O que a trajetória de Gleisinho, em Itaúna, ensina aos vereadores sobre transformar inclusão em política pública
Ex-vereador mineiro exerceu quatro mandatos consecutivos, levou pautas de acessibilidade ao Legislativo e, já fora da Câmara Municipal, recebeu em 2025 o Prêmio Darcy Ribeiro de Educação. Sua experiência mostra como especialização temática, escuta social e continuidade podem dar mais consistência a um mandato.
Quando um vereador deixa de ser reconhecido apenas pelas votações que participou e passa a ser associado a uma política pública específica, há uma experiência que merece ser examinada. É o caso de Gleison Fernandes de Faria, conhecido como Gleisinho, de Itaúna, em Minas Gerais.
Ele exerceu quatro mandatos consecutivos na Câmara Municipal, entre 2009 e 2024. Em 2024 tentou a reeleição, mas não conquistou novo mandato. Portanto, é importante fazer a distinção: Gleisinho não é vereador atualmente. A relevância de sua trajetória para o Pauta Municipal Brasil está justamente em analisar o legado de uma atuação parlamentar já concluída e identificar o que pode ser aprendido por vereadores que hoje exercem mandato.
Em 2025, Gleison esteve entre os três agraciados com o Prêmio Darcy Ribeiro de Educação, concedido pela Câmara dos Deputados a pessoas ou entidades que se destacam na defesa e promoção da educação brasileira. A Comissão de Educação registrou 16 votos para sua indicação. Escriba
A homenagem, porém, não deve ser apresentada simplesmente como um prêmio pelo exercício do mandato parlamentar. A documentação oficial associa o reconhecimento a uma trajetória mais ampla: formação em Ciência da Computação, especialização em Educação Inclusiva, atuação profissional e desenvolvimento de tecnologia assistiva, além dos quatro mandatos exercidos em Itaúna. Câmara dos Deputados
É justamente essa combinação que torna o caso interessante para câmaras municipais brasileiras.
Da experiência pessoal à construção de uma agenda pública
Gleison nasceu com paralisia cerebral e enfrentou limitações de coordenação motora fina, fala e equilíbrio. Estudou inicialmente na Apae, depois frequentou escola regular e cursou Ciência da Computação na Universidade de Itaúna. A dificuldade de utilizar computadores com os dispositivos disponíveis o levou a desenvolver, ainda em sua formação, uma solução voltada a pessoas com limitações motoras. TiX
Desse processo surgiu a tecnologia que evoluiria para o Teclado Inteligente Multifuncional, o TiX, recurso de tecnologia assistiva desenvolvido para ampliar possibilidades de interação com computadores e outros equipamentos.
A Câmara dos Deputados destacou esse trabalho ao anunciar os vencedores do Prêmio Darcy Ribeiro de 2025. O órgão identifica Gleison como especialista em Educação Inclusiva, ex-chefe de Tecnologia da Informação da Universidade de Itaúna e inventor do TiX. Câmara dos Deputados
Para vereadores, há uma primeira aprendizagem nesse percurso: mandatos podem se tornar mais consistentes quando desenvolvem especialização temática.
O vereador não precisa tentar se transformar em especialista em todos os problemas da prefeitura. Educação inclusiva, primeira infância, mobilidade, transparência, saúde básica, saneamento, desenvolvimento econômico, proteção animal ou orçamento público podem se tornar áreas permanentes de estudo, fiscalização e proposição.
Especialização não significa abandonar os demais temas da cidade. Significa acumular conhecimento suficiente para qualificar uma determinada agenda.
Inclusão apareceu em diferentes frentes do mandato
Os registros da Câmara de Itaúna mostram que a pauta de inclusão não ficou limitada ao discurso.
Em 2013, por exemplo, Gleisinho solicitou a regulamentação do serviço de transporte destinado às pessoas com deficiência, conhecido como Porta a Porta. Cmi Tauna
No ano seguinte, registros legislativos mostram sua atuação relacionada aos procedimentos de credenciamento e acesso às vagas de estacionamento destinadas a pessoas com deficiência e idosos. Cmi Tauna
Em 2019, a Câmara aprovou uma proposição de sua autoria denominada Pernas Voluntárias, destinada à inclusão de adultos e crianças que utilizam cadeira de rodas em atividades de atletismo, com apoio de voluntários. Cmi Tauna
Já em 2024, o sistema legislativo da Câmara registra um Projeto de Lei Complementar de autoria de Gleison Fernandes que propunha a oferta de profissionais de apoio escolar especializados para atendimento a alunos com deficiência nas salas de aula do município. O registro encontrado confirma a apresentação da proposta, mas não é suficiente, isoladamente, para afirmar que ela tenha se convertido em lei. SAPL Itaúna
Essa ressalva é importante. Uma prática parlamentar deve ser avaliada pela diferença entre propor, aprovar, regulamentar, financiar, implementar e produzir resultados. São etapas diferentes.
Ainda assim, a sequência documental revela uma característica: a inclusão reaparece ao longo dos anos em transporte, acessibilidade urbana, esporte e educação.
Isso caracteriza uma agenda, e não apenas uma ação isolada.
Quatro mandatos não significam que toda a atuação tenha sido dedicada à inclusão
Transformar uma trajetória parlamentar em case exige evitar outro erro comum: selecionar apenas os episódios positivos e criar uma narrativa idealizada.
Gleisinho exerceu funções ordinárias de um vereador e tratou de inúmeros outros assuntos locais. Registros da Câmara mostram indicações envolvendo pavimentação, transporte coletivo, sinalização e infraestrutura urbana, entre outras demandas. Cmi Tauna
Também apresentou propostas em áreas diferentes. Em 2022, por exemplo, aparece como autor de projeto que instituía o Programa Municipal de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar. Cmi Tauna
Portanto, o case não está em dizer que seu mandato foi exclusivamente dedicado à educação inclusiva.
O ponto de interesse está na persistência de uma agenda reconhecível dentro de uma atuação parlamentar mais ampla.
Isso é diferente.
O prêmio nacional veio depois do mandato
Há ainda um aspecto pouco comum nessa trajetória.
Depois de quatro eleições consecutivas vencidas, Gleison disputou novamente uma cadeira em 2024, mas não foi reeleito. Registros eleitorais disponíveis apontam quatro vitórias consecutivas, em 2008, 2012, 2016 e 2020, e a não eleição em 2024. Radar do Voto
Quando recebeu o reconhecimento da Câmara dos Deputados, portanto, já não integrava a Câmara Municipal.
Em novembro de 2025, a própria Câmara dos Deputados informava que ele exercia a função de gerente do Núcleo de Inclusão Social da Prefeitura de Itaúna. Câmara dos Deputados
Em 2026, decreto municipal também registra Gleison Fernandes de Faria como representante titular da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Itaúna, o Comped. Itaúna
Há uma mensagem institucional relevante aqui: uma agenda pública pode sobreviver ao mandato eletivo.
Quando o trabalho está vinculado apenas à presença do político na Câmara, tende a desaparecer quando termina a legislatura. Quando há conhecimento acumulado, organizações envolvidas, conselhos, legislação, tecnologia e redes de colaboração, há maior possibilidade de continuidade.
Por que o Prêmio Darcy Ribeiro importa
Criado em 1998, o Prêmio Darcy Ribeiro é concedido pela Comissão de Educação e pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados. Três pessoas ou entidades são reconhecidas a cada edição por trabalhos de destaque na defesa e promoção da educação brasileira. Câmara dos Deputados
Em 2025, os três agraciados foram a Associação de Olho no Material Escolar, o CIEP 441 Brizolão Mané Garrincha, de Magé, no Rio de Janeiro, e Gleison Fernandes de Faria. Portal da Câmara dos Deputados
A escolha ocorre a partir de indicações parlamentares e votação da Comissão de Educação. Gleison recebeu 16 votos na etapa que definiu os três agraciados. Escriba
O prêmio não comprova, por si só, o impacto de cada política que ele apresentou durante seus mandatos. Tampouco permite afirmar causalmente que suas proposições tenham produzido determinados resultados educacionais em Itaúna.
O reconhecimento comprova outra coisa: sua trajetória e seu trabalho na área de inclusão foram considerados relevantes pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados dentro dos critérios da premiação.
Essa é a dimensão que pode ser afirmada com segurança.
O que este caso ensina aos vereadores
O primeiro aprendizado é bastante concreto: escolher uma agenda e estudá-la profundamente.
Um vereador interessado em educação inclusiva, por exemplo, precisa conhecer a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, a Lei Brasileira de Inclusão, as normas educacionais, os dados do Censo Escolar, a estrutura da rede municipal, os profissionais existentes, os serviços de apoio, os recursos do Fundeb e as responsabilidades de União, estado e município.
O segundo é transformar demandas individuais em diagnóstico coletivo. Uma reclamação de uma família pode revelar um problema maior: ausência de transporte acessível, barreiras arquitetônicas, falta de profissional de apoio, dificuldades de comunicação ou inexistência de tecnologia assistiva.
O terceiro é não limitar a função parlamentar à apresentação de projetos de lei. Muitas mudanças dependem de fiscalização, requerimentos de informação, audiências públicas, articulação orçamentária, acompanhamento da execução e diálogo com conselhos municipais.
O quarto é acompanhar o que acontece depois da aprovação. Uma lei sem regulamentação, orçamento, responsável pela execução e indicador de acompanhamento pode produzir pouco efeito.
O quinto aprendizado talvez seja o mais relevante: experiência pessoal pode ajudar a identificar problemas públicos, mas a política precisa ser construída para todos. A legitimidade de uma política de inclusão não decorre da história pessoal de quem a propõe. Ela depende de direitos, dados, escuta das pessoas afetadas, desenho institucional e capacidade de execução.
O que uma Câmara Municipal poderia fazer na prática
A experiência de Itaúna pode servir de ponto de partida, mas não deve ser simplesmente copiada.
Uma Câmara que queira estruturar uma agenda permanente de inclusão poderia começar com um diagnóstico municipal: quantos estudantes com deficiência estão matriculados, quais apoios recebem, quantas escolas possuem acessibilidade, quais tecnologias assistivas estão disponíveis, quanto o município investe e quais barreiras são apontadas pelas famílias.
Depois, vereadores podem cruzar essas informações com orçamento, Plano Municipal de Educação, Plano Plurianual, Lei de Diretrizes Orçamentárias e ações da Secretaria de Educação.
Audiências públicas também podem sair do formato cerimonial. Uma audiência útil deveria terminar com problemas identificados, responsáveis, prazos e mecanismos de acompanhamento.
O Legislativo ainda pode acompanhar transporte acessível, calçadas e prédios públicos, esporte inclusivo, acesso digital, atendimento de saúde, assistência social e empregabilidade.
Inclusão é uma agenda transversal.
Para replicar com responsabilidade
O exemplo de Gleisinho não deve produzir uma conclusão simplista do tipo “apresente determinado projeto e reproduza o resultado”.
Contextos municipais são diferentes. Capacidade fiscal, tamanho da rede pública, estrutura administrativa, organizações locais e demandas das pessoas com deficiência variam bastante.
A experiência oferece, sobretudo, um método:
problema vivido ou identificado → estudo técnico → escuta dos cidadãos → proposição legislativa → articulação com o Executivo → acompanhamento da execução → continuidade da agenda.
É esse encadeamento que interessa.
E há indicadores que permitem acompanhar resultados: percentual de escolas acessíveis, estudantes atendidos por recursos de tecnologia assistiva, disponibilidade de profissionais de apoio conforme as necessidades educacionais, tempo de espera por serviços, acessibilidade do transporte, participação das pessoas com deficiência nos conselhos e execução orçamentária das políticas previstas.
Um case de trajetória parlamentar, não de mandato atual
Chamar Gleison Fernandes de Faria de “vereador de Itaúna” hoje produziria uma informação incorreta. Seu quarto mandato terminou em 2024.
Mas deixar sua experiência fora de uma discussão sobre boas práticas legislativas apenas porque ele não ocupa atualmente uma cadeira também seria perder uma oportunidade.
O case de Gleisinho interessa justamente porque permite observar o ciclo completo: quatro mandatos, uma pauta persistente de inclusão, atuação em tecnologia assistiva, passagem para uma função ligada à inclusão no Executivo municipal e reconhecimento posterior pela Câmara dos Deputados.
Para os atuais vereadores brasileiros, talvez essa seja a principal provocação.
Um mandato não precisa ser medido pela quantidade de projetos apresentados. Pode ser medido pela capacidade de compreender um problema público, construir respostas tecnicamente sustentáveis, fiscalizar sua execução e deixar estruturas que continuem funcionando depois que a legislatura terminar.
Esse é um critério mais exigente. E também mais útil para o cidadão.
Fontes consultadas: Câmara dos Deputados, Comissão de Educação e documentação do Prêmio Darcy Ribeiro de Educação 2025; Câmara Municipal de Itaúna e Sistema de Apoio ao Processo Legislativo; Prefeitura de Itaúna; registros sobre a trajetória e o desenvolvimento da tecnologia TiX.
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



Publicar comentário