Santana do Mundaú chegou ao topo do Ideb. O que os municípios brasileiros podem aprender com essa trajetória
Município alagoano alcançou Ideb 9,3 nos anos finais em 2023, recebeu reconhecimento do MEC e manteve resultados elevados em 2025. A experiência chama atenção para continuidade administrativa, alfabetização, acompanhamento da aprendizagem e valorização das equipes, mas também mostra por que resultados educacionais precisam ser lidos com precisão.
Quando a Prefeitura de Santana do Mundaú, em Alagoas, publicou em janeiro de 2026 um balanço afirmando que o município tinha a “melhor educação do Brasil”, havia resultados concretos por trás da expressão, mas ela precisa ser delimitada.
A informação mais precisa é esta: Santana do Mundaú alcançou Ideb 9,3 nos anos finais do ensino fundamental em 2023, resultado que colocou sua rede municipal no topo nacional nessa etapa de ensino. O desempenho posteriormente contribuiu para que o município fosse reconhecido na primeira edição do Prêmio MEC da Educação Brasileira, realizada em agosto de 2025.
O Ideb, entretanto, não mede sozinho a “qualidade total” de uma rede de ensino. O índice combina desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica, o Saeb, com informações de rendimento escolar. Por isso, a expressão “melhor educação do Brasil” deve ser entendida dentro do indicador, da etapa e do período considerados.
E há uma atualização importante. Os resultados do Ideb 2025, divulgados pelo Inep em agosto de 2026, já permitem observar o que ocorreu depois daquele destaque: Santana do Mundaú obteve Ideb 10 nos anos iniciais e 9,2 nos anos finais. Nos anos finais, ficou atrás do primeiro colocado nacional, enquanto nos anos iniciais integrou o grupo de oito municípios que alcançaram Ideb 10. Portanto, o dado de 2023 não foi um episódio isolado, embora a posição relativa tenha mudado.
Essa continuidade é justamente o aspecto que torna a experiência relevante para outras redes municipais.
O que os dados confirmam
A reportagem publicada pela prefeitura em 2 de janeiro de 2026 destacou três resultados: o reconhecimento no Prêmio MEC da Educação Brasileira, a liderança no Índice Estadual de Qualidade Educacional de Alagoas, o Iqeal, e a Medalha Prefeitos pela Alfabetização das Crianças.
A parte referente ao Prêmio MEC encontra respaldo no desenho oficial da premiação. Instituído em 2025, o prêmio foi criado para reconhecer redes, escolas e estudantes com resultados relacionados à melhoria da aprendizagem. A seleção utilizou indicadores oficiais, entre eles Censo Escolar, Ideb, avaliação da alfabetização e dados do IBGE, com análises realizadas pelo Inep.
Também é relevante observar o Iqeal. Santana do Mundaú ficou pelo segundo ano consecutivo na primeira posição do índice estadual em 2025. O indicador alagoano considera dimensões que vão além de uma prova: qualidade, acesso, estrutura pedagógica e física, permanência, recursos e evolução da aprendizagem e alfabetização.
Isso amplia a leitura sobre o município. O resultado não aparece apenas em uma avaliação nacional.
Alfabetização ajuda a entender a trajetória
Outro dado merece atenção.
Em 2023, Santana do Mundaú registrou 98,9% das crianças alfabetizadas, segundo resultado divulgado a partir do Indicador Criança Alfabetizada. Em 2024, o percentual informado foi de 97%, colocando o município na segunda posição em Alagoas naquele ciclo.
A oscilação é importante porque evita uma leitura simplista. Bons sistemas educacionais também apresentam variações entre avaliações. O que interessa para a gestão é identificar rapidamente essas mudanças e agir sobre elas.
E o dado mais recente reforça essa perspectiva. Em abril de 2026, foram divulgados resultados referentes ao ciclo seguinte e Santana do Mundaú apareceu com 100% das crianças avaliadas alfabetizadas ao final do 2º ano, integrando um grupo de 122 municípios brasileiros que alcançaram esse patamar.
Alfabetização, portanto, parece funcionar como uma das bases da trajetória observada posteriormente no ensino fundamental.
O ponto menos visível: continuidade administrativa
Há outro elemento que merece atenção dos municípios e que não aparece diretamente nas tabelas do Ideb.
A política educacional local atravessou uma mudança de governo.
Os resultados do Ideb 2023 foram produzidos durante a administração anterior, de Arthur Freitas. O atual prefeito, André Castro, já havia exercido a função de secretário municipal de Educação e, ao assumir a prefeitura em 2025, manteve parte das estratégias desenvolvidas anteriormente. A própria comunicação municipal atribui os resultados a um processo iniciado anos antes.
Isso oferece uma aprendizagem administrativa relevante: educação raramente produz resultados sustentáveis dentro do calendário político de quatro anos.
Uma criança alfabetizada no 2º ano chegará aos anos finais muito depois da implantação das primeiras intervenções. Formação docente, currículo, acompanhamento pedagógico, recuperação das aprendizagens e fortalecimento da gestão escolar precisam sobreviver às mudanças de prefeito, secretário e equipes.
Nesse sentido, a experiência de Santana do Mundaú pode ser estudada menos como resultado de uma administração específica e mais como exemplo de continuidade institucional.
Formação de professores aparece entre as estratégias
A documentação municipal também registra ciclos de formação dos profissionais da educação. Em novembro de 2024, por exemplo, a Secretaria Municipal de Educação encerrou um ciclo anual de formações relacionando essa política aos resultados educacionais obtidos pela rede.
Isso não permite afirmar que a formação continuada, isoladamente, causou o Ideb 9,3. Seria necessário um estudo específico para estabelecer causalidade.
Mas há uma diferença importante entre causalidade e coerência de política pública.
Uma rede que pretende melhorar aprendizagem precisa criar mecanismos permanentes para que professores analisem dificuldades dos estudantes, discutam práticas, trabalhem currículo e avaliações e recebam apoio pedagógico. Formação desconectada dos problemas encontrados nas salas de aula tende a produzir pouco efeito.
Para outros municípios, portanto, a pergunta útil não é simplesmente “quantas formações foram realizadas?”, mas o que mudou na prática docente depois delas e quais evidências de aprendizagem mostraram essa mudança.
Infraestrutura ajuda, mas precisa chegar à sala de aula
A prefeitura também relaciona sua trajetória a investimentos estruturantes nas escolas e à valorização dos profissionais. Em 2025, após receber o Prêmio MEC, a rede anunciou novos equipamentos, mobiliários, materiais esportivos e ações voltadas aos estudantes.
Novamente, é necessário cuidado.
Computadores, reformas, quadras, materiais e equipamentos são condições importantes, mas não garantem aprendizagem automaticamente. O município precisa conectar infraestrutura a uma estratégia pedagógica.
Uma biblioteca fechada durante boa parte do dia não melhora leitura. Tecnologia sem uso pedagógico planejado pouco altera aprendizagem. Material didático sem acompanhamento do trabalho realizado pelos estudantes pode se transformar apenas em despesa.
O desafio da gestão municipal é transformar recurso físico em oportunidade real de aprender.
Ideb alto não encerra a agenda educacional
O caso também permite uma advertência importante.
O próprio Inep mostra que o Ideb resulta da combinação entre aprendizagem e fluxo escolar. Um município pode apresentar resultado elevado e ainda ter problemas que precisam ser acompanhados.
Inclusão de estudantes com deficiência, abandono, distorção idade-série, educação infantil, Educação de Jovens e Adultos, desigualdades entre escolas, aprendizagem dos estudantes mais vulneráveis e diferenças de desempenho entre Língua Portuguesa e Matemática exigem indicadores próprios.
Por isso, nenhuma secretaria deveria administrar sua rede olhando apenas para o Ideb.
A pergunta mais sofisticada é: quem está aprendendo, quem ainda não está e onde estão concentradas as dificuldades?
O que os municípios podem fazer na prática
A experiência de Santana do Mundaú sugere um roteiro que pode ser adaptado, e não simplesmente copiado. Primeiro, a secretaria precisa construir uma linha de base por escola, turma e componente curricular, reunindo Saeb, avaliações estaduais, Indicador Criança Alfabetizada, aprovação, abandono, frequência e avaliações próprias.
Depois, o acompanhamento precisa chegar ao estudante. Uma média municipal pode esconder uma escola com grandes dificuldades ou grupos de alunos que continuam muito abaixo do esperado.
A formação continuada deve partir desses diagnósticos. Se determinada escola apresenta dificuldade persistente em resolução de problemas matemáticos, por exemplo, esse problema precisa chegar à pauta de formação, ao planejamento do professor e ao acompanhamento da coordenação pedagógica.
Também é necessário estabelecer metas intermediárias. Esperar dois anos pelo próximo Saeb é tempo demais. Redes municipais podem acompanhar leitura, escrita e Matemática ao longo do ano, desde que avaliações internas sejam usadas como instrumentos diagnósticos e não como mecanismo de punição.
Outro aprendizado é proteger políticas que funcionam das mudanças administrativas. Currículo, avaliação, formação, acompanhamento pedagógico e programas de alfabetização precisam ser institucionalizados.
E há uma pergunta que deveria aparecer em toda reunião de acompanhamento:
quais estudantes ainda não aprenderam aquilo que deveriam aprender neste momento do ano letivo e o que a rede fará por eles nas próximas semanas?
Essa pergunta desloca a gestão do indicador para a aprendizagem.
O que Santana do Mundaú ensina
O aspecto mais interessante da experiência alagoana talvez não seja uma posição em ranking.
Entre o Ideb 9,3 dos anos finais em 2023, os elevados percentuais de alfabetização, os resultados estaduais, o reconhecimento do MEC e o Ideb 2025, existe uma sequência de evidências produzidas em momentos diferentes.
Isso torna Santana do Mundaú um município que merece ser estudado.
Mas replicar uma experiência municipal exige conhecer detalhes que os indicadores públicos ainda não mostram completamente: currículo utilizado, frequência e desenho das formações, mecanismos de avaliação, critérios de intervenção, carga de acompanhamento das escolas, políticas de recuperação, estabilidade das equipes, gastos por aluno e diferenças de desempenho entre unidades.
É justamente aí que outros municípios deveriam aprofundar a investigação antes de copiar programas específicos.
O resultado final interessa. O processo que produziu o resultado interessa ainda mais.
De 9,3 para 9,2: por que isso não significa necessariamente retrocesso
Existe ainda uma leitura importante para gestores públicos.
Nos anos finais, Santana do Mundaú passou de Ideb 9,3 em 2023 para 9,2 em 2025. Olhar apenas a variação levaria alguém a registrar queda de 0,1 ponto.
Seria uma análise pobre.
O resultado continua muito acima da média brasileira da rede pública. Em 2025, o Ideb nacional da rede pública chegou a 5,0 nos anos finais, enquanto Santana do Mundaú registrou 9,2. Nos anos iniciais, a rede municipal chegou a 10, enquanto o resultado nacional da rede pública foi 6,1.
A comparação mostra por que gestores não devem reagir mecanicamente a pequenas oscilações.
É necessário abrir o indicador: verificar proficiência, fluxo, participação, distribuição dos resultados e desempenho das escolas. Somente então é possível dizer onde houve avanço ou onde existe um problema.
Uma pequena rede pode produzir aprendizagem em nível elevado
Santana do Mundaú também desafia a ideia de que municípios pequenos estão condenados a resultados educacionais modestos.
Os dados mais recentes registram uma rede com pouco mais de 2 mil matrículas e 27 escolas. Essa escala certamente cria condições administrativas diferentes das encontradas em capitais e grandes cidades, portanto comparações diretas precisam ser feitas com cautela.
Ainda assim, existe uma mensagem relevante para milhares de pequenos e médios municípios brasileiros: tamanho populacional não elimina a possibilidade de construir uma rede organizada em torno da aprendizagem.
O caminho passa menos pela busca de uma fórmula pronta e mais pela capacidade de transformar dados em rotina de gestão: alfabetizar cedo, acompanhar quem ficou para trás, apoiar professores, monitorar escolas, preservar políticas que funcionam e corrigir rapidamente aquilo que não produz resultado.
Santana do Mundaú oferece evidências suficientes para ser observada como uma experiência municipal de referência. O próximo passo, para quem pretende aprender com ela, é entrar na sala de aula e compreender os mecanismos que sustentam esses números.
Fontes consultadas
Prefeitura de Santana do Mundaú: balanço de 2025; Inep: resultados do Ideb 2005–2025; Inep: análise dos resultados do Ideb 2025; Decreto que instituiu o Prêmio MEC da Educação Brasileira; informações sobre o Prêmio MEC da Educação Brasileira de 2025; e publicações municipais relativas ao Iqeal e ao Indicador Criança Alfabetizada.
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