Tatuí transforma trajetória no Ideb e foco na alfabetização em lições para municípios de médio porte
Com cerca de 129 mil habitantes, município paulista não lidera os rankings educacionais do Estado, mas reúne uma trajetória consistente nos anos iniciais, formação continuada, avaliação de fluência, colaboração com Estado e União e escolas que alcançam resultados elevados. O caso mostra que melhoria educacional depende menos de uma ação isolada e mais de continuidade institucional.
Tatuí, no interior paulista, oferece uma experiência que merece ser observada por municípios de porte semelhante. Não porque seja possível classificá-la como a “melhor rede” de São Paulo os dados não sustentam essa conclusão, mas porque sua trajetória ajuda a mostrar como uma cidade média pode estruturar uma política educacional que combina avaliação, alfabetização, formação de professores, acompanhamento pedagógico e cooperação federativa.
Com população estimada em 129.130 habitantes em 2025, Tatuí está em uma faixa particularmente relevante para a gestão municipal brasileira: suficientemente grande para administrar uma rede educacional complexa, mas sem a escala financeira e técnica das grandes capitais. Votorantim, com 133,5 mil habitantes, e Salto, com 141,1 mil, são exemplos paulistas de cidades de dimensão demográfica próxima.
O dado mais interessante de Tatuí, entretanto, não está em uma fotografia isolada do Ideb. Está na série histórica.
O Ideb mostra uma trajetória, não um milagre de uma edição
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica reúne dois componentes: o desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o fluxo escolar, medido principalmente pela aprovação. Por isso, um Ideb elevado precisa combinar aprendizagem e progressão escolar; simplesmente aumentar a aprovação não basta para produzir, de forma sustentável, bons resultados.
Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação analisou a evolução do Ideb das redes municipais de 49 cidades paulistas de médio porte, consideradas aquelas entre 100 mil e 500 mil habitantes, no período de 2007 a 2019. Tatuí estava nesse universo.
A série da rede municipal tatuiana nos anos iniciais foi a seguinte:
| Ano | Ideb da rede municipal de Tatuí – anos iniciais | Meta projetada |
|---|---|---|
| 2007 | 5,0 | 4,6 |
| 2009 | 5,2 | 5,0 |
| 2011 | 5,5 | 5,4 |
| 2013 | 5,6 | 5,6 |
| 2015 | 6,3 | 5,9 |
| 2017 | 6,4 | 6,1 |
| 2019 | 6,4 | 6,4 |
Entre 2007 e 2019, portanto, Tatuí acrescentou 1,4 ponto ao Ideb dos anos iniciais. Mais significativo: alcançou ou superou a meta prevista em todas as sete edições analisadas pelo estudo.
Esse histórico é mais informativo do que uma manchete baseada somente em uma edição. Mostra que a rede chegou a um patamar de 6,4 antes da pandemia e permaneceu nele em 2017 e 2019.
Depois da ruptura provocada pela Covid-19, bases de consulta que reproduzem dados do Inep registram 6,0 em 2021 e 6,2 em 2023 para os anos iniciais de Tatuí. Isso indica recuperação parcial, mas ainda abaixo do 6,4 alcançado antes da pandemia. Nos anos finais, o resultado agregado informado para 2023 é 5,2.
Essa leitura é importante porque evita transformar recuperação em propaganda. Tatuí tem resultados consistentes, mas continua tendo espaço para avançar.
Um bom case não precisa ser o primeiro colocado
A própria pesquisa longitudinal traz uma advertência útil. Quando os 49 municípios paulistas foram comparados considerando conjuntamente desempenho e trajetória entre 2007 e 2019, Tatuí apareceu na 30ª posição. Votorantim ficou em 11º e Salto em 12º. Portanto, seria incorreto apresentar Tatuí como líder entre municípios médios.
Isso, paradoxalmente, torna o caso mais útil.
Boa parte dos municípios brasileiros não precisa saber apenas o que fizeram redes excepcionalmente pequenas ou municípios que ocupam o topo de rankings. Precisa conhecer experiências de cidades com redes maiores e problemas de gestão semelhantes às suas, capazes de estruturar mecanismos permanentes de melhoria.
Em um recorte ilustrativo dos resultados públicos de 2023, Tatuí registrava 6,2 nos anos iniciais, enquanto Votorantim aparecia com 6,4 e Salto com 6,6. Nos anos finais, Tatuí registrava 5,2 diante de 5,5 nas outras duas cidades. A comparação não transforma esses municípios em um ranking definitivo cada rede possui composição, vulnerabilidade e distribuição de matrículas diferentes, mas mostra que Tatuí está em um grupo competitivo e, ao mesmo tempo, ainda dispõe de referências próximas com as quais pode aprender.
Esse é justamente um princípio relevante de gestão educacional: benchmarking não serve apenas para demonstrar quem está na frente; serve para identificar quem resolveu melhor um problema semelhante.
Alfabetização começa a aparecer como eixo estruturante
O aspecto mais interessante da experiência recente de Tatuí está na organização das políticas voltadas à alfabetização.
Em março de 2025, quatro escolas municipais: Aparecida Sallum, Eugênio Santos, Maria da Conceição Oliveira Marcondes e Maria Helena Machado foram reconhecidas pelo Prêmio Excelência Educacional do Estado de São Paulo. O critério estadual é especialmente relevante porque não observa apenas uma nota bruta: considera evolução dos resultados, complexidade da escola, tamanho, vulnerabilidade social e oferta em tempo parcial ou integral.
Tatuí também aderiu ao Alfabetiza Juntos SP. Entre os instrumentos utilizados estão formação de professores, avaliação de fluência leitora, materiais didáticos e acesso à plataforma de leitura Elefante Letrado. São ações relativamente simples de enunciar, mas que, quando integradas, formam uma cadeia de gestão: avaliar → diagnosticar → formar → intervir → acompanhar novamente.
Em 2026, a EMEF Eugênio Santos voltou a ser reconhecida pelo programa estadual e a EMEF Prof. Orlando Bellucci recebeu reconhecimento pela evolução de seus indicadores de proficiência.
O município também informa ter conquistado o Selo Ouro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, reconhecimento federal relacionado à implementação e institucionalização de políticas de alfabetização. É preciso fazer uma distinção: o selo não significa, por si só, que todos os estudantes estejam alfabetizados. Ele reconhece políticas, estratégias e práticas da secretaria. É evidência de capacidade de implementação, não substituto para os indicadores de aprendizagem.
Uma escola chega a 7,3 no Ideb 2025
Um sinal recente dessa trajetória aparece na EMEF Eugênio Santos. A escola municipal havia registrado Ideb 7,2 nos anos iniciais em 2023. No Ideb 2025, passou para 7,3, resultado que a colocou em primeiro lugar entre as escolas de Tatuí nessa etapa, segundo registro da Câmara Municipal feito após a divulgação dos resultados pelo Inep.
O dado é relevante, mas precisa ser interpretado corretamente. O resultado de uma escola não pode ser utilizado como se fosse o resultado de toda a rede. Pelo contrário: para a Secretaria Municipal de Educação, a existência de uma unidade com 7,3 deveria gerar uma pergunta de gestão ainda mais importante do que a comemoração da nota: o que essa escola faz que pode ser compreendido, testado e, quando pertinente, adaptado às demais unidades?
É aí que uma escola de alto desempenho deixa de ser exceção e pode se transformar em fonte de aprendizagem institucional.
Formação continuada aparece como outra peça da estratégia
Segundo o balanço oficial da Secretaria de Educação, Tatuí realizou em 2025 quase 200 horas de formação pedagógica, envolvendo alfabetização, letramento, relações étnico-raciais, bullying e outros temas. Coordenadores pedagógicos receberam mais de 100 horas específicas de formação, e as chamadas “Trilhas de Aprendizagem” reuniram profissionais da educação infantil, ensino fundamental e atendimento educacional especializado.
Esse ponto merece atenção dos municípios. Formação continuada produz mais valor quando deixa de ser uma sucessão de palestras independentes e passa a responder aos problemas detectados nas avaliações, nos registros das escolas e no acompanhamento da aprendizagem.
A experiência do Alfabetiza Juntos SP ajuda a aproximar essas duas pontas em Tatuí: avaliação de fluência identifica o que os estudantes conseguem fazer; formação e acompanhamento pedagógico podem então ser orientados para as dificuldades efetivamente encontradas.
Ainda assim, os dados disponíveis não permitem afirmar que determinada formação “causou” aumento no Ideb. A associação é plausível, mas causalidade exigiria desenho de avaliação muito mais robusto. Para fins de política pública, o que se pode afirmar é que existe coerência entre os mecanismos implementados e os objetivos educacionais perseguidos.
O desafio agora está na equidade e nos anos finais
Os próprios resultados mostram onde Tatuí precisa concentrar o próximo ciclo de trabalho. Em todo o Brasil, a diferença entre anos iniciais e finais continua sendo expressiva. No Ideb 2025, a rede pública brasileira chegou a 6,1 nos anos iniciais e 5,0 nos anos finais. Em São Paulo, a rede pública alcançou 6,5 e 5,2, respectivamente.
Esse “degrau” entre o 5º e o 9º ano não é exclusividade de Tatuí. Ele envolve mudanças na organização curricular, aumento do número de professores, transição da unidocência para a docência por componentes, crescimento da complexidade dos conteúdos e, particularmente, dificuldades persistentes em Matemática.
Para Tatuí, portanto, o próximo indicador de sucesso não deveria ser apenas manter escolas com Ideb elevado nos anos iniciais. Deveria ser verificar se os mesmos mecanismos de acompanhamento, formação e intervenção pedagógica conseguem reduzir as diferenças entre escolas e melhorar sistematicamente a aprendizagem do 6º ao 9º ano.
O próprio estudo longitudinal alerta para uma limitação essencial do Ideb: o índice não incorpora diretamente as condições socioeconômicas dos estudantes e pode ocultar desigualdades internas importantes. Uma média municipal razoável pode conviver com escolas em situações muito diferentes.
O que Tatuí ensina a municípios de porte semelhante
O principal aprendizado não é “copiar Tatuí”. É compreender a arquitetura que começa a aparecer por trás de seus resultados: diagnóstico, metas, acompanhamento, formação, colaboração e uso de escolas de destaque como fontes de aprendizagem para a própria rede.
Para gestores municipais, algumas práticas são particularmente replicáveis:
- Construir uma série histórica por escola e etapa, acompanhando Ideb, Saeb, aprovação, frequência, alfabetização e distorção idade-série, em vez de observar somente a média municipal.
- Avaliar alfabetização durante o processo, utilizando fluência leitora e avaliações formativas para permitir intervenção antes do final do ciclo.
- Vincular formação docente aos problemas identificados nos dados, com acompanhamento posterior da prática, em vez de organizar formações desconectadas da aprendizagem.
- Criar rotinas de colaboração entre escolas, utilizando unidades com bons resultados como locais de observação e troca profissional, sem simplesmente exigir que outras escolas “copiem” suas práticas.
- Aproveitar programas estaduais e federais sem terceirizar a política educacional, articulando Alfabetiza Juntos SP, Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e outras iniciativas a um planejamento próprio da rede.
- Separar reconhecimento de responsabilização punitiva. Tatuí instituiu, pela Lei Municipal nº 6.058/2025, o “Prêmio Nota 10” para escolas com resultados destacados no Ideb. O reconhecimento pode mobilizar equipes, mas deve ser acompanhado de critérios de equidade e contexto para que escolas socialmente mais vulneráveis não sejam penalizadas por condições que não controlam.
- Transformar cada divulgação do Ideb em plano de ação, identificando habilidades frágeis, escolas que precisam de maior apoio, práticas que merecem disseminação e metas intermediárias até a avaliação seguinte.
Para replicar com responsabilidade
É justamente aqui que Tatuí pode se tornar mais interessante para outros municípios. O case não deveria ser vendido como uma fórmula pronta, nem como consequência exclusiva de uma administração específica. A série histórica começa muito antes da atual gestão: o Ideb municipal dos anos iniciais já havia passado de 5,0 em 2007 para 6,4 em 2019. Isso sugere acumulação institucional ao longo de diferentes ciclos administrativos.
As iniciativas recentes: alfabetização, avaliação de fluência, formação, expansão do tempo integral, inclusão e cooperação com o Estado acrescentam novas camadas a essa trajetória. Em 2025, o município informava que seu Programa Escola em Tempo Integral já alcançava cinco escolas e 615 estudantes; os serviços especializados CMEAA e NATE atendiam cerca de 300 estudantes por semana; e a secretaria havia ampliado formação e acompanhamento das equipes pedagógicas.
O teste decisivo será acompanhar se essa arquitetura conseguirá produzir três resultados simultaneamente: elevar a aprendizagem média, diminuir as diferenças entre escolas e fazer os anos finais avançarem no mesmo ritmo dos anos iniciais.
Um case pela consistência, não pelo ranking
Tatuí oferece uma mensagem relevante para cidades brasileiras de aproximadamente 100 mil a 150 mil habitantes. Uma política educacional de referência não precisa nascer de um programa espetacular. Pode surgir da capacidade de transformar avaliação em diagnóstico, diagnóstico em formação, formação em intervenção pedagógica e resultado em nova decisão.
O município ainda não está no topo entre seus pares paulistas, e justamente por isso sua experiência é útil. Ele mostra uma rede real, de cidade média, com avanços históricos, interrupções provocadas pela pandemia, diferenças entre escolas e desafios nos anos finais mas também com mecanismos institucionais que permitem aprender com os próprios resultados.
A EMEF Eugênio Santos chegar a 7,3 no Ideb 2025 é uma conquista importante. O passo seguinte é mais ambicioso: fazer com que os fatores associados ao bom desempenho de algumas escolas se transformem em capacidade sistêmica de toda a rede.
Para outros municípios, essa talvez seja a lição mais relevante de Tatuí: o objetivo não é produzir uma escola excepcional. É construir uma rede capaz de aprender continuamente com suas próprias evidências.
As principais fontes para a matéria são o Inep para metodologia e resultados de 2025; o IBGE para população; o estudo longitudinal publicado em Ensaio para a série municipal 2007- 2019; a Secretaria Municipal de Educação e a Prefeitura de Tatuí para descrição das políticas; e a Câmara Municipal para o resultado de 7,3 da EMEF Eugênio Santos em 2025.
Resultados oficiais do Ideb 2005–2025 Inep
Estudo longitudinal dos municípios paulistas de médio porte
Ações do Alfabetiza Juntos SP em Tatuí
Balanço da Educação de Tatuí em 2025
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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