El Niño também pode atingir a sala de aula: clima extremo, ansiedade e aprendizagem matemática em tempos de crise global
Ondas de calor, secas, enchentes, deslocamentos populacionais e interrupções escolares não produzem apenas prejuízos materiais. Seus efeitos alcançam o bem-estar emocional, a motivação e as condições necessárias para aprender com riscos particulares para estudantes que já apresentam ansiedade diante da matemática.
O El Niño não é apenas um fenômeno meteorológico. Quando altera padrões de temperatura e precipitação, seus efeitos atravessam a economia, a saúde, a infraestrutura urbana, a segurança alimentar e o funcionamento das escolas. Chuvas intensas podem interromper o transporte escolar e danificar prédios; secas comprometem o abastecimento de água e a alimentação; ondas de calor reduzem o conforto térmico; incêndios prejudicam a qualidade do ar. Em situações mais graves, famílias são desalojadas e escolas transformam-se em abrigos.
A Nota Técnica da Confederação Nacional de Municípios CNM sobre os possíveis impactos do El Niño 2026/2027 alerta para riscos distintos entre as regiões brasileiras: chuvas intensas, inundações e movimentos de massa no Sul; estiagens, secas e incêndios no Norte e Nordeste; e ondas de calor, pressão sobre reservatórios, incêndios e comprometimento da estação chuvosa em partes do Centro-Oeste e do Sudeste.
O boletim da CNM de setembro de 2026 apresenta a dimensão da vulnerabilidade nacional. Entre julho e agosto, desastres afetaram 4,7 milhões de pessoas em 641 municípios, provocaram 11 mortes e obrigaram aproximadamente 49 mil pessoas a deixar suas casas. Foram registradas 27.278 habitações danificadas e 573 destruídas. Esses números reúnem desastres ocorridos no período e não devem ser interpretados como prejuízos integralmente causados pelo El Niño. Eles demonstram, entretanto, a elevada exposição dos territórios brasileiros justamente no momento em que o fenômeno se intensifica.
A atualização da NOAA, publicada em 10 de setembro de 2026, indica probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027. Para o trimestre de outubro a dezembro, o órgão aponta 75% de possibilidade de um evento de intensidade histórica. A própria instituição adverte, porém, que a maior intensidade aumenta a probabilidade dos impactos típicos, mas não determina automaticamente onde e com que gravidade eles ocorrerão. Previsão climática é instrumento para prevenção, não licença para alarmismo. NOAA – ENSO Diagnostic Discussion
Quando o clima interrompe a aprendizagem
A primeira consequência educacional dos eventos extremos é visível: suspensão das aulas, destruição de instalações, dificuldade de transporte, falta de energia, água ou conectividade. Mas existe uma segunda camada, menos evidente e igualmente preocupante: mesmo quando a escola permanece aberta, os estudantes podem não encontrar condições físicas, cognitivas e emocionais adequadas para aprender.
Em 2024, pelo menos 242 milhões de estudantes, em 85 países e territórios, tiveram sua escolarização interrompida por ondas de calor, tempestades, ciclones, enchentes e secas. Isso corresponde a aproximadamente um em cada sete estudantes do mundo. As ondas de calor foram o principal fator de interrupção, afetando cerca de 171 milhões de alunos. A Ásia Meridional concentrou 128 milhões de estudantes atingidos, seguida pelo Leste Asiático e Pacífico, com 50 milhões. Além disso, 74% dos afetados estavam em países de renda baixa ou média-baixa. UNICEF – Learning Interrupted
Esses dados revelam uma desigualdade climática educacional: as crianças que dispõem de menos recursos para recuperar conteúdos são frequentemente as que mais perdem dias letivos. Em Bangladesh, por exemplo, sucessivas ondas de calor, ciclones e enchentes fizeram com que estudantes de alguns territórios perdessem até oito semanas de aulas em 2024. UNICEF Bangladesh
O prejuízo não decorre somente do fechamento das escolas. Temperaturas elevadas podem reduzir atenção, persistência, memória de trabalho e capacidade de resolver tarefas complexas. Evidências sistematizadas pelo Banco Mundial indicam que o calor durante o ano escolar pode diminuir resultados em avaliações, sobretudo em prédios sem ventilação, sombreamento, água e climatização adequados. Banco Mundial – High Temperature and Learning Outcomes
Por que a matemática merece atenção especial?
A matemática apresenta uma característica que amplia sua vulnerabilidade às interrupções: sua aprendizagem é fortemente cumulativa. Dificuldades não enfrentadas em operações básicas, proporcionalidade, álgebra ou leitura de gráficos reaparecem em conteúdos posteriores. Quando o estudante perde aulas, muda repetidamente de rotina ou não consegue estudar em casa, pequenas lacunas podem transformar-se em barreiras persistentes.
Ao retornar, o aluno frequentemente encontra conteúdos mais complexos e avaliações para as quais não se sente preparado. A experiência de errar repetidamente, receber cobranças ou comparar seu desempenho com o dos colegas pode tornar a matemática um estímulo aversivo. Forma-se, então, um círculo preocupante:
crise e interrupção → lacunas de aprendizagem → maior frequência de erros → medo de avaliações → esquiva das atividades → menor prática → novas dificuldades.
A tese de doutorado Graus de ansiedade matemática em estudantes durante épocas de crises globais e sua relação com a motivação: uma análise de gênero, de Laôr Fernandes de Oliveira, ajuda a compreender esse processo. Desenvolvida no contexto da pandemia de Covid-19, a pesquisa não estudou o El Niño e, portanto, não permite afirmar que o fenômeno climático causará ansiedade matemática. Sua contribuição está em demonstrar como uma crise global pode alterar rotinas, condições de ensino, interações sociais, motivação e respostas emocionais relacionadas à disciplina.
A ansiedade matemática envolve reações fisiológicas, cognitivas e comportamentais diante de situações que exigem habilidades matemáticas. O estudante pode apresentar taquicardia, sudorese, tensão, dificuldade para organizar o raciocínio, sensação de “branco”, pensamentos de incapacidade, procrastinação, faltas, recusa em participar ou pressa para encerrar uma tarefa. Não se trata simplesmente de “não gostar de matemática”. É uma relação aprendida entre determinados contextos e respostas de medo, fuga ou esquiva.
Em períodos de crise, três condições podem intensificar esse quadro: aumento da exposição a situações aversivas, maior intensidade do estresse e percepção de falta de controle. São precisamente elementos encontrados em desastres climáticos: medo de perder a casa, insegurança alimentar, deslocamento, adoecimento, calor excessivo, interrupções frequentes e incerteza sobre o funcionamento da escola.
O alerta deixado pela pandemia
A tese analisou estudantes do 5º e do 9º ano do Ensino Fundamental e da 3ª série do Ensino Médio em escolas particulares de SP. A coleta ocorreu em dois momentos: agosto de 2021, no início do retorno presencial, e fevereiro de 2022, quando as aulas presenciais estavam mais estabilizadas.
Após o pareamento, 101 participantes responderam à Escala de Ansiedade Matemática nos dois momentos. Não houve redução estatisticamente significativa da ansiedade no conjunto da amostra. A expectativa de que o simples restabelecimento das aulas presenciais diminuiria o problema não foi confirmada.
O achado mais expressivo foi a diferença entre os gêneros. As estudantes apresentaram escores significativamente mais elevados nos dois momentos, com tamanho de efeito considerado grande. Entre as 48 participantes acompanhadas longitudinalmente, a proporção classificada com ansiedade alta passou de 22,91% para 35,41%. Entre os 53 participantes do gênero masculino, predominou a ansiedade baixa nos dois períodos. Esses resultados pertencem a uma amostra e a um contexto específicos e não devem ser generalizados automaticamente para todos os estudantes. Constituem, contudo, um alerta consistente para que redes de ensino monitorem possíveis desigualdades de gênero.
A pesquisa também mostra que a ansiedade não desaparece necessariamente quando a emergência termina. O prédio pode reabrir antes que a segurança emocional seja restabelecida. O estudante retorna, mas traz consigo lacunas, experiências de fracasso, mudanças familiares e estratégias de fuga aprendidas durante a crise.
Por isso, recompor aprendizagem não significa acelerar o currículo ou aplicar mais provas. Se o retorno vier acompanhado de pressão excessiva, exposição pública do erro e cobranças desproporcionais, a escola poderá ampliar justamente o comportamento que pretende superar.
O risco de transformar dificuldade em incapacidade
Em uma emergência climática, faltas, atrasos e baixa entrega de atividades podem ser interpretados como desinteresse. Essa leitura é perigosa. Um estudante desalojado, vivendo em abrigo ou submetido a calor e insegurança pode não ter condições mínimas de estudar. Punir o resultado sem analisar o contexto adiciona uma nova fonte de sofrimento a uma situação que já é aversiva.
Na matemática, o acúmulo de erros pode favorecer pensamentos como “não consigo”, “não nasci para isso” ou “matemática não é para mim”. Quanto mais o estudante evita as atividades, menos oportunidades encontra para praticar e receber feedback. A esquiva alivia momentaneamente a ansiedade, mas ajuda a manter a dificuldade no longo prazo.
O PISA 2022 reforça a importância do ambiente escolar. Em grande parte dos sistemas educacionais participantes, maior apoio dos professores e melhor clima disciplinar nas aulas estiveram associados a melhor desempenho, maior bem-estar, maior confiança para aprender e menor ansiedade matemática. OCDE – PISA 2022, Volume II
O que as redes de ensino podem fazer
Os planos municipais de contingência precisam incluir explicitamente a continuidade educacional. Não basta definir abrigos e rotas de evacuação; é necessário estabelecer como serão mantidos o vínculo com os estudantes, a alimentação escolar, o atendimento psicossocial, o transporte, a comunicação com as famílias e a retomada gradual das aprendizagens.
Cada rede deveria organizar um protocolo educacional para crises climáticas com, pelo menos, seis frentes:
- Mapeamento de vulnerabilidades: identificar escolas em áreas de inundação, deslizamento, seca, incêndio e calor extremo, bem como estudantes sujeitos a deslocamento ou interrupção de transporte.
- Continuidade possível: preparar alternativas presenciais, impressas e digitais, sem pressupor que todas as famílias terão internet, equipamentos, energia ou ambiente adequado para estudar.
- Diagnóstico sem punição: avaliar as aprendizagens após interrupções para orientar o ensino, evitando transformar a avaliação inicial em nota, classificação ou constrangimento.
- Monitoramento socioemocional: observar frequência, participação, pedidos de ajuda, procrastinação, recusa de atividades, reações fisiológicas e falas de incapacidade, especialmente diante da matemática.
- Recomposição gradual: retomar habilidades essenciais em pequenos passos, oferecer feedback frequente, valorizar progressos e criar oportunidades de sucesso antes de avançar para tarefas mais complexas.
- Acompanhamento da equidade: analisar os dados por gênero, território, condição socioeconômica, deficiência e exposição ao desastre, evitando respostas uniformes para necessidades diferentes.
Os professores também precisam ser apoiados. Eles podem estar enfrentando os mesmos eventos que afetam os estudantes. Formação, tempo para planejamento, materiais adaptáveis e suporte institucional são condições para que consigam acolher, diagnosticar e replanejar.
Matemática para compreender a crise, não para aumentar o medo
Há ainda uma oportunidade pedagógica importante: utilizar a matemática para compreender os próprios fenômenos climáticos. Dados de chuva, temperatura, vazão de rios, consumo de água, áreas de risco e orçamento público permitem trabalhar estatística, probabilidade, proporcionalidade, leitura de gráficos e modelagem.
A matemática pode ajudar estudantes a distinguir previsão de certeza, risco de destino inevitável e evidência de boato. Em vez de aparecer apenas como disciplina de fórmulas e provas, passa a ser instrumento para interpretar o território, tomar decisões e proteger vidas.
Entretanto, essa abordagem deve ser conduzida com cuidado. Trabalhar dados de desastres com crianças diretamente atingidas exige sensibilidade. O objetivo não é dramatizar a experiência, mas devolver aos estudantes alguma previsibilidade, compreensão e capacidade de ação.
Resiliência educacional começa antes da emergência
O El Niño não determina, sozinho, o resultado educacional de uma comunidade. Seus efeitos dependem da exposição, da vulnerabilidade social, da infraestrutura e da capacidade de preparação das instituições. O mesmo evento climático produz consequências muito diferentes em territórios distintos.
Também não é possível afirmar que o El Niño provocará diretamente ansiedade matemática. A relação é indireta e mediada pelas condições concretas: interrupções, calor, perdas familiares, deslocamento, redução do tempo de estudo, mudanças nas avaliações, fragilização do apoio social e aumento da imprevisibilidade.
A principal lição da tese de Oliveira é que os efeitos emocionais de uma crise podem persistir mesmo depois da aparente normalização da rotina. A principal advertência dos documentos da CNM é que os municípios não devem esperar o desastre para organizar suas respostas.
Reabrir escolas é indispensável, mas insuficiente. É preciso reconstruir vínculos, segurança, motivação e oportunidades reais de aprender. Em matemática, isso significa impedir que uma crise climática se transforme em história permanente de fracasso.
O clima pode interromper aulas. O planejamento público, a atuação pedagógica sensível e o apoio emocional podem impedir que ele interrompa trajetórias.
Referências principais
- CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE MUNICÍPIOS. Como os municípios podem se preparar para os possíveis impactos do El Niño 2026/2027. Nota Técnica nº 12, maio de 2026.
- CONFEDERAÇÃO NACIONAL DE MUNICÍPIOS. Boletim El Niño 2026/2027: julho e agosto de 2026. Brasília, 2026.
- OLIVEIRA, Laôr Fernandes de. Graus de ansiedade matemática em estudantes durante épocas de crises globais e sua relação com a motivação: uma análise de gênero. Tese de Doutorado. Universidade Federal de São Carlos, 2024.
- OECD. PISA 2022 Results – Volume II: Learning During and From Disruption. Paris, 2023.
- UNICEF. Learning Interrupted: Global Snapshot of Climate-Related School Disruptions in 2024. Nova York, 2025.
- WORLD BANK. Choosing Our Future: Education for Climate Action. Washington, 2024.
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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