e cultura digital. Também planeja formação continuada em inteligência artificial, ferramentas digitais e pensamento computacional.
A rede já recebeu 236 projetores e aguarda 180 notebooks. A implantação deverá ser acompanhada por indicadores, relatórios, portfólios digitais, visitas técnicas e monitoramento das atividades.
É uma experiência ainda em implementação, portanto não seria adequado classificá-la antecipadamente como prova de impacto sobre aprendizagem. Mas o desenho oferece uma referência interessante: infraestrutura, currículo, formação, governança e acompanhamento aparecem no mesmo planejamento.
Pequenos municípios também podem avançar
A política não é exclusiva de capitais ou redes de grande porte.
Barra de São Francisco, no Espírito Santo, informou em 2025 a implantação do Educação Conectada inicialmente em quatro unidades escolares, beneficiando mais de 575 estudantes com internet de alta velocidade. O caso mostra como municípios menores podem avançar progressivamente, priorizando unidades e expandindo a cobertura conforme recursos e condições locais.
Esse ponto é importante principalmente para municípios com escolas rurais, comunidades distantes e baixa oferta regional de telecomunicações.
Universalização não significa necessariamente utilizar a mesma tecnologia em todas as escolas.
Fibra óptica pode ser adequada para determinada unidade; conexão terrestre por outro meio pode resolver outra; satélite pode ser indispensável em territórios remotos. O objetivo municipal deve ser alcançar o padrão pedagógico de conectividade, utilizando a solução tecnicamente mais adequada para cada realidade.
O que muda para secretários municipais de Educação em 2026
A Portaria SEB/MEC nº 130, de 9 de abril de 2026, estabelece critérios para repasse de recursos da Política de Inovação Educação Conectada e detalha responsabilidades importantes das Secretarias de Educação.
Entre elas estão o monitoramento da Enec no Simec, a seleção das escolas que poderão receber apoio financeiro, a garantia de instalação do Medidor Educação Conectada nas escolas com internet, a indicação de articulador local e o acompanhamento das unidades no preenchimento das informações, elaboração do Plano de Aplicação Financeira, execução dos recursos e prestação de contas.
As escolas selecionadas também precisam cumprir procedimentos próprios, incluindo monitoramento no PDDE Interativo e elaboração do PAF.
Portanto, o tema não deveria permanecer somente sob responsabilidade da área de tecnologia da prefeitura.
Ele envolve pelo menos Secretaria de Educação, gestão pedagógica, setor de tecnologia, planejamento, compras e contratos, financeiro, responsáveis pelo PDDE, diretores escolares e equipes responsáveis pela formação docente.
O que os municípios podem fazer na prática
Um plano municipal consistente pode ser estruturado em dez movimentos:
- Confirmar a situação da adesão e dos responsáveis no Simec, verificando também a designação do articulador local.
- Produzir um diagnóstico escola por escola, e não apenas uma média da rede: energia, velocidade, Wi-Fi, equipamentos, usuários e localização.
- Instalar e acompanhar o Medidor Educação Conectada, tratando conectividade como indicador permanente, não como verificação realizada apenas na inauguração.
- Definir uma meta municipal para níveis 4 e 5 do Inec, com cronograma de avanço para cada unidade.
- Mapear todos os recursos e programas que atendem cada escola, incluindo PIEC/PDDE, Aprender Conectado, FUST e outras iniciativas, evitando lacunas e duplicidade de investimentos.
- Elaborar política de dispositivos, prevendo aquisição, vida útil, reposição, armazenamento, carregamento, manutenção, acessibilidade e descarte ambiental adequado.
- Integrar tecnologia ao currículo, ao projeto pedagógico e à BNCC Computação, deixando claro para que os recursos serão utilizados e quais aprendizagens deverão apoiar.
- Criar programa contínuo de desenvolvimento profissional, diferenciando formação instrumental aprender a operar uma ferramenta de formação pedagógica saber quando, por que e como utilizá-la para ensinar melhor.
- Implantar governança de segurança e sustentabilidade, contemplando LGPD, perfis de acesso, filtros adequados, segurança de rede, contratos, suporte técnico, manutenção preventiva e orçamento futuro.
- Monitorar resultados técnicos e pedagógicos, acompanhando percentual de escolas nos níveis 4 e 5, disponibilidade da conexão, cobertura Wi-Fi, utilização por professores e estudantes, práticas pedagógicas realizadas, formação docente e desigualdades entre escolas urbanas, rurais, indígenas e demais territórios.
Sustentabilidade é o desafio que aparece depois da instalação
Existe ainda uma questão que frequentemente recebe menos atenção: quem pagará e manterá toda essa estrutura nos próximos anos?
Computadores envelhecem. Baterias perdem capacidade. Access points precisam ser substituídos. Softwares mudam. Contratos de internet vencem. Plataformas educacionais precisam ser avaliadas. Professores novos chegam à rede. Equipamentos quebram.
Uma política sustentável precisa calcular o custo total de propriedade da infraestrutura tecnológica, e não apenas o custo da aquisição inicial.
O município deveria conhecer, por escola, quanto custa anualmente manter internet, Wi-Fi, suporte, equipamentos, licenças e formação.
Sem isso, existe o risco clássico das políticas de tecnologia: inaugurar muito no primeiro ano e utilizar pouco no terceiro.
O alerta do TCU: conexão precisa ser monitorada na realidade das escolas
A expansão da Enec também precisa ser acompanhada com olhar crítico.
Em abril de 2026, auditoria do Tribunal de Contas da União identificou fragilidades na governança, coordenação, transparência e monitoramento da política federal. O Tribunal chamou atenção, inclusive, para limitações dos dados utilizados para representar a qualidade efetivamente experimentada pelas escolas.
Isso não elimina a utilidade do Inec.
Ao contrário: reforça a necessidade de que municípios não tratem nenhum indicador nacional como substituto da gestão local.
Uma secretaria deveria confrontar o painel federal com medições próprias, reclamações das escolas, disponibilidade do serviço, cobertura real das salas, capacidade de conexão simultânea e utilização pedagógica.
Um município poderá aparecer conectado em determinado banco de dados e, ainda assim, encontrar salas nas quais 30 alunos não conseguem acessar simultaneamente uma atividade digital.
É na escola que o indicador precisa provar seu valor.
O que essas experiências municipais ensinam
Boa Vista mostra a importância de diferenciar acesso à internet de conectividade adequada e associa metas técnicas a formação docente. Santana de Parnaíba mostra a combinação entre modernização da rede, equipamentos e utilização de recursos educacionais. Caraguatatuba oferece um desenho no qual conectividade, currículo, formação, governança e monitoramento avançam simultaneamente. Barra de São Francisco demonstra que municípios menores também podem implementar a política de forma progressiva.
Nenhum desses casos deveria ser reproduzido mecanicamente.
Número de escolas, território, orçamento, infraestrutura de telecomunicações, capacidade técnica e perfil dos estudantes variam fortemente entre municípios brasileiros.
O que pode ser replicado é o método.
Diagnosticar. Planejar. Conectar. Distribuir o sinal. Disponibilizar equipamentos. Formar pessoas. Integrar ao currículo. Acompanhar o uso. Avaliar resultados. Manter a infraestrutura.
Conectividade deve chegar à sala de aula e à aprendizagem
O Brasil avançou rapidamente no número de escolas com conectividade considerada adequada. O próximo desafio é qualitativamente mais difícil.
Não basta fazer a fibra chegar ao portão.
Ela precisa chegar à sala de aula.
E não basta chegar à sala de aula.
Precisa transformar-se em possibilidade concreta de aprender, pesquisar, criar, resolver problemas, desenvolver pensamento computacional, utilizar informações criticamente e participar da cultura digital com segurança.
Para prefeitos e secretários municipais de Educação, portanto, Escolas Conectadas não deveria ser tratada como mais um programa federal a ser preenchido no Simec.
É uma oportunidade para construir uma verdadeira política municipal de educação digital.
Quando infraestrutura, professores, currículo, recursos digitais, gestão e sustentabilidade funcionam juntos, a tecnologia deixa de ser equipamento.
Passa a ser infraestrutura educacional.
E essa talvez seja a principal mudança que os municípios precisam compreender.
Fontes principais
Ministério da Educação – Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, documentos técnicos, Relatório Executivo, Nota Técnica nº 182/2025 e orientações da Política de Inovação Educação Conectada.
Portaria SEB/MEC nº 130, de 9 de abril de 2026.
Decreto nº 11.713, de 26 de setembro de 2023.
Indicador Escolas Conectadas — dados nacionais divulgados em maio de 2026.
Tribunal de Contas da União — auditoria sobre conectividade das escolas, Acórdão nº 1.082/2026-Plenário.
Prefeituras de Boa Vista, Santana de Parnaíba, Caraguatatuba e Barra de São Francisco — informações oficiais das respectivas redes municipais.
Portal oficial Escolas Conectadas MEC



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