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São José do Cerrito avança 52 pontos em Matemática: o que existe por trás de uma mudança que chama atenção no Saeb

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São José do Cerrito avança 52 pontos em Matemática: o que existe por trás de uma mudança que chama atenção no Saeb

Município catarinense de cerca de 8,7 mil habitantes apresentou forte crescimento da aprendizagem nos anos iniciais entre 2023 e 2025. Em Matemática, foram 52 pontos a mais; em Língua Portuguesa, 41. Com fluxo escolar praticamente estável, o caso levanta uma questão importante: o que mudou dentro da rede e das salas de aula?

Há uma diferença importante entre melhorar um indicador educacional e melhorar a aprendizagem dos estudantes.

As duas coisas podem caminhar juntas. Mas nem sempre caminham.

É justamente por isso que o resultado de São José do Cerrito, pequeno município da Serra Catarinense, merece atenção.

Com população estimada em 8.706 habitantes em 2025, a cidade registrou entre as edições de 2023 e 2025 do Sistema de Avaliação da Educação Básica um crescimento de 52 pontos na proficiência de Matemática dos anos iniciais do ensino fundamental. Em Língua Portuguesa, o avanço foi de 41 pontos. No mesmo período, a taxa de aprovação permaneceu praticamente estável.

É esse último dado que torna o caso particularmente interessante.

Quando abrimos a “caixa” do Ideb

O Ideb é provavelmente o indicador educacional mais conhecido do país, mas sua nota final pode esconder histórias muito diferentes.

O índice é produzido a partir de dois grandes componentes: o desempenho dos estudantes no Saeb, que avalia Língua Portuguesa e Matemática, e o rendimento escolar, obtido por meio dos dados do Censo Escolar.

Assim, uma rede pode elevar seu Ideb porque seus estudantes aprenderam mais, porque melhorou seu fluxo escolar ou por uma combinação dessas duas mudanças.

No caso de São José do Cerrito, a análise dos resultados catarinenses chama atenção justamente porque a aprovação permaneceu praticamente estável enquanto as proficiências cresceram fortemente.

Em outras palavras, o dado sugere que a evolução observada ocorreu predominantemente no componente de aprendizagem.

Isso muda a conversa.

Em vez de perguntar somente “quanto cresceu o Ideb?”, precisamos perguntar:

o que aconteceu com aquilo que os estudantes demonstraram saber em Matemática?

Cinquenta e dois pontos não são uma oscilação pequena

O resultado precisa ser colocado em perspectiva.

Na rede pública brasileira, a média de Matemática do 5º ano passou de 218,3 pontos em 2023 para 227,4 em 2025, crescimento de aproximadamente nove pontos.

São José do Cerrito apresentou aumento de 52 pontos no mesmo componente e período.

Isso não significa que seja adequado comparar mecanicamente uma pequena rede municipal com a média de milhões de estudantes brasileiros.

Significa apenas que estamos diante de uma variação suficientemente grande para merecer investigação.

E investigar é diferente de comemorar.

O Saeb informa que alguma coisa mudou. Ele não informa, sozinho, por que mudou.

A matemática começa muito antes do Saeb

Os estudantes não aprendem Matemática no momento em que fazem uma avaliação externa.

O resultado é construído ao longo dos anos anteriores, quando crianças aprendem a atribuir significado aos números, compreender o sistema de numeração decimal, desenvolver estratégias de cálculo, resolver problemas, interpretar informações, compreender medidas e relações geométricas.

Por isso, uma elevação expressiva da proficiência deveria fazer a gestão educacional voltar os olhos não para o dia da prova, mas para aquilo que ocorreu antes dela.

Como os professores planejavam Matemática?

Como eram identificadas as dificuldades das crianças?

Que informações chegavam aos coordenadores pedagógicos?

O que acontecia quando um estudante não aprendia determinada habilidade?

As escolas utilizavam avaliações diagnósticas?

Os resultados dessas avaliações alteravam o planejamento?

Como ocorria a formação dos professores?

Que práticas foram mantidas durante vários anos?

Essas são as perguntas capazes de transformar um resultado educacional em um case útil para outros municípios.

Há sinais de uma cultura de formação

Documentos do próprio município mostram que a formação dos profissionais já integra a estrutura da rede. O processo de seleção de professores para 2025, por exemplo, estabelecia pontuação específica para cursos de aperfeiçoamento e atualização, inclusive valorizando formações promovidas pelo próprio Sistema Municipal de Ensino.

O Plano Municipal de Educação também registra historicamente a formação continuada, a valorização profissional, a gestão democrática e o uso das avaliações e indicadores como elementos da política educacional municipal. O documento defende explicitamente a utilização dos resultados das avaliações nacionais para melhorar processos e práticas pedagógicas.

Essas evidências mostram a existência de determinados elementos institucionais.

Mas é preciso evitar uma conclusão precipitada.

Não é possível afirmar, apenas com esses documentos, que a formação docente causou o crescimento de 52 pontos em Matemática.

Para estabelecer essa relação seria necessário investigar o conteúdo das formações, sua frequência, sua articulação com as dificuldades observadas nos estudantes e as mudanças efetivamente produzidas na prática pedagógica.

Essa distinção é essencial para tratar boas práticas com rigor.

A diferença entre “treinar para a prova” e ensinar Matemática

Resultados elevados no Saeb não deveriam levar redes de ensino a transformar matrizes de avaliação em currículo.

A finalidade da escola não é produzir bons respondentes de testes.

É produzir aprendizagem.

Uma política educacional consistente deveria utilizar o Saeb como uma das evidências para responder a uma pergunta maior: os estudantes estão construindo conhecimentos matemáticos que lhes permitam resolver problemas cada vez mais complexos?

Quando avaliações externas passam a substituir o currículo, há risco de estreitamento curricular.

Quando são usadas como evidências dentro de um sistema mais amplo de acompanhamento, podem ajudar a identificar lacunas que precisam ser enfrentadas.

Essa diferença parece pequena no discurso, mas é enorme na sala de aula.

O dado nacional também merece atenção

O resultado de São José do Cerrito ocorre em um momento no qual a Matemática apresenta melhora nacional nos anos iniciais.

Segundo o Inep, entre 2023 e 2025 a média da rede pública brasileira no 5º ano avançou de 218,3 para 227,4 pontos. Em Língua Portuguesa, passou de 207,6 para 215,1. Nos anos finais, entretanto, o crescimento de Matemática foi mais modesto: de 249,9 para 255,3. No ensino médio, passou de 263,9 para 268 pontos.

O contraste reforça a importância dos anos iniciais.

Dificuldades matemáticas que não são enfrentadas nessa etapa tendem a acompanhar o estudante.

O problema que aparece claramente em álgebra no 8º ou 9º ano pode ter começado muitos anos antes, quando conceitos fundamentais não foram suficientemente aprendidos.

Uma rede pequena também pode produzir conhecimento para o Brasil

Há outra característica interessante em São José do Cerrito.

Estamos falando de um município com menos de nove mil habitantes.

Isso lembra que inovação educacional e melhoria de resultados não pertencem exclusivamente às grandes redes ou capitais.

Os municípios pequenos também podem funcionar como laboratórios importantes de políticas e práticas educacionais.

Mas existe uma condição.

A experiência precisa ser documentada.

Se uma rede consegue produzir uma mudança de grande magnitude e essa experiência permanecer apenas na memória de professores, gestores ou secretários, o conhecimento produzido naquele território se perde.

O trabalho precisa responder a perguntas concretas: quais práticas mudaram, quais permaneceram, como professores foram apoiados, como estudantes com dificuldades foram acompanhados, quais materiais foram utilizados, como os resultados foram monitorados e quanto tempo foi necessário para que as mudanças aparecessem.

É assim que uma experiência local começa a se transformar em conhecimento público.

Uma cautela: resultado excepcional também precisa ser testado pelo tempo

Existe ainda outro cuidado.

O Saeb é aplicado a cada dois anos e, em municípios pequenos, o número de estudantes avaliados pode ser relativamente reduzido.

Isso significa que resultados de uma edição precisam ser acompanhados nas avaliações seguintes.

Um salto de 52 pontos é um sinal extremamente relevante.

Mas a verdadeira consolidação da melhoria aparecerá quando a rede conseguir sustentar níveis elevados de aprendizagem em diferentes coortes de estudantes.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas:

São José do Cerrito conseguiu avançar?

Os dados mostram um avanço expressivo.

A próxima pergunta é mais exigente:

São José do Cerrito conseguirá transformar esse avanço em um novo patamar permanente de aprendizagem?

O que outros municípios podem aprender

O principal ensinamento do caso talvez não seja uma metodologia específica.

Ainda não temos evidência suficiente para apontá-la.

O ensinamento, neste momento, é outro: abrir os indicadores.

Não basta olhar a nota final do Ideb.

Uma Secretaria Municipal de Educação deveria observar separadamente Matemática, Língua Portuguesa, aprovação, participação no Saeb, resultados por escola e evolução temporal.

São José do Cerrito ajuda a mostrar a diferença.

Quando o fluxo praticamente não muda e Matemática cresce 52 pontos, existe uma história de aprendizagem esperando para ser compreendida.

E essa história não pertence apenas ao município.

Ela interessa às milhares de redes brasileiras que enfrentam diariamente o mesmo desafio: fazer com que crianças não apenas frequentem a escola, mas efetivamente aprendam.

Do ranking para a investigação

Talvez esse seja o papel mais interessante dos indicadores educacionais.

Eles não deveriam servir apenas para produzir campeões e derrotados.

Deveriam funcionar como radares.

Um resultado excepcional aponta para um território.

A partir daí começa o verdadeiro trabalho: entrar na rede, ouvir professores, conversar com coordenadores e diretores, analisar materiais, conhecer as avaliações utilizadas, compreender a formação docente e observar como as decisões pedagógicas foram tomadas.

O número chama atenção.

A prática explica quando a investigação consegue demonstrá-la.

São José do Cerrito apresentou um avanço de 52 pontos em Matemática.

Agora existe uma pergunta muito mais valiosa para a educação brasileira:

o que aconteceu dentro das escolas para que seus estudantes aprendessem mais?

Responder a essa pergunta pode ser mais importante do que qualquer posição em um ranking.

Porque boas notas merecem reconhecimento.

Mas boas práticas, quando demonstradas e documentadas, podem ajudar outros municípios a avançar.


Eu usaria este texto como primeiro “Case de Aprendizagem” do Pauta Municipal Brasil. Ele concretiza bem o que está no Plano de Negócio: não simplesmente divulgar uma prefeitura, mas transformar indicadores e boas práticas municipais em inteligência útil para outros gestores. O próprio plano recomenda iniciar dominando o nicho de educação municipal, indicadores, boas práticas e gestão pública local.

Minha sugestão editorial é acrescentar uma segunda matéria, após contato com a Secretaria e as escolas: “Por dentro dos 52 pontos: como São José do Cerrito ensina Matemática”. Aí deveríamos entrevistar professores, coordenadores, diretores e equipe técnica e confrontar suas respostas com dados. Só depois atribuiríamos o resultado a determinadas práticas. Isso faria o Pauta sair do terreno da divulgação e entrar no de jornalismo educacional baseado em evidências.

E há uma apuração que eu considero importante antes de colocar “maior avanço do Brasil” na manchete: calcular, na base nacional do Inep, a variação 2023→2025 de Matemática para todos os municípios com dados comparáveis. O Inep informa que os resultados de municípios e escolas estão disponíveis por edição, mas não publica nessa página um ranking nacional pronto por variação de Matemática. Até essa validação, “avanço de 52 pontos” é mais forte e mais seguro editorialmente do que “campeão brasileiro”.

Posso monitorar novas consolidações do Inep sobre o Saeb/Ideb 2025 e sinalizar quando houver uma base ou análise que permita confirmar o ranking nacional de Matemática.

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