Ideb 2025 avança, mas o desafio dos municípios é transformar resultado em gestão da aprendizagem
Os novos dados mostram melhora da educação básica brasileira. Experiências municipais ajudam a identificar práticas de monitoramento, formação docente e gestão pedagógica que podem ser adaptadas por outras redes, sem transformar o Ideb em finalidade da política educacional.
O Ideb 2025 trouxe uma notícia relevante para a educação brasileira: o indicador avançou nas três etapas da educação básica. Mas, para uma secretaria municipal de Educação, saber se a nota aumentou ou diminuiu é apenas o começo do trabalho.
A questão mais útil vem depois: o que aconteceu com a aprendizagem dos estudantes, quais escolas avançaram, quais ficaram para trás e que decisões precisam ser tomadas agora?
Divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 5 de agosto de 2026, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica passou, considerando redes públicas e privadas, de 6,0 para 6,3 nos anos iniciais do ensino fundamental, de 5,0 para 5,3 nos anos finais e de 4,3 para 4,5 no ensino médio, entre 2023 e 2025. Na rede pública, os resultados passaram de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais, de 4,7 para 5,0 nos anos finais e de 4,1 para 4,3 no ensino médio. Serviços e Informações do Brasil
Os números confirmam uma tendência positiva. Ao mesmo tempo, exigem leitura cuidadosa. O Ideb combina dois componentes distintos: o desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e os dados de aprovação provenientes do Censo Escolar. Portanto, duas redes com Ideb semelhante podem ter situações educacionais bastante diferentes. Serviços e Informações do Brasil
É justamente nesse ponto que os resultados de 2025 podem se transformar em instrumento de gestão municipal.
O Ideb aumentou. Mas a aprendizagem também melhorou?
Essa é uma das primeiras perguntas que uma secretaria deveria fazer ao receber os resultados.
Os dados nacionais do Saeb indicam que houve avanço na aprendizagem.
Na rede pública, no 5º ano do ensino fundamental, a proficiência média em língua portuguesa passou de 207,6 pontos em 2023 para 215,1 em 2025. Em matemática, subiu de 218,3 para 227,4.
No 9º ano, português avançou de 252,9 para 256,6 pontos, enquanto matemática passou de 249,9 para 255,3. Serviços e Informações do Brasil
É um dado importante porque mostra que a melhora nacional do Ideb não decorreu exclusivamente do fluxo escolar.
O Saeb 2025 envolveu cerca de 5,9 milhões de estudantes, 73,7 mil escolas e 247,7 mil turmas. Serviços e Informações do Brasil
Ainda assim, a média nacional não explica o que aconteceu em cada município.
É nesse ponto que começa o trabalho das secretarias.
Ideb não deve ser lido como campeonato entre municípios
Uma das tentações após a divulgação do Ideb é organizar listas com as maiores notas.
Isso gera manchetes, mas nem sempre produz boa gestão educacional.
Municípios possuem populações, níveis socioeconômicos, estruturas administrativas, matrículas, territórios e desafios educacionais diferentes. Uma pequena rede municipal não pode ser comparada automaticamente com uma capital ou uma rede de centenas de escolas.
A comparação mais produtiva é aquela realizada entre redes com características semelhantes e, principalmente, com a própria trajetória do município.
Uma prefeitura deveria perguntar:
Quanto avançamos desde 2019, 2021 e 2023?
A aprendizagem melhorou em português e matemática?
O avanço ocorreu em todas as escolas?
Quais unidades permaneceram estagnadas?
A distância entre as escolas aumentou ou diminuiu?
O fluxo escolar melhorou sem redução das exigências de aprendizagem?
Essas perguntas dizem mais sobre a qualidade da política educacional do que a posição isolada em um ranking.
Cinco experiências municipais que merecem ser estudadas
Os resultados do Ideb 2025 permitem identificar municípios cujas trajetórias e estratégias podem contribuir para o debate sobre gestão educacional.
Isso não significa que suas políticas possam ser simplesmente copiadas. Cada experiência precisa ser compreendida considerando contexto, tamanho da rede, condições socioeconômicas, governança e continuidade das políticas.
Sobral: transformar avaliação em rotina de gestão
Sobral, no Ceará, permanece como uma das experiências municipais mais estudadas do país.
Em 2025, segundo dados divulgados pela rede municipal, Sobral registrou Ideb 9,6 nos anos iniciais e 8,0 nos anos finais do ensino fundamental.
Mais importante do que observar apenas essas notas é compreender a arquitetura institucional construída ao longo dos anos.
A experiência de Sobral já foi objeto de estudos do próprio Inep. Entre os elementos documentados aparecem acompanhamento sistemático das escolas, utilização de avaliações para orientar decisões pedagógicas, formação continuada dos professores, definição de responsabilidades e apoio técnico às equipes escolares.
Há uma diferença importante entre avaliar a escola e usar a avaliação para ajudar a escola.
Redes que simplesmente entregam planilhas aos diretores transferem o problema para a unidade escolar. Redes que possuem equipes capazes de interpretar os resultados e apoiar planejamento, formação e intervenção pedagógica transformam dados em gestão.
É essa segunda dimensão que torna Sobral relevante para outros municípios.
Foz do Iguaçu: olhar para a rede, e não somente para a nota
Foz do Iguaçu, no Paraná, é outro município analisado pelo Iede em estudos sobre a trajetória do Ideb.
Nos anos iniciais, a rede municipal chegou a 7,7 no Ideb 2025, após registrar 7,4 em 2023.
Mas uma secretaria que queira aprender com a experiência não deveria perguntar apenas “como chegar a 7,7?”.
A pergunta mais interessante é:
como uma rede municipal organiza currículo, acompanhamento das escolas, avaliação e formação para sustentar uma trajetória de aprendizagem?
Esse deslocamento muda completamente a utilização do indicador.
O objetivo deixa de ser perseguir uma nota e passa a ser construir capacidade institucional.
Curitiba: a média da rede não pode esconder desigualdades internas
Curitiba oferece outra perspectiva importante.
A rede municipal registrou Ideb 6,9 nos anos iniciais em 2025.
Em redes grandes, entretanto, a média municipal pode esconder diferenças consideráveis entre escolas.
Por isso, cidades de médio e grande porte precisam avançar para uma segunda camada de análise: a distribuição dos resultados.
Imagine duas redes com Ideb 6,9.
Na primeira, quase todas as escolas estão próximas desse resultado.
Na segunda, existem escolas com resultados muito elevados e outras muito abaixo da média.
O Ideb municipal é semelhante, mas o problema de gestão é completamente diferente.
Nesse caso, a secretaria precisa construir um verdadeiro mapa de desigualdade educacional dentro do próprio município.
Coruripe: resultado excepcional exige estudo cuidadoso
Coruripe, em Alagoas, ganhou destaque nos resultados de 2025 ao alcançar Ideb 10 nos anos iniciais, segundo divulgação da administração municipal.
A experiência chama atenção também pelas ações relatadas pela rede: avaliações diagnósticas periódicas, acompanhamento individual da aprendizagem, atividades de recomposição, formação continuada, materiais complementares e planejamento conjunto entre professores e coordenação pedagógica.
Essas práticas merecem ser examinadas.
Mas resultados extremamente elevados também exigem prudência analítica.
O Iede chamou atenção para a concentração de resultados muito altos em determinados territórios e defendeu uma investigação aprofundada sobre esses fenômenos. Isso não invalida os resultados nem permite presumir irregularidades. Significa apenas que resultados excepcionais precisam ser compreendidos em profundidade antes de serem apresentados como modelos automaticamente replicáveis.
Para o Pauta Municipal Brasil, esse é um princípio importante: boa prática precisa de evidência, contexto e possibilidade real de aprendizagem por outras redes.
Missal: a trajetória pode dizer mais que a fotografia
Missal, no Paraná, oferece outro tipo de aprendizado.
Segundo dados divulgados pelo município, o Ideb dos anos iniciais passou de aproximadamente 7,2 em 2023 para 8,4 em 2025. Quando observada uma série mais longa, o município informa uma evolução de 4,9 em 2005 para 8,4 em 2025.
É justamente esse tipo de série histórica que deveria interessar aos gestores.
Uma fotografia mostra onde o município está.
A trajetória ajuda a entender como chegou até ali.
Para analisar uma experiência municipal, portanto, não basta localizar uma nota alta. É necessário verificar quando a evolução começou, quais políticas atravessaram diferentes administrações, quais mecanismos permaneceram e se a aprendizagem acompanhou a melhora do fluxo.
O que essas experiências têm em comum
Não existe uma fórmula municipal para aumentar o Ideb.
Também não é possível afirmar que determinada ação isolada tenha causado os resultados dessas redes.
Mas algumas práticas aparecem de forma recorrente em experiências que apresentam trajetórias consistentes:
monitoramento sistemático da aprendizagem; formação docente relacionada às dificuldades observadas nas avaliações; acompanhamento pedagógico das escolas; utilização dos dados para planejamento; avaliações diagnósticas ao longo do ano; apoio técnico às unidades com maiores dificuldades; continuidade institucional das políticas educacionais.
A diferença parece estar menos na existência de uma avaliação e mais naquilo que a administração faz depois que recebe o resultado.
O que os municípios podem fazer na prática
O Ideb 2025 pode ser transformado em um plano municipal de aprendizagem para os próximos dois anos.
O primeiro passo é decompor o indicador. A secretaria precisa separar desempenho no Saeb e fluxo escolar e verificar a evolução de língua portuguesa e matemática.
Depois, é necessário construir a série histórica do município. Comparar apenas 2023 e 2025 pode esconder tendências mais longas.
O terceiro movimento é abrir os resultados por escola. A média da rede precisa ser acompanhada da dispersão interna.
Em seguida, a secretaria deve chegar ao nível pedagógico. Quais habilidades apresentam maiores dificuldades? Em quais anos? Em quais escolas?
É nessa etapa que a formação continuada pode ganhar precisão.
Em vez de oferecer cursos genéricos para toda a rede, a formação pode responder aos problemas identificados na aprendizagem.
A rede também pode estabelecer ciclos curtos de acompanhamento. Esperar dois anos pelo próximo Saeb é tempo demais para descobrir que uma intervenção não funcionou.
Avaliações diagnósticas e formativas municipais podem oferecer sinais durante o percurso, desde que não produzam excesso de provas ou reduzam o currículo ao treinamento para avaliações externas.
Um painel mínimo para a Secretaria de Educação
Uma prefeitura não precisa começar construindo um sistema tecnológico complexo.
Um painel municipal de acompanhamento pode reunir inicialmente:
Ideb 2023 e 2025; resultados do Saeb em língua portuguesa e matemática; taxas de aprovação, reprovação e abandono; resultados por escola; frequência escolar; distorção idade-série; indicadores de alfabetização; participação nas avaliações externas; evolução dos estudantes nas avaliações diagnósticas municipais.
A partir daí, cada escola pode ter metas pedagógicas intermediárias.
Não apenas metas de Ideb.
Metas de aprendizagem.
Por exemplo: reduzir a proporção de estudantes abaixo de determinado nível de proficiência, melhorar habilidades específicas de matemática, elevar fluência leitora ou diminuir diferenças entre escolas da mesma rede.
O alerta dos 442 municípios
Há outro dado do Ideb 2025 que merece atenção especial dos gestores.
Segundo o Inep, 442 municípios permanecem com Ideb inferior a 4,9 nos anos iniciais do ensino fundamental. Em 2023 eram 1.097 e, em 2005, 4.110. O MEC anunciou assistência técnica voltada justamente para os municípios que permanecem nessa situação. Serviços e Informações do Brasil
A redução ao longo do tempo é expressiva, mas esses 442 municípios exigem atenção diferenciada.
Para essas redes, talvez seja pouco útil começar a discussão comparando-se com municípios de Ideb 8, 9 ou 10.
O diagnóstico precisa identificar os gargalos fundamentais: alfabetização, frequência, formação docente, currículo, gestão escolar, transporte, vulnerabilidade social, infraestrutura, recomposição da aprendizagem ou capacidade técnica da própria secretaria.
A prioridade precisa nascer do problema real da rede.
O que o Ideb 2025 ensina aos prefeitos e secretários
Talvez a principal aprendizagem dos municípios que apresentam trajetórias educacionais consistentes seja menos visível que suas notas.
Educação exige continuidade.
Prefeitos mudam. Secretários mudam. Diretores mudam.
Mas currículo, avaliação, formação, acompanhamento pedagógico e sistemas de informação precisam sobreviver às mudanças administrativas quando demonstram resultados.
Essa capacidade institucional separa uma política pública de um projeto de governo.
Um município interessado em estudar Sobral, Foz do Iguaçu, Curitiba, Coruripe ou Missal não deveria começar perguntando:
“Qual programa devemos copiar?”
Deveria perguntar:
“Quais mecanismos de gestão sustentam essa política e quais deles fazem sentido para nossa realidade?”
Essa é uma pergunta muito mais difícil.
Também é muito mais útil.
Para replicar com responsabilidade
O Ideb continuará sendo uma ferramenta importante para a educação brasileira, mas precisa ser utilizado dentro de seus limites.
Ele não mede sozinho a qualidade de uma escola. Não captura integralmente inclusão, clima escolar, desenvolvimento socioemocional, infraestrutura, formação integral, participação das famílias ou todas as dimensões curriculares.
Também não deve produzir incentivos para aprovação artificial ou treinamento excessivo para testes.
Seu valor está em oferecer uma medida comparável ao longo do tempo que combina aprendizagem e trajetória escolar.
Por isso, depois da divulgação do Ideb 2025, talvez a pergunta mais importante para uma prefeitura não seja:
“Qual foi nossa nota?”
A pergunta deveria ser outra:
Quais estudantes estão aprendendo, quais ainda não estão, em quais escolas estão as maiores dificuldades e o que a rede municipal fará, concretamente, antes da próxima avaliação?
Quando o município consegue responder a essas quatro questões com dados, responsabilidades definidas e acompanhamento periódico, o Ideb deixa de ser apenas uma notícia publicada a cada dois anos.
Passa a funcionar como instrumento de gestão.
Fontes consultadas
Iede Apontamentos dos resultados do Ideb 2025
Inep Ideb avança em todas as etapas da educação básica
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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