Carregando agora

Matemática reage nos anos iniciais: o que está por trás da maior alta registrada no Saeb

Municípios Destaque

Matemática reage nos anos iniciais: o que está por trás da maior alta registrada no Saeb

Entre 2023 e 2025, estudantes da rede pública avançaram 9,15 pontos em Matemática no 5º ano. O resultado merece atenção dos municípios, mas o número, sozinho, não explica o que aconteceu dentro das escolas.

Durante muito tempo, falar sobre aprendizagem em Matemática no Brasil significou falar, principalmente, sobre dificuldades.

Os resultados mais recentes do Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb, permitem acrescentar um dado diferente a essa conversa.

Entre 2023 e 2025, a média dos estudantes da rede pública no 5º ano do ensino fundamental passou de 218,26 para 227,41 pontos em Matemática.

São 9,15 pontos de crescimento em dois anos.

Foi a maior alta registrada nesse recorte da avaliação e suficiente para deslocar a média nacional dos anos iniciais do nível 4 para o nível 5 na escala de proficiência do Saeb.

O número merece reconhecimento.

Mas merece, principalmente, investigação.

Porque para prefeitos, secretários de Educação, diretores e professores a pergunta mais relevante não deveria ser apenas “quanto a nota aumentou?”.

A pergunta que interessa à gestão educacional é outra:

o que aconteceu com a aprendizagem das crianças para que esse indicador mudasse?

Antes do Ideb existe a aprendizagem

Uma distinção é fundamental.

O Ideb não é uma prova de Matemática.

Ele combina duas dimensões. De um lado estão os resultados do Saeb em Língua Portuguesa e Matemática. Do outro estão informações sobre fluxo escolar, especialmente as taxas de aprovação obtidas a partir do Censo Escolar.

Em 2025, considerando somente a rede pública, o Ideb dos anos iniciais passou de 5,7 para 6,1. Nos anos finais, avançou de 4,7 para 5,0 e, no ensino médio, de 4,1 para 4,3. O Inep informa que as três etapas atingiram os maiores valores de sua série histórica.

Quando abrimos o indicador, entretanto, aparece algo particularmente relevante nos anos iniciais.

Em Língua Portuguesa, a média do 5º ano passou de aproximadamente 207,6 para 215,1 pontos.

Em Matemática, foi de 218,3 para 227,4.

O crescimento da Matemática foi, portanto, de aproximadamente 9,1 pontos, superior ao observado nas demais etapas: no 9º ano, a média passou de 249,9 para 255,3; no 3º ano do ensino médio, de 263,9 para 268,0.

Há aqui um sinal que merece ser observado pelas redes municipais.

O avanço ocorreu justamente onde o município tem grande responsabilidade

Os anos iniciais do ensino fundamental estão fortemente associados à atuação das redes municipais.

É nessa etapa que se formam conhecimentos que sustentam grande parte da trajetória matemática posterior: compreensão do sistema de numeração, operações, resolução de problemas, grandezas e medidas, geometria e leitura inicial de informações estatísticas.

Por isso, um avanço nacional nesta fase interessa diretamente às secretarias municipais de Educação.

Segundo análise dos resultados de 2025, considerando 5.196 municípios com dados comparáveis em 2023 e 2025, aproximadamente 75% das redes municipais avançaram simultaneamente no Ideb e nas notas das avaliações nos anos iniciais. Cerca de 20% não avançaram ou apresentaram queda nas duas dimensões. Há ainda municípios em que o Ideb cresceu sem correspondente melhora nas notas e outros em que as notas avançaram, mas o Ideb não acompanhou na mesma direção.

Esse talvez seja um dos dados mais úteis para gestores.

Ele mostra por que olhar apenas para o Ideb pode esconder informações importantes.

Abrir o indicador é mais importante do que comemorar o indicador

Imagine dois municípios com crescimento semelhante no Ideb.

No primeiro, a mudança ocorreu principalmente porque os estudantes aprenderam mais Matemática e Língua Portuguesa.

No segundo, o desempenho permaneceu praticamente estável, mas houve melhora expressiva no fluxo escolar.

Os dois podem apresentar crescimento no índice final.

Pedagogicamente, entretanto, contam histórias diferentes.

É por isso que uma secretaria de Educação deveria decompor seus resultados.

O Ideb deve ser apenas a porta de entrada.

Depois dele precisam aparecer pelo menos quatro perguntas:

Quanto os estudantes avançaram em Matemática?

Quanto avançaram em Língua Portuguesa?

O que aconteceu com aprovação e fluxo escolar?

Quais escolas e grupos de estudantes avançaram mais ou menos dentro da própria rede?

Quando esse diagnóstico é realizado, a avaliação externa deixa de ser somente instrumento de prestação de contas e começa a funcionar como instrumento de gestão.

O que significa chegar ao nível 5 em Matemática

O avanço também precisa ser traduzido em aprendizagem.

A escala do Saeb não foi criada apenas para produzir uma pontuação. Ela permite descrever conjuntos de habilidades que os estudantes conseguem demonstrar.

Com a média nacional dos anos iniciais atingindo o nível 5, aparecem habilidades relacionadas, por exemplo, à resolução de determinadas situações envolvendo dinheiro e medidas, ao reconhecimento de propriedades geométricas e à localização de informações espaciais em problemas adequados à etapa.

Isso ajuda a deslocar a discussão.

Uma secretaria de Educação não ensina para alcançar “227 pontos”.

Ensina para que crianças desenvolvam conhecimentos matemáticos.

A pontuação é uma representação agregada desse processo.

E essa diferença é decisiva.

Quando o indicador vira o objetivo, existe o risco de estreitar o currículo.

Quando a aprendizagem é o objetivo, o indicador torna-se uma das evidências utilizadas para verificar se as estratégias estão funcionando.

A Matemática precisa entrar no centro da gestão educacional

Durante muitos anos, políticas voltadas aos anos iniciais concentraram grande atenção na alfabetização em Língua Portuguesa, o que é compreensível diante da centralidade da leitura e da escrita.

Mas alfabetização e letramento matemático também precisam ocupar lugar estratégico.

Uma criança que apresenta dificuldades persistentes com números, operações e resolução de problemas nos primeiros anos pode carregar essas lacunas durante toda a escolarização.

No 6º ano, o problema não começa no 6º ano.

Muitas vezes, ele apenas fica mais visível ali.

Por isso, os resultados de 2025 oferecem aos municípios uma oportunidade: usar o avanço nacional não como argumento para diminuir a atenção sobre a Matemática, mas justamente para aprofundá-la.

A pergunta que cada município deveria fazer

O resultado nacional é relevante, mas para uma secretaria municipal existe uma informação ainda mais importante:

o que aconteceu dentro da minha rede?

A média brasileira pode subir enquanto uma determinada cidade permanece estagnada.

Da mesma forma, um município pode apresentar crescimento muito superior à média nacional.

Por isso, cada rede deveria construir sua própria série de análise.

Escola por escola.

Matemática.

Língua Portuguesa.

Fluxo.

Participação no Saeb.

Diferenças entre escolas.

E, sempre que os dados permitirem, desigualdades de aprendizagem entre grupos de estudantes.

É quando os números descem da escala nacional para a escola que começam a produzir informação útil para quem precisa tomar decisões.

E depois dos dados?

Esse é o ponto em que a análise se torna pedagógica.

Se uma escola avançou muito em Matemática, vale perguntar:

O que seus professores fizeram?

Como organizam o planejamento?

Como trabalham resolução de problemas?

Como identificam estudantes que ainda não aprenderam?

Que tipo de avaliação utilizam durante o ano?

Como a coordenação pedagógica acompanha as turmas?

Como acontece a formação dos professores?

Que materiais são utilizados?

Quanto tempo os estudantes efetivamente passam envolvidos em atividades matemáticas?

E, principalmente:

quais dessas práticas estavam presentes antes do resultado aparecer?

Essa última pergunta é fundamental porque impede um erro comum na análise de políticas educacionais: encontrar uma ação realizada pela rede e concluir automaticamente que ela produziu o resultado.

Correlação não é causalidade.

Material didático, plataforma, formação, avaliação diagnóstica ou ampliação da jornada podem participar de um sistema de melhoria. Mas nenhum deles deveria receber sozinho o crédito pelo crescimento sem evidências suficientes.

O município como laboratório de aprendizagem pública

O Brasil possui milhares de redes municipais enfrentando problemas semelhantes em contextos diferentes.

Isso cria uma enorme oportunidade de aprendizagem entre municípios.

Quando uma cidade melhora significativamente seus resultados em Matemática, não deveria produzir somente uma fotografia do prefeito, do secretário ou da equipe segurando uma placa com a nota do Ideb.

Deveria produzir conhecimento.

O que foi feito?

Por quanto tempo?

Com quais professores?

Como as escolas reagiram?

Quais dificuldades permaneceram?

Quanto custou?

Os resultados alcançaram todos os estudantes?

A experiência permaneceu depois da avaliação?

Essas perguntas transformam uma boa prática local em patrimônio público capaz de ajudar outras redes.

O resultado de 2025 é uma boa notícia. Mas não é linha de chegada

A maior alta registrada em Matemática nos anos iniciais da rede pública brasileira merece atenção.

Passar de 218,26 para 227,41 pontos significa que alguma coisa mudou no resultado agregado da aprendizagem das crianças brasileiras.

Mas a média nacional não deve produzir acomodação.

Ela deve produzir novas perguntas.

Quais municípios mais contribuíram para esse movimento?

Quais conseguiram avançar mantendo equidade?

Quais escolas mudaram de patamar?

Que estratégias de formação docente estavam presentes?

Como a gestão utilizou avaliações diagnósticas?

O que aconteceu com estudantes que apresentavam maiores dificuldades?

E quais redes permaneceram praticamente no mesmo lugar enquanto outras avançaram?

É desse segundo movimento que a educação brasileira mais precisa agora.

Não apenas publicar resultados.

Investigar resultados.

Não apenas identificar quem avançou.

Entender como avançou.

E não simplesmente copiar aquilo que outra rede fez.

Transformar boas experiências municipais em conhecimento que possa orientar decisões melhores.

Porque uma nota mostra onde chegamos.

Mas é a compreensão do processo que pode ajudar a decidir para onde iremos depois.


Como eu posicionaria esse artigo no Pauta

Esse texto tem potencial para inaugurar uma linha editorial que considero mais forte do que simplesmente publicar “as dez maiores notas do Ideb”. O seu Plano de Negócio prevê justamente indicadores comentados, cases municipais e conteúdos como “Municípios que usam dados para melhorar aprendizagem”, além de defender que boas práticas sejam transformadas em referências para outros gestores.

Eu criaria uma série fixa chamada “Matemática que Avança”. O artigo acima seria a abertura nacional. Em seguida, partiríamos para os municípios: identificaríamos, nos dados oficiais do Inep, as cidades que tiveram os maiores crescimentos da proficiência de Matemática entre o Saeb 2023 e 2025 e escolheríamos uma para investigação profunda. Isso seria mais rigoroso do que chamar um município de “campeão da Matemática” sem antes calcular a variação na base oficial. O Inep disponibilizou em agosto de 2026 as planilhas de resultados de municípios e escolas, separadas por etapa, justamente permitindo esse tipo de análise.

A partir daí, o Pauta poderia produzir algo bastante diferenciado: “A cidade brasileira que mais avançou em Matemática: fomos descobrir o que mudou dentro das escolas”. Esse, sim, tem perfil de matéria de abertura forte para o portal.

Publicar comentário

Você pode ter perdido