De Sobral a Pires Ferreira: como o Ceará transformou bons resultados locais em uma política de educação que o Brasil precisa estudar
Sobral mostrou que era possível mudar radicalmente a aprendizagem. Duas décadas depois, cinco municípios cearenses chegaram ao Ideb 10 nos anos iniciais, Pires Ferreira repetiu a nota máxima e Sobral voltou a liderar entre as cidades brasileiras de maior porte. Mais do que uma coleção de campeões, o Ceará construiu um sistema baseado em alfabetização, avaliação, formação docente, apoio aos municípios, incentivos e continuidade.
Talvez a pergunta mais importante sobre a educação cearense não seja por que Pires Ferreira alcançou Ideb 10.
Nem como Sobral se tornou referência internacional.
A pergunta mais interessante é outra:
como um estado conseguiu transformar experiências municipais de excelência em uma política capaz de produzir resultados em diferentes territórios, tamanhos de rede e gerações de estudantes?
Os números do Ideb 2025 ajudam a dimensionar a questão.
Cinco municípios cearenses: Catunda, Coreaú, Cruz, Pedra Branca e Pires Ferreira chegaram à nota máxima, 10, nos anos iniciais do ensino fundamental. Entre os oito municípios brasileiros que atingiram esse patamar, cinco são do Ceará. Considerando a proficiência em Matemática como critério de desempate, Pires Ferreira apareceu à frente.
Nos anos finais, o maior Ideb municipal do Brasil também está no estado: Deputado Irapuan Pinheiro chegou a 9,3. Entre os cem municípios brasileiros com maiores Idebs nessa etapa, 39 são cearenses. Nos anos iniciais, 40 dos cem maiores resultados também pertencem ao Ceará.
Isso já sugere algo importante.
Quando um município apresenta um resultado extraordinário, temos um case.
Quando dezenas aparecem sistematicamente entre os melhores, começamos a falar de sistema.
Antes de Pires Ferreira, havia Sobral
Para compreender o Ceará de 2025, é necessário voltar algumas décadas e olhar para Sobral.
No início dos anos 2000, a cidade estava muito longe da posição que ocupa atualmente. Segundo estudo do Banco Mundial, em 2001 aproximadamente 40% dos estudantes do 3º ano de Sobral não conseguiam ler uma palavra simples. Em 2005, o município ocupava apenas a 1.366ª posição nacional no indicador de qualidade educacional.
Doze anos depois, em 2017, Sobral havia alcançado a primeira posição nacional no Ideb tanto nos anos iniciais quanto nos anos finais do ensino fundamental. A transformação foi suficientemente expressiva para que o Banco Mundial passasse a apresentar Sobral e o Ceará como referências internacionais na redução da pobreza de aprendizagem.
Em 2025, a história continuou.
Sobral registrou Ideb 9,6 nos anos iniciais e 8,0 nos anos finais, os maiores resultados de sua própria série histórica, e ficou em primeiro lugar entre os municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes.
Sobral, portanto, não é apenas uma história de recuperação.
É uma história de sustentação.
E isso talvez seja ainda mais difícil.
Sobral mostrou que era possível. O Ceará tentou transformar a experiência em escala
É aqui que a história fica particularmente relevante para o Brasil.
Sobral não permaneceu apenas como município excepcional para ser visitado por pesquisadores, gestores e delegações.
Sua experiência ajudou a influenciar reformas mais amplas no Ceará. O Banco Mundial identifica explicitamente as reformas de Sobral como referência para outros governos subnacionais, inclusive para o próprio estado.
O desafio passou a ser outro:
como fazer a aprendizagem deixar de depender do CEP da criança?
A resposta cearense começou a assumir maior escala em 2007 com o Programa Alfabetização na Idade Certa, o PAIC.
A proposta era ambiciosa: apoiar os municípios para que as crianças fossem alfabetizadas na idade adequada.
O programa envolveu avaliação da aprendizagem, gestão educacional, alfabetização, educação infantil, literatura, formação docente e apoio técnico às redes municipais. Posteriormente, as ações foram ampliadas até o 5º ano e depois para todo o ensino fundamental, alcançando os 184 municípios cearenses.
O ponto central está aqui:
o Ceará não retirou a autonomia dos municípios para criar uma rede estadual única. Criou mecanismos para que redes municipais autônomas trabalhassem dentro de uma estratégia comum de aprendizagem.
A colaboração virou política, não evento
Essa talvez seja uma das principais lições para o restante do país.
A expressão “regime de colaboração” aparece com frequência nos documentos educacionais brasileiros.
No Ceará, ela ganhou instrumentos concretos.
O estado fornece assistência técnica e pedagógica, apoia formação, disponibiliza materiais, estrutura sistemas de avaliação, monitora resultados e trabalha conjuntamente com as redes municipais.
Os municípios mantêm responsabilidade pela gestão de suas escolas, mas não ficam abandonados à própria capacidade administrativa.
O Banco Mundial identifica justamente essa combinação entre assistência técnica estadual, autonomia municipal, monitoramento e responsabilização pelos resultados como um dos elementos centrais da experiência cearense.
Isso produz uma diferença importante.
Em muitos lugares, municípios pequenos precisam praticamente reinventar sozinhos currículo, avaliação, formação, acompanhamento e gestão.
No Ceará, existe uma infraestrutura estadual que procura reduzir essa fragmentação.
O dinheiro também passou a conversar com aprendizagem
Outro componente merece atenção.
Em 2007, o Ceará reformulou os critérios de distribuição da cota-parte municipal do ICMS, incorporando indicadores de educação, saúde e meio ambiente.
Na educação, o Índice de Qualidade Educacional passou a influenciar quanto cada município recebe. O cálculo utiliza informações de desempenho educacional, incluindo dados produzidos pelo SPAECE, o sistema estadual de avaliação.
Essa política introduziu um princípio bastante diferente do modelo tradicional de financiamento.
Parte dos recursos passou a responder também a resultados públicos.
Mas o desenho cearense não se resume a “pagar por nota”.
Essa é uma simplificação perigosa.
O incentivo financeiro funciona dentro de um sistema que oferece simultaneamente assistência técnica, formação, avaliação, materiais, acompanhamento e cooperação.
O município é incentivado a melhorar, mas também recebe instrumentos para fazê-lo.
Avaliar não apenas para medir, mas para agir
Sobral ajuda a compreender outra peça dessa engrenagem.
O Banco Mundial estudou especificamente como o município utiliza avaliações e concluiu que a aplicação regular de instrumentos de aprendizagem e o uso dos resultados para modificar práticas pedagógicas constituíram componentes fundamentais da reforma.
A lógica é simples na formulação e extremamente exigente na execução:
avaliar → descobrir o que o estudante ainda não aprendeu → agir → acompanhar → avaliar novamente.
Nesse modelo, a avaliação não encerra o processo.
Ela inicia uma decisão.
Se uma criança ainda não lê, alguém precisa saber.
Se determinada turma não compreende determinado conceito matemático, isso precisa chegar ao professor e à coordenação.
Se diversas escolas apresentam a mesma dificuldade, provavelmente existe uma demanda de formação ou currículo.
O dado percorre o sistema.
Esse movimento ajuda a explicar por que o Ceará investiu durante anos em sistemas próprios de avaliação.
Formação docente deixa de ser calendário e passa a integrar a estratégia
Sobral também oferece uma lição importante sobre professores.
O Banco Mundial destaca formação prática, materiais estruturados, observação de sala de aula e apoio pedagógico como elementos das reformas que alteraram o desempenho do município.
Isso merece atenção porque formação continuada é uma expressão utilizada por praticamente todas as Secretarias de Educação brasileiras.
O problema está no significado.
Uma rede pode realizar vinte palestras por ano e possuir uma formação continuada frágil.
Outra pode realizar menos encontros, mas conectar cada formação aos problemas concretos identificados nas salas de aula.
A pergunta correta não é:
quantas horas de formação foram oferecidas?
É:
o que os professores precisavam aprender para que seus alunos aprendessem melhor?
Quando avaliação, acompanhamento e formação trabalham juntos, começa a surgir um sistema de desenvolvimento profissional.
Pires Ferreira é filho de outra geração dessa história
É nesse contexto que Pires Ferreira precisa ser analisado.
O município possuía população estimada em aproximadamente 11 mil habitantes em 2025.
Em 2023, tornou-se o primeiro município brasileiro a alcançar Ideb 10 em toda a rede nos anos iniciais.
Em 2025, repetiu o resultado. Desta vez, outros sete municípios brasileiros também chegaram a 10 — quatro deles, além de Pires Ferreira, no próprio Ceará.
O que antes parecia excepcional começou a aparecer em outros territórios.
É justamente aí que o paralelo com Sobral se torna interessante.
Sobral foi o laboratório. Pires Ferreira representa uma evidência de que a excelência não permaneceu confinada ao laboratório.
Não significa que os dois municípios façam exatamente as mesmas coisas.
Nem que Pires Ferreira seja uma cópia de Sobral.
Significa que ambos estão inseridos em um ecossistema estadual que, há quase duas décadas, mantém alfabetização, avaliação, formação e aprendizagem no centro da agenda pública.
Uma investigação do Tribunal de Contas reforça essa leitura
Há ainda uma evidência recente particularmente relevante.
Em agosto de 2026, o Tribunal de Contas do Estado do Ceará concluiu um levantamento sobre políticas de alfabetização e aprendizagem nos anos iniciais realizado justamente em Fortaleza e Pires Ferreira.
A investigação encontrou convergência em cinco componentes: currículo estruturado, avaliações diagnósticas contínuas, formação docente focada na prática, monitoramento presencial das escolas e busca ativa dos estudantes.
O relatório também identificou mecanismos de definição e acompanhamento de metas, suporte às escolas e recomposição das aprendizagens.
Isso é importante porque reforça uma hipótese presente em toda a trajetória cearense:
não existe uma bala de prata. Existe engrenagem.
O grande case talvez não seja Sobral nem Pires Ferreira
Este talvez seja o principal ponto da história.
Sobral é extraordinário.
Pires Ferreira também.
Mas o verdadeiro case brasileiro pode ser o Ceará.
Em 2005, segundo levantamento do Ipece, 183 dos 184 municípios cearenses possuíam Ideb inferior a 4 nos anos iniciais. Em 2019, nenhum permanecia abaixo desse patamar, enquanto 114 municípios já apresentavam Ideb superior a 6.
Em 2025, o estado alcançou Ideb 6,8 nos anos iniciais, 5,7 nos anos finais e 4,5 no ensino médio, considerando o conjunto das redes. Os três indicadores avançaram em relação a 2023.
E os sinais aparecem também antes do Ideb.
No ciclo de alfabetização divulgado em 2026, todos os 184 municípios cearenses receberam reconhecimento no Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização: 161 obtiveram ouro, 20 prata e três bronze. O estado havia alcançado 85% das crianças alfabetizadas na idade adequada em 2024, maior percentual do país.
Não estamos mais falando de uma escola.
Nem de uma cidade.
Estamos falando de capilaridade.
O Brasil deveria estudar menos o “segredo de Sobral” e mais o sistema que permitiu multiplicá-lo
Durante anos, gestores de todo o país viajaram a Sobral em busca de uma fórmula.
Talvez essa seja a pergunta errada.
Não existe um “segredo de Sobral” que possa ser colocado em uma mala e levado para outro município.
Há um conjunto de princípios.
Prioridade absoluta à alfabetização.
Currículo claro.
Avaliação utilizada como informação pedagógica.
Formação docente conectada à prática.
Seleção e desenvolvimento das lideranças escolares.
Acompanhamento sistemático.
Metas.
Autonomia com responsabilidade.
Cooperação entre estado e municípios.
Continuidade política.
E incentivos alinhados aos resultados de aprendizagem.
O Banco Mundial resume justamente o sucesso de Sobral e do Ceará como resultado de um pacote coerente de reformas, e não de uma intervenção isolada.
É a coerência que parece importar.
Continuidade talvez seja a política educacional mais difícil de todas
Há ainda uma dimensão que os indicadores não mostram diretamente.
Tempo.
Sobral iniciou sua transformação há mais de duas décadas.
O PAIC existe desde 2007.
Governos mudaram.
Prefeitos mudaram.
Secretários mudaram.
Professores entraram e saíram da rede.
Mas determinadas prioridades permaneceram.
Essa continuidade é rara na política pública brasileira.
Educação não responde bem a ciclos de quatro anos.
A criança que realiza o Saeb no 5º ano carrega decisões tomadas quando estava no 1º, no 2º, no 3º e no 4º ano.
Resultados educacionais são cumulativos.
Por isso, talvez uma das maiores lições cearenses seja justamente a construção de políticas que sobrevivem às pessoas que as iniciaram.
Mas o Ceará não pode virar mito
Reconhecer o case não significa abandonar o pensamento crítico.
O próprio crescimento de redes com Ideb 10 começa a produzir discussão sobre os limites metodológicos do indicador. Especialistas têm alertado que concentração no topo da escala, preparação excessivamente direcionada ao Saeb e alterações nas taxas de aprovação podem limitar a capacidade do Ideb de representar toda a qualidade educacional.
Essa cautela é necessária.
Ideb 10 não significa educação perfeita.
O indicador combina fluxo e desempenho em Língua Portuguesa e Matemática.
Não mede sozinho inclusão, equidade, clima escolar, ciência, artes, desenvolvimento integral, infraestrutura ou todas as aprendizagens previstas no currículo.
O Ceará precisa continuar avançando justamente porque sucesso em um indicador não encerra o direito à educação.
O próximo desafio é olhar para quem a média ainda esconde
À medida que as médias aumentam, a política educacional precisa sofisticar suas perguntas.
Não basta mais perguntar:
qual é o Ideb do município?
É necessário perguntar:
quais estudantes ainda não aprenderam?
Existem diferenças entre escolas?
Entre territórios?
Entre grupos socioeconômicos?
Quais habilidades matemáticas permanecem frágeis?
Como estão os anos finais?
E o ensino médio?
O próprio resultado de 2025 mostra que, embora o Ceará apresente desempenho expressivo no ensino fundamental, ainda há distância entre os resultados dos anos iniciais, dos anos finais e do ensino médio.
Uma política que aprende com seus próprios resultados precisa continuar mudando quando o problema muda.
De Sobral para o Ceará. Do Ceará para o Brasil?
Talvez essa seja a pergunta que merece entrar na agenda nacional.
Sobral mostrou que uma rede municipal em condições socioeconômicas adversas poderia mudar radicalmente seus resultados.
O Ceará mostrou que aquela experiência poderia inspirar uma arquitetura estadual baseada em cooperação, alfabetização, avaliação, formação, incentivos e acompanhamento.
Pires Ferreira, Catunda, Coreaú, Cruz, Pedra Branca, Deputado Irapuan Pinheiro e dezenas de outros municípios mostram hoje que bons resultados não estão restritos a uma única cidade.
O desafio agora é descobrir quanto dessa arquitetura pode ser adaptada aos diferentes contextos brasileiros.
Não se trata de transformar São Paulo, Bahia, Pará, Amazonas ou Rio Grande do Sul em Ceará.
Contextos são diferentes.
Trata-se de aprender princípios.
O que o Ceará parece ter entendido antes de boa parte do país
Talvez possa ser resumido assim:
a unidade decisiva da política educacional não é o programa. É o sistema.
Currículo sozinho não basta.
Avaliação sozinha não basta.
Formação sozinha não basta.
Dinheiro sozinho não basta.
Gestão sozinha não basta.
A potência aparece quando as partes se conectam em torno de uma finalidade comum:
fazer o estudante aprender.
Sobral construiu essa lógica localmente.
O Ceará procurou ampliá-la para 184 municípios.
Pires Ferreira e os resultados de 2025 mostram que vale continuar investigando essa história.
O Brasil possui 5.570 municípios.
Em cada um deles existem professores, escolas, gestores e crianças enfrentando desafios diferentes.
Se o Ceará tem algo a ensinar, talvez não seja uma fórmula pronta.
É uma forma de pensar política educacional.
Definir prioridades. Medir aprendizagem. Apoiar professores. Acompanhar escolas. Incentivar resultados. Compartilhar responsabilidades. E continuar fazendo isso por tempo suficiente para que as crianças sintam a diferença.
Sobral mostrou que era possível.
Pires Ferreira mostra que a história não terminou em Sobral.
E o Ceará talvez esteja mostrando ao Brasil algo ainda mais importante:
uma boa prática municipal alcança sua maior potência quando deixa de ser exceção e começa a se transformar em capacidade do sistema.



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