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De Guarulhos à ONU: o que a experiência apresentada no Fórum Urbano Mundial ensina aos municípios

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De Guarulhos à ONU: o que a experiência apresentada no Fórum Urbano Mundial ensina aos municípios

Em 2022, Guarulhos levou ao principal encontro global da ONU sobre cidades experiências de incentivo à leitura, acesso à informação e formação do pensamento crítico. Quatro anos depois, parte daquela agenda continua identificável em políticas e estruturas municipais, enquanto educação midiática e cidadania digital ganharam ainda mais espaço no debate público.

Uma reportagem publicada em junho de 2022 pelo SP Diário registrou que o então prefeito de Guarulhos, Gustavo Henric Costa, conhecido como Guti, participaria do 11º Fórum Urbano Mundial, na Polônia, para apresentar iniciativas desenvolvidas pelo município. A informação central é verdadeira, mas há uma correção geográfica importante: o evento não ocorreu em Varsóvia, como informou a matéria, e sim em Katowice, entre 26 e 30 de junho de 2022. A própria ONU-Habitat confirma a cidade-sede e as datas.

A participação de Guarulhos também não ficou apenas no anúncio. A Frente Nacional de Prefeitos (FNP) registrou que Guti participou, em 29 de junho, do painel “O paradigma Unesco MIL Cities e a Agenda 2030: métricas para as cidades do futuro”, no qual apresentou experiências municipais ligadas à educação, leitura e acesso à informação.

O caso merece ser revisitado em 2026 porque toca em uma questão cada vez mais presente nas prefeituras: como preparar cidadãos, estudantes e servidores para uma sociedade em que informação, redes sociais, inteligência artificial, desinformação e serviços digitais passaram a fazer parte da vida cotidiana.

O que Guarulhos efetivamente apresentou

O 11º Fórum Urbano Mundial, convocado pelo ONU-Habitat, reuniu representantes de governos, municípios, universidades, organizações sociais e setor privado para discutir o futuro das cidades. A edição de 2022 teve como tema geral “Transformando nossas cidades para um futuro urbano melhor”. Segundo a ONU no Brasil, havia mais de 18,5 mil inscritos de 160 países.

No painel do qual Guarulhos participou, o debate estava relacionado ao conceito de Media and Information Literacy, ou Alfabetização Midiática e Informacional, difundido pela UNESCO.

Para a UNESCO, essa alfabetização envolve desenvolver capacidades para compreender o funcionamento da mídia e das diferentes fontes de informação, avaliar conteúdos criticamente e tomar decisões fundamentadas tanto como consumidor quanto como produtor de informação.

Foi nesse contexto que Guarulhos apresentou iniciativas locais.

Uma das principais foi o programa Minha Sala de Leitura. A FNP registrou que, segundo os dados apresentados pelo município naquele momento, mais de 500 mil livros haviam sido entregues entre 2018 e 2021 a estudantes da educação infantil, ensino fundamental e Educação de Jovens e Adultos.

Há documentação municipal que confirma a existência e a abrangência inicial do projeto. Em 2018, a própria Secretaria Municipal de Educação informou que mais de 45 mil estudantes do 1º ao 4º ano receberiam conjuntos de livros para estimular a leitura e a formação de acervos familiares.

Outra iniciativa apresentada no fórum foi a criação de espaços de leitura em Unidades Básicas de Saúde e Centros de Referência de Assistência Social, ampliando o acesso ao livro para além da escola. Também foram mencionadas formação continuada de professores e ações de comunicação acessível.

Portanto, o núcleo factual da reportagem de 2022 se sustenta: Guarulhos participou efetivamente do WUF11 e apresentou políticas municipais relacionadas à leitura, educação e acesso à informação.

O ponto mais interessante aparece quando olhamos para 2026

Uma apresentação internacional pode gerar boa comunicação institucional, mas isso não é suficiente para caracterizar uma política pública consistente. Para outros municípios, a pergunta mais útil é outra: quatro anos depois, existem sinais de continuidade institucional?

Há alguns.

O Observatório de Políticas Públicas de Guarulhos, criado em 2017, permanece ativo e teve sua regulamentação alterada em 2025. O município informa que a estrutura trabalha com diagnósticos, indicadores, acompanhamento de políticas e articulação do conhecimento produzido pela administração pública. O Observatório também relaciona suas atividades aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, particularmente ao ODS 16, ligado a instituições eficazes, transparência e acesso à informação.

Esse aspecto é relevante porque políticas de informação não deveriam se limitar à comunicação institucional. Dados precisam servir ao diagnóstico, ao planejamento e à avaliação das políticas públicas.

Na educação, Guarulhos também mantém iniciativas relacionadas à alfabetização. Em fevereiro de 2026, a Secretaria Municipal de Educação iniciou uma nova etapa do Programa LEIA+ Guarulhos, direcionada aos professores alfabetizadores do 1º e 2º anos. A estratégia ampliou de 16 para 20 os polos regionais de acompanhamento e formação, aproximando o trabalho pedagógico das diferentes realidades territoriais da rede.

Isso não permite afirmar que os resultados atuais da alfabetização sejam consequência das iniciativas apresentadas em 2022. Seria uma relação causal que as fontes disponíveis não demonstram. Permite, porém, observar uma continuidade temática entre leitura, formação docente, alfabetização e acesso ao conhecimento.

A pauta de 2022 ficou ainda mais atual

Há outro elemento que torna a experiência interessante para os municípios brasileiros.

Em 2026, o Mapa Brasileiro da Educação Midiática, mantido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, registra em Guarulhos a iniciativa Altinovare – Educação para Inovação e Cidadania Digital. Segundo a descrição oficial do mapa, o projeto trabalha competências digitais no ensino fundamental, articulando alfabetização tecnológica, letramento digital, identificação de desinformação, uso ético da tecnologia e formação continuada dos professores.

O mapa registra ainda outra experiência desenvolvida na cidade, vinculada à Universidade Guarulhos, envolvendo temas como desinformação, inteligência artificial, internet, segurança digital e uso consciente de telas.

Essas iniciativas não devem ser confundidas automaticamente com programas da Prefeitura nem apresentadas como continuidade direta das políticas de 2022. O que elas mostram é que o território de Guarulhos continua produzindo experiências relacionadas à educação midiática e à cidadania digital.

E esse assunto deixou de ser periférico.

Ensinar uma criança a ler um texto continua sendo indispensável. Mas a vida contemporânea também exige que ela consiga identificar quem produziu determinada informação, diferenciar opinião de evidência, reconhecer conteúdo manipulado, avaliar fontes, compreender interesses presentes em uma mensagem e utilizar ferramentas digitais de maneira responsável.

A inteligência artificial generativa tornou essa discussão ainda mais concreta.

O que outros municípios podem aprender com o caso

A principal lição não está em enviar representantes a eventos internacionais. Está na arquitetura das políticas apresentadas.

O caso sugere uma conexão entre leitura, escola, formação de professores, acesso público à informação, inclusão digital, comunicação e uso de dados. Essa combinação é mais útil para uma prefeitura do que criar projetos isolados que desaparecem quando termina uma gestão.

Um município interessado em avançar nessa direção pode começar sem grandes estruturas tecnológicas. Pode mapear suas ações de leitura e cidadania digital, identificar o que já existe nas escolas, bibliotecas, UBS, CRAS e equipamentos culturais, formar professores, estabelecer indicadores e integrar diferentes secretarias.

Também pode incorporar educação midiática aos projetos pedagógicos sem transformá-la necessariamente em uma disciplina isolada. Língua Portuguesa, História, Ciências, Matemática e projetos interdisciplinares oferecem situações concretas para trabalhar avaliação de fontes, interpretação de gráficos, publicidade, redes sociais, conteúdos produzidos por IA e desinformação.

Há ainda um ponto administrativo importante: medir o que está sendo feito.

Distribuir livros é um indicador de oferta. Saber quantos estudantes tiveram acesso é outro. Mas uma avaliação mais completa precisa observar utilização, participação das famílias, práticas de leitura, formação dos professores e, quando metodologicamente possível, indicadores de aprendizagem.

É justamente nessa passagem de “atividade realizada” para “resultado acompanhado” que uma boa iniciativa começa a se transformar em política pública.

Para replicar com responsabilidade

Prefeituras que desejarem desenvolver uma estratégia semelhante podem organizar o trabalho em algumas frentes articuladas: diagnóstico das iniciativas existentes; definição de objetivos mensuráveis; formação dos profissionais; integração entre Educação, Cultura, Comunicação, Assistência Social e outras áreas; produção de materiais adequados às diferentes faixas etárias; participação das famílias; e acompanhamento periódico dos resultados.

Também é importante separar três níveis de evidência.

O primeiro é entrega, como quantidade de livros distribuídos, professores formados ou espaços de leitura implantados.

O segundo é uso, como frequência de leitura, participação nas atividades e utilização dos materiais.

O terceiro é resultado, que exige indicadores capazes de mostrar mudanças em aprendizagem, competências de leitura ou alfabetização midiática.

Sem essa distinção, números elevados de atendimento podem produzir boas manchetes, mas dizem pouco sobre impacto.

Quando uma experiência municipal ganha relevância fora do município

A passagem de Guarulhos pelo Fórum Urbano Mundial mostra algo que interessa às 5.570 administrações municipais brasileiras: uma prática local pode entrar em discussões internacionais quando é documentada, contextualizada e relacionada a problemas compartilhados por outras cidades.

Mas reconhecimento externo não substitui avaliação.

Para um município tornar-se referência, é preciso demonstrar o problema enfrentado, explicar a intervenção, documentar sua implementação, apresentar indicadores, reconhecer dificuldades e permitir que outras administrações entendam quais partes da experiência podem ser adaptadas.

Esse é o aspecto mais útil do caso de Guarulhos.

Em 2022, a cidade levou à ONU experiências de leitura, educação e informação. Em 2026, encontramos políticas e estruturas municipais ainda relacionadas a alfabetização, dados e planejamento, ao mesmo tempo em que novas iniciativas de educação midiática aparecem no território.

Não é evidência suficiente para atribuir resultados educacionais atuais àquela agenda, nem para classificar Guarulhos como modelo absoluto. É suficiente, porém, para tratar a experiência como um caso que merece atenção, principalmente porque conecta uma questão antiga, o direito de ler e compreender o mundo, a um problema cada vez mais contemporâneo: saber interpretar criticamente o enorme volume de informação que chega todos os dias às pessoas.

Fontes consultadas

A reportagem original do SP Diário foi confrontada com registros do ONU Brasil sobre o WUF11, do ONU-Habitat sobre o Fórum Urbano Mundial em Katowice, da Frente Nacional de Prefeitos sobre a participação de Guarulhos, da UNESCO sobre alfabetização midiática e informacional, do Portal da Educação de Guarulhos, do Observatório de Políticas Públicas de Guarulhos e do Mapa Brasileiro da Educação Midiática.

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