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Duas décadas de Ideb: livro oferece uma leitura necessária para prefeituras que querem transformar indicador em gestão educacional

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Duas décadas de Ideb: livro oferece uma leitura necessária para prefeituras que querem transformar indicador em gestão educacional

Publicação organizada por Ernesto Martins Faria e Lecticia Maggi revisita 20 anos do principal indicador da educação básica brasileira, analisa experiências municipais e provoca uma questão importante para secretarias de Educação: como usar resultados para orientar decisões sem transformar o Ideb em um fim em si mesmo?

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o Ideb, está presente há tanto tempo no cotidiano das redes públicas que existe o risco de sua divulgação se transformar em um ritual: sai a nota, compara-se o resultado com a edição anterior, a prefeitura comemora ou tenta explicar o desempenho e, algum tempo depois, o assunto perde espaço na agenda.

O livro Duas décadas de Ideb: resultados e perspectivas: como o principal índice educacional do país moldou práticas e políticas e as mudanças necessárias para que continue relevante oferece uma boa oportunidade para romper com essa lógica.

Publicado em 2026, organizado por Ernesto Martins Faria e Lecticia Maggi e lançado no Insper, em São Paulo, o livro reúne artigos, depoimentos, análises e estudos de caso para discutir o que o Ideb produziu na educação brasileira, quais são seus limites e o que precisa ser revisto depois de duas décadas de utilização. A publicação é uma iniciativa do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), da Fundação Santillana e da Editora Moderna, com apoio de outras organizações. Insper

Para prefeitos, secretários municipais de Educação, equipes pedagógicas, supervisores e diretores escolares, a leitura merece atenção por uma razão simples: o livro não discute apenas como medir a educação. Ele ajuda a discutir o que uma rede faz depois de receber o resultado.

O Ideb mudou a maneira como o Brasil olha para a educação

Criado pelo Inep em 2007, o Ideb combina dois componentes: o desempenho dos estudantes nas avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb, e informações de rendimento escolar, especialmente aprovação, provenientes do Censo Escolar. O resultado é apresentado em uma escala de zero a dez. A série histórica começa em 2005. Serviços e Informações do Brasil

A simplicidade dessa composição ajudou a tornar o indicador compreensível fora do círculo de especialistas. Prefeitos, secretários, diretores, professores, imprensa e sociedade passaram a acompanhar um número capaz de sintetizar aspectos relevantes da trajetória escolar e da aprendizagem.

Isso teve consequências para a gestão.

Metas educacionais passaram a ganhar mais espaço. Redes começaram a observar com maior atenção os resultados das avaliações externas. Municípios passaram a comparar escolas, identificar dificuldades e organizar ações de formação e acompanhamento.

Mas justamente porque o Ideb ganhou tamanho peso, surgiu outro problema: uma medida importante da educação pode ser confundida com a própria qualidade da educação.

E essa distinção precisa estar clara para qualquer prefeitura.

O livro interessa aos municípios porque não trata o Ideb como uma nota isolada

A publicação reúne diferentes perspectivas sobre a criação, a implementação, os efeitos e os limites do indicador. A Fundação Santillana resume a questão central da obra de forma clara: o Ideb desempenhou papel relevante no monitoramento da educação brasileira, mas precisa ser aperfeiçoado para responder melhor ao desafio da qualidade com equidade. Fundação Santillana

Entre os autores está Reynaldo Fernandes, ex-presidente do Inep e criador do Ideb, que analisa a motivação que levou à construção do indicador e seus desdobramentos. José Francisco Soares, também ex-presidente do Inep e referência na área de avaliação educacional, discute mudanças necessárias para que o indicador continue relevante. Insper

Isso torna a obra particularmente interessante para equipes municipais.

Em vez de perguntar somente “qual foi nosso Ideb?”, a leitura estimula perguntas mais úteis:

Por que chegamos a esse resultado? Quais escolas avançaram e quais não avançaram? O desempenho melhorou para todos os estudantes? O resultado decorre de avanço na aprendizagem, do fluxo escolar ou da combinação dos dois? Onde estão as maiores dificuldades em língua portuguesa e matemática? Quais grupos de estudantes continuam ficando para trás?

Essa mudança na pergunta é decisiva para transformar indicador em instrumento de gestão.

Três municípios ajudam a aproximar o debate da realidade das redes

Um dos aspectos mais úteis da publicação para gestores locais é a presença de estudos sobre redes municipais.

A obra apresenta pesquisas realizadas em Novo Horizonte, em São Paulo; Foz do Iguaçu, no Paraná; e Sobral, no Ceará, redes que tiveram suas trajetórias educacionais fortemente relacionadas à consolidação do Ideb. O trabalho envolveu pesquisa de campo e entrevistas com diferentes atores, entre eles secretários de Educação, gestores escolares, professores e famílias. Iede

Esse desenho é importante porque números mostram o que aconteceu, mas raramente explicam sozinhos como aconteceu.

Quando uma rede melhora seus resultados, o gestor precisa investigar o processo: continuidade das políticas, currículo, formação dos professores, acompanhamento pedagógico, avaliação, gestão escolar, frequência, recuperação da aprendizagem, apoio às escolas com maior dificuldade e capacidade da secretaria de utilizar informações.

Também é necessário observar o contexto.

Uma política que funcionou em Sobral não deve ser simplesmente transportada para outro município. Municípios possuem tamanhos, condições socioeconômicas, capacidade administrativa, organização das redes e recursos diferentes.

Boa prática não significa receita pronta.

Significa evidência que merece ser estudada.

O resultado de 2025 torna essa discussão ainda mais atual

A leitura chega em um momento particularmente oportuno. O Inep divulgou em agosto de 2026 os resultados do Ideb 2025, completando a série 2005–2025.

No conjunto das redes públicas e privadas brasileiras, o Ideb passou de 6,0 em 2023 para 6,3 em 2025 nos anos iniciais do ensino fundamental; de 5,0 para 5,3 nos anos finais; e de 4,3 para 4,5 no ensino médio.

Considerando somente a rede pública, os resultados passaram de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais; de 4,7 para 5,0 nos anos finais; e de 4,1 para 4,3 no ensino médio. Serviços e Informações do Brasil

O Inep disponibilizou também os resultados de 2005 a 2025 para estados, municípios e escolas. Portanto, uma prefeitura hoje consegue trabalhar com uma série histórica de duas décadas, e não apenas com a fotografia de uma edição. Serviços e Informações do Brasil

Esse é um ponto que as secretarias deveriam explorar melhor.

Uma nota isolada informa pouco. Uma série histórica permite perguntar se houve avanço consistente, estagnação, oscilação ou mudança de trajetória.

A prefeitura deveria olhar além do Ideb

Esse talvez seja um dos principais aprendizados que podem ser extraídos do debate apresentado pelo livro.

O Ideb é relevante, mas não deve funcionar sozinho como diagnóstico de uma rede.

Imagine dois municípios com Ideb semelhante. Um pode ter reduzido abandono, elevado aprovação e avançado moderadamente na aprendizagem. Outro pode apresentar fluxo elevado, mas aprendizagem insuficiente. O número agregado pode esconder trajetórias diferentes.

Da mesma maneira, uma média municipal pode ocultar desigualdades importantes entre escolas e entre grupos de estudantes.

Por isso, a secretaria precisa abrir o indicador.

É necessário examinar separadamente desempenho no Saeb, aprovação, reprovação, abandono, distorção idade-série, frequência, alfabetização, condições socioeconômicas, inclusão, diferenças entre escolas e, quando os dados permitirem, desigualdades entre grupos de estudantes.

O próprio debate apresentado pelo Iede chama atenção para limitações do modelo atual, inclusive em relação à cobertura dos estudantes e à capacidade do indicador de estimular de maneira suficiente a redução das desigualdades educacionais. Iede

Isso não diminui a importância do Ideb. Torna seu uso mais responsável.

O que as prefeituras podem fazer na prática

Uma boa aplicação municipal do livro seria transformá-lo em material de estudo da Secretaria de Educação. Não apenas para a equipe responsável pela avaliação, mas também para supervisores, coordenadores pedagógicos e diretores.

A secretaria pode organizar o trabalho em cinco movimentos: ler a série histórica 2005–2025 do município; decompor o Ideb em aprendizagem e fluxo; comparar escolas considerando seus contextos; identificar desigualdades e problemas prioritários; e converter o diagnóstico em poucas metas acompanháveis.

Por exemplo, em vez de estabelecer apenas “aumentar o Ideb”, uma rede pode descobrir que seu principal problema está na aprendizagem matemática dos anos finais. Nesse caso, a meta gerencial precisa chegar mais perto do problema: habilidades não consolidadas, anos escolares críticos, formação dos professores, acompanhamento das escolas, frequência e estratégias de recuperação.

Em outra rede, o problema pode estar na alfabetização. Em outra, no abandono. Em outra, na enorme distância de desempenho entre escolas.

O mesmo Ideb pode exigir decisões completamente diferentes.

Uma proposta concreta: fazer uma reunião de gestão a partir do livro

Prefeituras poderiam aproveitar a publicação para promover uma jornada de análise com suas equipes.

A reunião pode começar com uma pergunta: o que o Ideb revela sobre nossa rede e o que ele não consegue revelar?

Depois, a equipe consulta os resultados oficiais do município e das escolas, observa a evolução histórica e separa aprendizagem de fluxo. Em seguida, cruza essas informações com outros indicadores disponíveis.

Somente depois dessa análise deveriam aparecer as ações.

Essa ordem importa.

Começar pela solução antes de compreender o problema aumenta o risco de produzir programas, formações e projetos que consomem recursos sem enfrentar a variável que realmente precisa mudar.

Ideb não deveria ser usado para procurar culpados

Há ainda uma reflexão importante para prefeitos e secretários.

Indicadores podem produzir aprendizagem institucional ou simplesmente aumentar pressão.

Quando o resultado vira mecanismo de exposição de escolas, diretores ou professores, cria-se um ambiente em que o dado passa a ser percebido como instrumento de cobrança. Quando é usado para localizar problemas, distribuir apoio e acompanhar intervenções, ganha outra função.

Uma escola com resultado baixo não necessariamente precisa de mais cobrança. Pode precisar de melhores condições de funcionamento, apoio pedagógico, formação específica, professores estáveis, atenção à frequência dos estudantes ou intervenção sobre problemas que extrapolam a sala de aula.

O indicador aponta onde investigar. Ele não entrega sozinho o diagnóstico nem determina automaticamente a intervenção.

Uma leitura indicada para prefeitos e secretarias de Educação

Duas décadas de Ideb: resultados e perspectivas merece circular nas secretarias municipais justamente porque não oferece uma celebração acrítica do indicador.

A publicação reconhece sua contribuição e, ao mesmo tempo, coloca seus limites em discussão.

Depois de vinte anos de série histórica, talvez a pergunta mais importante para um município já não seja simplesmente “quanto tiramos no Ideb?”.

A pergunta mais produtiva é outra:

o que aprendemos sobre nossa rede a partir desses dados e qual decisão concreta tomaremos com base neles?

É aí que avaliação começa a cumprir sua função pública.

A publicação tem distribuição gratuita e pode ser consultada integralmente pela internet. Fundação Santillana

Fontes para consulta

Livro completo “Duas décadas de Ideb: resultados e perspectivas”

Página da publicação na Fundação Santillana

Informações sobre o lançamento no Insper

Resultados oficiais do Ideb 2005–2025 por município e escola, no Inep

Análise do Iede sobre o livro e os estudos municipais

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