Quando o prefeito coloca a educação no centro: o que São Luís, Recife, Sobral e Brejo Santo ensinam ao Brasil
Experiências de Eduardo Braide e João Campos mostram como liderança política, investimento, comunicação e inovação podem dar centralidade à educação. Casos históricos como Sobral e Brejo Santo acrescentam uma lição decisiva: popularidade pode passar, mas uma política educacional só vira legado quando se transforma em capacidade institucional e aprendizagem.
Em uma prefeitura, poucas políticas públicas têm capacidade de atravessar tantas dimensões do desenvolvimento quanto a educação. Uma rede municipal que alfabetiza, reduz desigualdades, desenvolve competências e amplia oportunidades não atua apenas sobre as escolas. Ela influencia, no médio e longo prazo, produtividade, empregabilidade, renda, inovação, segurança social e a capacidade de uma cidade reter e atrair pessoas e atividades econômicas.
Por isso, o envolvimento do prefeito com a educação merece ser observado como variável de gestão não como personalização da política pública. Quando o chefe do Executivo acompanha indicadores, sustenta investimentos, cobra resultados, valoriza profissionais e comunica à sociedade que aprendizagem é prioridade, ele aumenta o peso político da educação dentro da própria administração.
Dois casos recentes ajudam a discutir esse fenômeno: São Luís, durante a gestão de Eduardo Braide, e Recife, durante a administração de João Campos. Ambos ganharam projeção nacional por razões diferentes, ao mesmo tempo em que suas administrações colocaram programas educacionais em posição de destaque.
Há, porém, uma precaução metodológica fundamental: aprovação popular, alcance digital e resultado educacional são indicadores diferentes. Não existe evidência suficiente para afirmar que determinado índice de aprovação de um prefeito foi causado pelos investimentos em educação. Pesquisas de opinião captam a percepção sobre um conjunto muito mais amplo de políticas, serviços, atributos pessoais e circunstâncias políticas.
É justamente essa distinção que permite extrair dos casos aprendizagens úteis para os demais 5.570 municípios brasileiros.
Eduardo Braide: alta aprovação e uma transformação visível da rede de São Luís
Eduardo Braide deixou a Prefeitura de São Luís no fim de março de 2026, quando renunciou ao cargo, sendo sucedido pela então vice-prefeita Esmênia Miranda. Portanto, os resultados recentes da capital maranhense devem ser entendidos como produto de uma trajetória institucional, que atualmente prossegue sob outra gestão.
Antes da saída, Braide havia alcançado projeção expressiva em pesquisas nacionais sobre administrações municipais.
Em levantamento da AtlasIntel divulgado em dezembro de 2025, ficou em primeiro lugar entre os prefeitos das capitais pesquisadas, com 82% de aprovação. A pesquisa ouviu 82.781 pessoas nas capitais; em São Luís foram 1.185 respondentes, com margem de erro informada de três pontos percentuais.
Outro levantamento, do Instituto Veritá, apresentou metodologia e números diferentes. Nele, Braide apareceu em segundo lugar no percentual de aprovação, com 90,6% dos votos válidos, atrás de Léo Moraes, de Porto Velho. Entretanto, Braide obteve a maior nota média de avaliação da gestão, 8,0. O estudo ouviu mais de 100 mil pessoas nas capitais e avaliou também 51 serviços municipais.
Os resultados não devem ser somados ou comparados diretamente, porque são pesquisas distintas. Mas revelam uma realidade objetiva: a administração de São Luís alcançou elevada percepção pública durante o período.
E a educação ocupou espaço relevante nessa agenda.
Da reforma das escolas à aprendizagem
Os dados do Ideb 2025 ajudam a tirar a discussão da esfera exclusivamente comunicacional.
Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a rede municipal de São Luís passou de 5,5 em 2023 para 6,0 em 2025. Nos anos finais, avançou de 4,3 para 4,4. Segundo informações divulgadas pela Prefeitura a partir dos resultados do Inep, São Luís chegou à oitava posição entre as capitais nos anos iniciais e ao terceiro resultado do Nordeste nessa etapa.
Isso é particularmente relevante porque o avanço brasileiro também ocorreu nesse período: no conjunto das redes públicas e privadas do país, o Ideb dos anos iniciais passou de 6,0 para 6,3 e o dos anos finais de 5,0 para 5,3. Ou seja, a análise municipal precisa sempre ser feita considerando simultaneamente evolução própria e contexto nacional.
A administração municipal informa que, desde 2021, 170 unidades escolares receberam melhorias estruturais, além da entrega de 12 creches de tempo integral e do início das obras de outras 12. A mesma prestação de contas registra reajustes acumulados de 53,56% aos professores no período, além de investimentos em formação, materiais pedagógicos e tecnologia.
Outro componente foi a recomposição do quadro profissional. Em fevereiro de 2026, a Prefeitura informou que 945 novos professores já haviam ingressado na rede a partir do concurso realizado em 2024.
Há ainda um movimento interessante de institucionalização da gestão por resultados. O Decreto Municipal nº 61.353/2025 regulamentou o Prêmio de Desempenho Educacional – Educa São Luís, vinculando metas a indicadores de alfabetização, anos iniciais, anos finais e Ideb.
Aqui aparece uma das principais lições do caso: a infraestrutura é visível e politicamente poderosa, mas somente se torna política educacional completa quando acompanhada por professores, currículo, avaliação e aprendizagem.
Construir uma escola nova produz fotografia. Fazer uma rede inteira aprender exige gestão.
João Campos: comunicação digital, inovação e educação conectada ao desenvolvimento
João Campos também não ocupa mais a Prefeitura do Recife. Ele renunciou ao cargo e, em 6 de abril de 2026, o vice-prefeito Victor Marques foi empossado prefeito da capital pernambucana.
Durante sua administração, Campos construiu uma presença digital pouco comum entre gestores municipais.
Pesquisa da Quaest sobre popularidade digital dos prefeitos de capitais colocou João Campos em segundo lugar em setembro de 2023, com Índice de Popularidade Digital de 63,7, atrás de Eduardo Paes. O indicador considerava 175 variáveis provenientes de plataformas como Facebook, Instagram, X, YouTube, TikTok e Google.
Uma análise posterior da Democracy Reporting International, publicada pela FGV Comunicação Rio, encontrou também níveis elevados de atividade e engajamento nas redes durante a eleição municipal de 2024, especialmente no TikTok.
Mas o aspecto mais interessante para outros municípios não é reproduzir a linguagem das redes sociais de João Campos. É entender como determinados programas públicos foram transformados em narrativas compreensíveis para a população.
Tecnologia como política educacional e de desenvolvimento econômico
Um dos casos mais claros é o Embarque Digital.
Lançado em 2021 pela Prefeitura em parceria com o Porto Digital, o programa oferece formação superior tecnológica a estudantes oriundos da escola pública. Sua formulação partiu de um problema econômico concreto: a necessidade de formação de profissionais para o setor de tecnologia instalado na cidade.
Em 2026, o programa já havia contemplado 2.545 estudantes. Segundo a Prefeitura, mais de 80% permaneciam em formação ou haviam concluído os cursos; entre os estudantes ativos, aproximadamente 53,8% estavam inseridos profissionalmente e 36,3% trabalhavam diretamente na área estudada.
Aqui surge uma conexão importante para qualquer prefeito.
Educação deixa de ser percebida apenas como política social e passa também a integrar uma estratégia de capital humano e desenvolvimento econômico.
Uma cidade não atrai empresas somente oferecendo terreno, benefício tributário ou infraestrutura viária. Empresas intensivas em conhecimento precisam encontrar trabalhadores qualificados.
O prefeito que compreende essa relação começa a conversar simultaneamente com a Secretaria de Educação, Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia e planejamento urbano.
Esse é um dos aspectos mais replicáveis do Recife.
Educação digital desde a escola
Outro movimento ocorreu com o EducaRecife. Lançado em 2021, o programa previu investimento anunciado de R$ 55 milhões, estrutura para ensino híbrido e aquisição de mais de 42 mil tablets destinados à rede municipal.
Novamente, o equipamento isoladamente não é suficiente para melhorar a aprendizagem. Mas a decisão demonstra como uma prefeitura pode transformar inclusão digital em política educacional estruturada, vinculando dispositivo, conectividade, plataforma e ação pedagógica.
Os resultados mais recentes ajudam a completar a análise.
O Ideb 2025 do Recife chegou a 5,8 nos anos iniciais, ante 5,5 em 2023. Nos anos finais, passou de 4,8 para 4,9. Foi o melhor resultado da série histórica municipal nos anos iniciais.
Como o resultado foi divulgado depois da saída de João Campos, seria impreciso atribuí-lo exclusivamente ao ex-prefeito. O desempenho é produto do trabalho de professores, diretores, técnicos, famílias, gestores e políticas desenvolvidas ao longo de vários anos.
E essa observação leva à parte mais importante deste debate.
O melhor prefeito da educação é aquele cuja política sobrevive ao prefeito
O teste mais difícil de uma administração pública não é conseguir lançar um programa.
É torná-lo institucional.
Políticas baseadas exclusivamente na figura do prefeito tendem a enfraquecer quando o mandato termina. Políticas baseadas em objetivos, equipes técnicas, financiamento, sistemas de acompanhamento e rotinas de gestão possuem maior capacidade de sobreviver à alternância política.
É exatamente isso que experiências educacionais mais antigas ensinam.
Sobral: quando educação deixa de ser programa de governo e se transforma em política de cidade
Sobral é provavelmente o exemplo brasileiro mais conhecido dessa lógica.
Na segunda edição do Prêmio Prefeito Nota 10, promovido pelo Instituto Alfa e Beto e baseado nos microdados da Prova Brasil, o então prefeito José Clodoveu Arruda, conhecido como Veveu Arruda, foi o vencedor nacional. O desenho da premiação continha um aspecto particularmente relevante: não bastava possuir algumas escolas excelentes. O objetivo era avaliar a qualidade da rede como um todo.
Anos depois, a política educacional de Sobral continua apresentando resultados sob administrações diferentes.
No Ideb 2025, a rede municipal registrou 9,6 nos anos iniciais e 8,0 nos anos finais, os maiores resultados de sua série histórica, segundo a Secretaria Municipal de Educação.
A prefeitura atribui a trajetória a elementos conhecidos por quem estuda o modelo sobralense: acompanhamento pedagógico, formação continuada, monitoramento da aprendizagem e planejamento sistemático.
O principal ensinamento de Sobral talvez seja justamente este: a política pública tornou-se maior do que os prefeitos que passaram pela Prefeitura.
Isso é institucionalização.
Brejo Santo: qualidade não pode estar concentrada em duas ou três escolas
O mesmo Prêmio Prefeito Nota 10 oferece outro caso importante.
Na primeira edição, em 2015, o vencedor nacional foi Brejo Santo, no Ceará, então administrado por Guilherme Landim. A seleção utilizou resultados da Prova Brasil de 2013 e critérios relacionados à escala da rede, participação dos estudantes e desempenho em Língua Portuguesa e Matemática.
O conceito por trás da premiação continua relevante: não deveria ser suficiente ao prefeito apresentar a melhor escola da cidade. O objetivo é fazer com que a família tenha confiança de que encontrará ensino de qualidade independentemente da unidade em que a criança for matriculada.
É uma mudança de perspectiva.
A unidade de análise deixa de ser a “escola campeã”.
Passa a ser a rede municipal.
Essa é uma régua muito mais exigente e também muito mais justa.
O que Braide e João Campos acrescentam aos casos tradicionais
Sobral e Brejo Santo tornaram-se conhecidos principalmente pelos resultados educacionais.
São Luís e Recife acrescentam uma dimensão cada vez mais relevante para o século XXI: a capacidade política e comunicacional do prefeito de colocar a educação na agenda pública.
Isso não significa transformar a escola em cenário de marketing.
Significa fazer o cidadão compreender por que alfabetização importa; mostrar a evolução dos indicadores; explicar investimentos; reconhecer professores; apresentar desafios; relacionar formação de jovens ao desenvolvimento econômico; envolver famílias; e tornar aprendizagem assunto da cidade.
Existe uma diferença profunda entre comunicar educação e usar educação para promoção pessoal.
A própria Constituição estabelece, no artigo 37, §1º, que a publicidade de atos, programas e serviços públicos deve possuir caráter educativo, informativo ou de orientação social e não pode conter elementos que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores.
Em 2026, ano eleitoral, essa distinção merece ainda mais atenção.
Uma matriz para avaliar o verdadeiro engajamento do prefeito
| Dimensão | O que deve ser observado |
|---|---|
| Liderança | O prefeito acompanha educação ou delega completamente o tema? |
| Aprendizagem | Há metas para alfabetização, Língua Portuguesa e Matemática? |
| Pessoas | Existe política consistente de formação, carreira e condições de trabalho? |
| Infraestrutura | As escolas oferecem condições adequadas, acessibilidade e conectividade? |
| Dados | Saeb, Ideb, avaliações municipais e fluxo são utilizados para decisão? |
| Equidade | A prefeitura acompanha diferenças entre escolas, bairros e grupos de estudantes? |
| Desenvolvimento | Educação dialoga com juventude, trabalho, inovação e economia local? |
| Comunicação | A população compreende objetivos, resultados e dificuldades da rede? |
| Governança | Existem equipes, processos, orçamento e mecanismos capazes de sobreviver ao mandato? |
| Continuidade | O programa depende do prefeito ou já pertence à cidade? |
Essa matriz ajuda a evitar um erro frequente: confundir presença constante do prefeito em escolas com engajamento educacional.
Engajamento verdadeiro precisa aparecer no orçamento, nas prioridades administrativas, nos indicadores e na rotina de cobrança da gestão.
O que os municípios podem fazer na prática
A experiência desses municípios sugere um roteiro relativamente claro. O prefeito pode estabelecer educação como agenda permanente do gabinete; acompanhar trimestralmente um pequeno conjunto de indicadores; pactuar metas de alfabetização e aprendizagem; mapear escolas com maior vulnerabilidade; combinar infraestrutura com formação e acompanhamento pedagógico; integrar Educação a Desenvolvimento Econômico e Juventude; divulgar os resultados positivos e negativos com transparência; ouvir diretores e professores; e, principalmente, criar estruturas que permaneçam depois do mandato.
O objetivo não deveria ser que a população diga: “o prefeito construiu esta escola”.
O objetivo de longo prazo é que consiga dizer: “nesta cidade, as crianças aprendem”.
Essa mudança aparentemente simples separa política de governo de política pública.
O que esses casos ensinam
São Luís mostra a força de combinar recuperação da infraestrutura, recomposição de profissionais, valorização docente e acompanhamento de resultados.
Recife mostra como educação pode dialogar com inovação, tecnologia e desenvolvimento econômico — e como políticas públicas podem ser comunicadas de maneira capaz de alcançar públicos que tradicionalmente se mantêm distantes da administração municipal.
Brejo Santo reforça que qualidade educacional não deve estar concentrada em algumas unidades.
Sobral demonstra talvez a lição mais difícil: o verdadeiro sucesso aparece quando diferentes prefeitos passam e a política continua funcionando.
Nenhuma dessas experiências deve ser simplesmente copiada. Municípios possuem portes, receitas, redes, territórios e desafios diferentes. Mas princípios podem ser adaptados.
E um deles parece atravessar todos esses exemplos: quando a educação deixa de ser apenas responsabilidade do secretário e passa a ser prioridade estratégica do prefeito, sua capacidade de mobilizar a máquina pública aumenta significativamente.
Educação também constrói a competitividade da cidade
Há ainda uma consequência pouco discutida na política municipal.
Municípios disputam investimentos, empresas, profissionais qualificados e oportunidades.
Nesse ambiente, qualidade educacional passa a integrar a infraestrutura econômica da cidade.
Uma empresa pode receber incentivos para se instalar em determinado município. Mas sua permanência dependerá também da existência de trabalhadores qualificados, qualidade de vida e perspectivas educacionais para as famílias.
Recife percebeu essa conexão ao aproximar formação tecnológica e ecossistema empresarial.
Outros municípios podem fazer o mesmo com suas próprias vocações: indústria, agroindústria, turismo, logística, serviços, saúde, economia criativa ou tecnologia.
O princípio continua igual: formar pessoas é também desenvolver território.
Conclusão: menos culto ao gestor, mais liderança sobre a política pública
Eduardo Braide e João Campos são casos interessantes porque demonstram elevada capacidade de comunicação e projeção pública combinada com políticas educacionais concretas. Mas reduzir seus casos à popularidade seria desperdiçar a principal aprendizagem.
Prefeitos podem ser importantes patrocinadores institucionais da educação.
Podem colocar aprendizagem nas reuniões de governo, proteger investimentos, remover obstáculos, mobilizar secretarias, reconhecer professores, envolver empresas e universidades, explicar resultados e tornar a escola parte da estratégia de desenvolvimento da cidade.
Mas existe um estágio superior de liderança pública.
É quando o prefeito consegue construir uma política tão sólida que ela já não precisa mais dele.
Nesse momento, deixa de existir apenas uma gestão de destaque.
Começa a existir uma cidade comprometida com a educação.
E esse talvez seja o legado municipal mais difícil e mais valioso de construir.
Fontes consultadas
- Inep/MEC — resultados do Ideb 2025 e séries históricas municipais.
- Prefeitura de São Luís — Ideb 2025, investimentos na rede, concurso de professores e Programa Educa São Luís.
- CNN Brasil/AtlasIntel — levantamento de aprovação dos prefeitos das capitais, dezembro de 2025.
- CNN Brasil/Instituto Veritá — avaliação das administrações municipais, janeiro de 2026.
- Prefeitura do Recife — Ideb 2025, EducaRecife e Embarque Digital.
- Quaest/CNN e FGV Comunicação Rio — popularidade e engajamento digital de prefeitos.
- Instituto Alfa e Beto e Confederação Nacional de Municípios — Prêmio Prefeito Nota 10 e critérios técnicos.
- Prefeitura e Secretaria Municipal da Educação de Sobral — resultados do Ideb 2025.
- Constituição Federal, art. 37, §1º — publicidade e impessoalidade na administração pública.
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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