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Instituto Rodrigo Mendes: como os municípios podem transformar inclusão escolar em política pública

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Instituto Rodrigo Mendes: como os municípios podem transformar inclusão escolar em política pública

Experiências em dez cidades, formação de educadores e reconhecimentos institucionais ajudam prefeituras a avaliar possíveis parcerias. A escolha exige objetivos claros, documentação e acompanhamento dos resultados.

Uma política de educação inclusiva precisa chegar à sala de aula, ao planejamento do professor e às condições de participação de cada estudante. Para as prefeituras, isso exige formação, recursos acessíveis, organização dos serviços e continuidade administrativa. O Instituto Rodrigo Mendes (IRM), organização sem fins lucrativos fundada em 1994, atua nesse campo com a missão de colaborar para que pessoas com deficiência tenham educação de qualidade em escolas inclusivas. Seu trabalho reúne pesquisa, formação continuada e atuação em políticas públicas.

Uma experiência recente ajuda a compreender essa contribuição. Entre 2023 e 2025, o projeto Alavancas para a educação inclusiva de qualidade trabalhou com dez redes municipais. Segundo o balanço do Instituto, no primeiro ano foram certificados 394 cursistas e elaborados 102 projetos inclusivos. Em 2024, a iniciativa formou 170 técnicos de secretarias e apoiou a elaboração ou revisão de dez políticas públicas. O ciclo terminou em 2025, com acompanhamento das redes e de seus processos de implementação.

São entregas relevantes para municípios que precisam organizar sua atuação. Mas sua interpretação exige cuidado: quantidade de profissionais formados e documentos produzidos demonstra execução do projeto. Para comprovar melhoria da aprendizagem, é necessário acompanhar também o que mudou na experiência escolar dos estudantes.

Como o Instituto pode contribuir com a rede municipal. A atuação documentada do IRM combina formação de professores, apoio às equipes das secretarias e produção de conhecimento. No Alavancas, o trabalho envolveu planejamento, financiamento, gestão e monitoramento. As políticas elaboradas contemplaram temas como organização do Atendimento Educacional Especializado (AEE), orientação às famílias, materiais acessíveis e articulação entre órgãos públicos.

Na prática, essa abordagem pode ajudar uma secretaria a responder perguntas concretas: quais barreiras impedem a participação nas atividades? Como o professor da classe comum e o profissional do AEE planejam juntos? Quem acompanha as demandas das famílias? Quais adaptações precisam de orçamento e quais dependem de reorganização pedagógica?

Há também recursos que podem ser consultados antes de qualquer parceria específica. O portal DIVERSA reúne conteúdos e experiências de educação inclusiva. A plataforma de formação do Instituto oferece cursos gratuitos e acessíveis, desenvolvidos com parceiros como Fundação Lemann e União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). A oferta e as condições de cada formação devem ser verificadas no catálogo.

Quais municípios participaram. No ciclo de 2023 a 2025 do Alavancas, foram selecionadas redes das cinco regiões brasileiras:

RegiãoMunicípios participantes
NorteMaués (AM) e Óbidos (PA)
NordesteCampo Formoso (BA), Gado Bravo (PB) e Irauçuba (CE)
Centro-OesteLucas do Rio Verde (MT)
SudesteCajati (SP) e Patos de Minas (MG)
SulAlvorada (RS) e Canguçu (RS)

A relação corresponde a esse projeto, não à totalidade das parcerias históricas do Instituto nem, necessariamente, a contratos vigentes em 2026. O Alavancas contou com BNDES, Movimento Bem Maior, Instituto Ambikira e apoio do Instituto Machado Meyer.

Três experiências mostram diferentes tipos de avanço.

Cajati: a inclusão ganhou uma base legal municipal. Participante do Alavancas, a cidade paulista instituiu sua Política Municipal de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva pela Lei nº 2.305, de 30 de outubro de 2025. O texto trata de acessibilidade, atendimento especializado, responsabilidades institucionais e formação dos profissionais. É uma evidência concreta de organização da política local. A aprovação da lei, porém, precisa ser acompanhada de orçamento, execução e avaliação; isoladamente, ela não comprova melhoria da aprendizagem.

Óbidos: os projetos partiram dos problemas das escolas. Em agosto de 2023, a prefeitura informou que dez escolas municipais desenvolviam projetos inclusivos vinculados à formação. Na Escola Professor Manuel Valente do Couto, a iniciativa concentrou-se na relação entre escola e família. A direção relatou maior participação dos familiares após o início do trabalho. O registro mostra uma intervenção contextualizada, embora o relato não corresponda a uma avaliação independente de impacto.

Lucas do Rio Verde: formação articulada à prática. Em setembro de 2023, a prefeitura registrou visitas às escolas e um seminário para apresentação dos projetos. Segundo a Secretaria de Educação, as atividades envolveram 45 profissionais e alcançaram diretamente 300 crianças. Foram relatados 12 encontros semipresenciais, com 40 horas de formação. Esses dados indicam alcance e mobilização da rede, sem permitir concluir, por si, quanto os estudantes aprenderam em decorrência da iniciativa.

O que esses municípios ensinam é a importância de combinar formação com aplicação: identificar um problema, desenvolver uma resposta na escola e criar condições para sua continuidade na rede. Nas fontes consultadas, os avanços mais bem documentados são de formação, planejamento e institucionalização. Não foi identificada uma avaliação comparativa que permita atribuir ao Instituto, isoladamente, ganhos de aprendizagem nesses municípios.

Quais reconhecimentos sustentam sua trajetória. O histórico do IRM inclui prêmios institucionais, reconhecimentos a projetos e homenagens pessoais. Para avaliar credibilidade, é importante identificar corretamente cada um:

AnoReconhecimentoAlcance
2017World Summit Award (WSA)O DIVERSA venceu a categoria Aprendizagem e Educação da etapa brasileira.
2020Zero ProjectO DIVERSA e o curso Portas Abertas para a Inclusão EAD foram reconhecidos como práticas inovadoras.
2021Reimagine EducationO histórico institucional registra reconhecimento ao DIVERSA na categoria de projetos da América Latina.
2022Prêmio Melhores ONGsO Instituto aparece na lista oficial das 100 organizações reconhecidas naquela edição.
2022Selo de Direitos Humanos e DiversidadeReconhecimento ao DIVERSA pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.

Os registros foram conferidos na lista do organizador do Melhores ONGs e nas publicações institucionais do IRM e do DIVERSA. No caso do WSA, a notícia da época especifica a etapa nacional, distinção que deve ser preservada.

Também é necessário cuidado com premiações de campanhas: o histórico menciona Cannes Lions e Grand Clio recebidos pela Rede Globo por “Movido a respeito”, campanha da qual o Instituto foi parceiro. Esses reconhecimentos não devem ser apresentados como prêmios exclusivos do IRM.

Quanto um prefeito pode confiar? A documentação pública oferece fundamentos consistentes para considerar o Instituto um potencial parceiro técnico. Além dos reconhecimentos, há colaboração confirmada pelo próprio UNICEF no projeto Portas Abertas para a Inclusão. O BNDES também relaciona o Alavancas entre seus projetos de educação apoiados pelo Fundo Socioambiental.

O site do IRM disponibiliza estatuto, composição dos conselhos, demonstrativos financeiros e contrato relacionado ao Alavancas. Essa transparência facilita a análise municipal. A existência dos documentos, entretanto, não equivale à verificação de sua regularidade para uma parceria específica.

A conclusão possível é objetiva: há trajetória e experiência documentadas que justificam diálogo técnico e avaliação de proposta. Uma decisão administrativa precisa acrescentar a essa reputação a análise da equipe disponível, dos custos, da capacidade de execução e da adequação às necessidades locais.

O que muda para prefeitos e secretarias na hora de firmar parcerias. Existem dois caminhos diferentes: participar de uma seleção promovida pelo Instituto ou organizar um procedimento municipal para escolher uma entidade parceira.

No primeiro caso, a prefeitura deve acompanhar as chamadas oficiais. A seleção histórica do Alavancas não significa que exista uma nova rodada aberta. É preciso conferir público elegível, responsabilidades, financiamento e condições de participação.

No segundo, o município deve definir o objeto e o instrumento jurídico adequado. Nas parcerias regidas pela Lei nº 13.019/2014, o termo de colaboração corresponde a propostas da administração com transferência financeira; o termo de fomento, a propostas da organização com transferência; e o acordo de cooperação, a parcerias sem transferência financeira. Colaboração e fomento têm chamamento público como regra, ressalvadas as hipóteses legais. Prêmios, isoladamente, não demonstram inviabilidade de competição nem autorizam inexigibilidade. O enquadramento precisa de análise jurídica e observância da regulamentação local.

Se o objeto for uma contratação de serviços, a análise deve considerar o regime aplicável, inclusive a Lei nº 14.133/2021. A condição de entidade sem fins lucrativos não define, sozinha, o procedimento.

O que os municípios podem fazer na prática. Antes de buscar uma proposta, a secretaria pode organizar um diagnóstico das barreiras à aprendizagem e à participação, ouvindo estudantes com deficiência, famílias, professores e gestores. Com esse retrato, fica mais fácil delimitar o apoio necessário.

Para avaliar propostas, recomenda-se observar:

  • Experiência compatível: trabalhos anteriores com redes semelhantes e referências verificáveis.
  • Método de formação: acompanhamento da aplicação nas escolas, além das aulas e certificados.
  • Entregas e responsabilidades: produtos, cronograma, equipe e custos claramente definidos.
  • Resultados esperados: mudanças observáveis no planejamento, na acessibilidade e na participação dos estudantes.
  • Continuidade: capacidade de a equipe municipal manter o trabalho após o encerramento da parceria.

Esses critérios devem refletir a necessidade pública e permitir avaliação objetiva das propostas.

Para replicar com responsabilidade, o município precisa reservar tempo de trabalho das equipes, recursos para as adequações e uma rotina de acompanhamento. Entre os indicadores possíveis estão frequência dos estudantes, participação nas atividades, acesso aos apoios necessários, barreiras removidas e evolução da aprendizagem, respeitando as necessidades individuais.

A contribuição de uma parceria deve aparecer na capacidade que fica na rede: professores com apoio para ensinar, escolas capazes de ajustar suas práticas e uma secretaria que acompanha o percurso de cada estudante. A experiência do Instituto Rodrigo Mendes oferece referências para esse trabalho. Cabe ao município transformar essas referências em compromissos executáveis e resultados verificáveis.

Fontes para consulta:

Apuração realizada em 1º de outubro de 2026.

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