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Guaíra mostra que melhorar a saúde municipal pode começar pela gestão do trabalho, e não por novas estruturas

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Guaíra mostra que melhorar a saúde municipal pode começar pela gestão do trabalho, e não por novas estruturas

Experiência paulista combina reorganização da Atenção Básica, integração entre hospital e equipes de Saúde da Família e evolução expressiva no acompanhamento de hipertensão, diabetes e saúde da mulher. O caso oferece pistas concretas para municípios que procuram melhorar resultados com a rede que já possuem.

Quando se fala em melhorar a saúde municipal, a primeira reação costuma ser pensar em mais unidades, equipamentos, médicos, exames ou recursos financeiros. Tudo isso importa. Mas uma experiência construída em Guaíra, no interior de São Paulo, chama atenção para uma variável menos visível: a forma como as pessoas e os serviços já existentes trabalham juntos.

O município vem acumulando reconhecimentos por projetos desenvolvidos no Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2025, foi premiado pelo trabalho de qualificação da transição do cuidado materno-infantil. Em 2026, voltou a receber o Prêmio David Capistrano, desta vez pela experiência “Da Escuta à Efetividade: Remodelação do Processo de Trabalho das Equipes da Atenção Básica de Guaíra”. O trabalho também chegou à 21ª Mostra Brasil, Aqui Tem SUS. Municípiode Guaíra

O Pauta Municipal Brasil escolheu Guaíra como estudo de caso porque há algo além das premiações: existe uma intervenção descrita tecnicamente, uma trajetória iniciada há alguns anos e indicadores anteriores e posteriores à mudança.

Isso permite fazer uma pergunta mais útil aos gestores municipais: o que exatamente foi feito e o que pode ser adaptado em outras cidades?

O Brasil está produzindo um laboratório de soluções municipais para o SUS

Guaíra não é um caso isolado. Em abril de 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reconheceu 20 experiências desenvolvidas por municípios paulistas, consideradas referências positivas para o SUS e com potencial de disseminação. Entre elas estão iniciativas de Americana, Francisco Morato, Jaborandi, Lavínia, Morungaba, Paulínia, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São José do Rio Preto, Suzano e Ubatuba. Paho

Os problemas enfrentados são bastante diferentes. Jaborandi utilizou georreferenciamento na gestão do cuidado e dos indicadores da Atenção Primária; Lavínia trabalhou com estratificação da vulnerabilidade familiar; Morungaba desenvolveu estratégia de imunização; Paulínia implantou hospital de transição; São Bernardo do Campo apresentou uma estratégia de navegação para o cuidado oncológico; e Suzano trabalhou com a primeiríssima infância. Paho

Em julho, outro dado mostrou a dimensão desse movimento. A 21ª Mostra Brasil, Aqui Tem SUS selecionou 397 experiências, das quais 355 foram desenvolvidas por municípios e pelo Distrito Federal. Os trabalhos foram avaliados por critérios como relevância, inovação, aplicabilidade e resultados alcançados. Serviços e Informações do Brasil

O Ministério da Saúde também recebeu mais de 750 relatos para o Observatório de Boas Práticas de Equidade na Atenção Primária, provenientes de 289 municípios. Foram selecionadas 674 experiências. Cerca de 60% dos relatos vieram de equipes de Saúde da Família. Serviços e Informações do Brasil

Há, portanto, conhecimento sendo produzido diariamente dentro das redes municipais. O desafio é fazer esse conhecimento circular.

Por que Guaíra merece ser estudada

O ponto de partida da experiência é particularmente interessante porque não foi a criação de um novo serviço.

Segundo o relato técnico apresentado ao Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo, o processo começou após um diagnóstico realizado com as equipes. A reorganização implantada a partir de 2022 investiu em escuta, capacitação, autonomia e valorização dos profissionais da Atenção Básica. Cosemssp

A lógica parece elementar, mas toca num problema recorrente da administração pública: uma organização pode possuir profissionais qualificados, unidades funcionando e protocolos definidos e, ainda assim, apresentar resultados insuficientes porque seus processos são fragmentados.

Em Guaíra, a resposta foi mexer justamente nessa engrenagem.

Capacitação técnica e educação permanente passaram a dialogar com problemas concretos das equipes. Os profissionais receberam maior espaço para adaptar o trabalho às necessidades dos territórios, dentro das diretrizes do SUS. Projetos complementares começaram a surgir dessa reorganização, como a transição do cuidado materno-infantil e a alta qualificada de pacientes graves. Cosemssp

Em outras palavras, o município não tratou gestão de pessoas como assunto separado da gestão assistencial.

Três indicadores mostram a dimensão da mudança

Os resultados informados pelo COSEMS/SP permitem observar a evolução entre 2022 e 2025.

No acompanhamento da população com hipertensão, a cobertura passou de 13% para 63,53%.

Entre pessoas com diabetes, avançou de 10% para 62,22%.

Na saúde da mulher, a cobertura de coleta de exame citopatológico para prevenção do câncer do colo do útero passou de 7% para 54,37%. Cosemssp

São variações expressivas. Calculando a diferença em pontos percentuais, foram aumentos de 50,53 pontos no acompanhamento de hipertensos, 52,22 pontos entre pessoas com diabetes e 47,37 pontos na cobertura do exame citopatológico.

Há, porém, uma cautela importante.

Esses resultados mostram associação temporal entre a reorganização do trabalho e a evolução dos indicadores. Não permitem concluir, isoladamente, que toda a mudança foi causada exclusivamente pela intervenção. Alterações de cadastro, registros, composição populacional, financiamento, ações complementares e outras mudanças da rede também podem interferir.

Essa distinção torna o case mais útil, e não menos. Boa gestão pública exige separar resultado observado de causalidade comprovada.

O segundo problema enfrentado por Guaíra: o paciente que desaparece entre dois serviços

Outra experiência ajuda a compreender melhor a lógica adotada pelo município.

Desde outubro de 2022, Guaíra trabalha na qualificação da transição do cuidado materno-infantil entre a Santa Casa e a Atenção Básica.

O problema é conhecido em praticamente todo o SUS: uma pessoa recebe alta hospitalar, mas o serviço que deveria continuar seu acompanhamento nem sempre recebe a informação de forma organizada.

No caso materno-infantil, essa ruptura é especialmente delicada.

O projeto de Guaíra estabeleceu mecanismos de comunicação entre as Santas Casas de Guaíra e de Barretos e as equipes da Estratégia Saúde da Família. As informações sobre gestantes que tiveram seus filhos passaram a subsidiar o agendamento e acompanhamento do binômio mãe-bebê. Cosemssp

O agente comunitário de saúde também ganhou papel claro no fluxo: realizar visita domiciliar durante a primeira semana após a alta, acolher a família e reforçar os agendamentos.

Segundo o relato técnico do projeto, o processo contribuiu para reduzir o absenteísmo nas primeiras consultas de puerpério e puericultura. O documento, entretanto, não apresenta naquele relato uma série quantitativa completa que permita medir a magnitude dessa redução. Cosemssp

Essa informação precisa ser preservada porque mostra exatamente como um case deve ser analisado: reconhecer a evidência existente sem atribuir ao projeto aquilo que os dados ainda não demonstram.

Da maternidade para pacientes graves

A experiência não parou na saúde materno-infantil.

A partir do aprendizado obtido com a transição entre hospital e Atenção Básica, o município desenvolveu, em 2024, a chamada Alta Qualificada para Pacientes Graves.

Nesse modelo, quando uma pessoa internada está próxima da alta, mas passa a depender de cuidados assistenciais, profissionais da Atenção Primária vão ao hospital antes que ela volte para casa.

A equipe conhece o caso ainda durante a internação e pode preparar o Projeto Terapêutico Singular, organizar a continuidade do atendimento e orientar familiares para as novas necessidades do paciente. Cosemssp

É uma mudança administrativa pequena na aparência, mas relevante na lógica assistencial.

Em vez de o paciente receber alta e depois procurar a rede, a rede começa a se preparar antes da alta.

Para muitos municípios, esse talvez seja um dos pontos mais facilmente adaptáveis da experiência.

Um reconhecimento que ajuda a validar a continuidade da experiência

O projeto materno-infantil esteve entre os 15 premiados no 14º Prêmio David Capistrano, em 2025, numa edição que recebeu 2.142 trabalhos. Municípiode Guaíra

Em março de 2026, a prefeitura informou que a experiência também havia sido selecionada pelo Núcleo de Boas Práticas do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, no âmbito do catálogo relacionado ao Índice de Efetividade da Gestão Municipal (IEG-M). Municípiode Guaíra

No mês seguinte veio um segundo Prêmio David Capistrano. Entre 2.658 trabalhos inscritos no congresso estadual de 2026, 20 receberam o reconhecimento. Guaíra apareceu com “Da Escuta à Efetividade”, justamente o projeto de reorganização da Atenção Básica. Municípiode Guaíra

Posteriormente, a experiência chegou ao cenário nacional na 21ª Mostra Brasil, Aqui Tem SUS. Municípiode Guaíra

Nenhum prêmio, sozinho, comprova excelência de todo o sistema municipal de saúde. O que fortalece o interesse pelo caso é a combinação entre reconhecimentos externos, descrição da intervenção e evolução mensurável de indicadores específicos.

Barreiras mostra outra forma de avaliar a saúde municipal

O município de Barreiras, na Bahia, citado entre as referências desta pauta, oferece uma comparação interessante.

Em 2025, Barreiras recebeu a Medalha de Ouro em Saúde e Bem-Estar do Prêmio Band Cidades Excelentes, na categoria de municípios com mais de 100 mil habitantes. A avaliação utiliza o Índice de Gestão Municipal Aquila (IGMA), que trabalha com indicadores de fontes oficiais e diferentes dimensões da administração municipal. UPB

É uma abordagem diferente da avaliação de uma boa prática específica.

Uma premiação baseada em indicadores agregados ajuda a enxergar o desempenho municipal. Uma mostra como a Brasil, Aqui Tem SUS procura examinar uma intervenção concreta, incluindo sua relevância, inovação, aplicabilidade e resultados. Serviços e Informações do Brasil

Para gestores, as duas leituras são necessárias.

Um indicador pode mostrar onde o município está. Um case bem documentado pode ajudar a entender como determinado problema foi enfrentado.

O tamanho da Atenção Primária explica por que isso importa

O Brasil encerrou 2025 com cerca de 60,4 mil equipes de Saúde da Família e de Atenção Primária, 277,4 mil agentes comunitários de saúde e repasse anual informado de R$ 15,5 bilhões para a APS. O Ministério da Saúde também registra que mais de 80% dos municípios já contam com prontuário eletrônico. Serviços e Informações do Brasil

A estrutura é enorme.

Por isso, pequenos ganhos de organização podem alcançar milhões de pessoas quando práticas eficazes conseguem ser adaptadas em escala.

A própria política federal de financiamento passou a incorporar indicadores relacionados a boas práticas e desempenho das equipes. No cuidado à pessoa idosa, por exemplo, o Ministério informa que indicadores específicos passaram a integrar o componente de qualidade, relacionando o repasse ao desempenho e à oferta efetiva de ações e serviços. Serviços e Informações do Brasil

Isso aumenta a importância de uma gestão municipal capaz de transformar dados assistenciais em decisões.

O que Guaíra ensina aos outros municípios

O primeiro aprendizado é simples: antes de criar outro programa, examine como funciona aquilo que o município já possui.

Uma secretaria pode ter UBS, médicos, enfermeiros, agentes comunitários, sistemas informatizados e protocolos e, mesmo assim, apresentar problemas de comunicação, baixa autonomia, acompanhamento insuficiente e fragmentação.

O segundo aprendizado é que formação profissional precisa responder aos problemas reais das equipes. Educação permanente não deveria significar apenas uma agenda anual de cursos. Precisa alterar práticas.

O terceiro está nos dados. Sem linha de base, qualquer melhoria corre o risco de virar percepção. Guaíra consegue dizer que o acompanhamento de hipertensos saiu de 13% para 63,53% porque havia registro que permitia comparar períodos. Cosemssp

E existe um quarto ponto que deveria entrar no radar de muitas secretarias: transição do cuidado precisa ser desenhada.

O fato de hospital e UBS integrarem o SUS não garante que conversem adequadamente.

Alguém precisa informar a alta. Alguém precisa receber essa informação. Alguém precisa verificar se o usuário chegou ao atendimento seguinte.

Quando essas responsabilidades não estão definidas, o paciente pode desaparecer entre duas portas do mesmo sistema.

O que os municípios podem fazer na prática

Uma prefeitura interessada em aproveitar os aprendizados dessas experiências pode começar sem criar imediatamente uma nova estrutura.

Escolha dois ou três problemas prioritários da Atenção Primária. Levante a situação inicial usando dados oficiais. Converse com as equipes para localizar gargalos que os indicadores não mostram. Mapeie o percurso do usuário entre UBS, especialistas e hospital. Identifique pontos nos quais informações deixam de circular. Defina responsáveis e prazos. Teste um fluxo redesenhado em algumas unidades e acompanhe mensalmente acesso, continuidade, cobertura e resolutividade.

Na saúde materno-infantil, uma pergunta pode iniciar o diagnóstico:

A UBS sabe, em tempo oportuno, quais gestantes de seu território acabaram de receber alta após o parto?

Para doenças crônicas:

Quantas pessoas com hipertensão e diabetes cadastradas estão efetivamente acompanhadas e quantas deixaram de aparecer?

Para gestão de pessoas:

As formações oferecidas às equipes estão relacionadas aos problemas encontrados nas unidades ou apenas cumprem um calendário administrativo?

E, para integração da rede:

Quem é responsável por garantir que um paciente vulnerável que recebeu alta hospitalar realmente seja acompanhado pela Atenção Primária?

As respostas já constituem matéria-prima para um plano de melhoria.

Para replicar com responsabilidade

Guaíra não deve virar uma fórmula.

Um município de pequeno porte no interior paulista opera em condições diferentes de uma capital, de uma cidade amazônica, de um território rural disperso ou de um município com alta vulnerabilidade social.

O que pode ser transferido é o método.

Diagnosticar. Escutar as equipes. Definir o problema. Rever processos. Estabelecer responsabilidades. Capacitar profissionais. Integrar os serviços. Criar indicadores. Acompanhar resultados. Corrigir o que não funcionar.

A seleção do Observatório de Boas Práticas de Equidade do Ministério da Saúde utiliza justamente critérios como relevância, aplicabilidade e potencial de contribuição ao SUS. Serviços e Informações do Brasil

É uma boa régua para qualquer prefeito ou secretário diante de uma experiência premiada.

A pergunta não deveria ser apenas “como fazemos igual?”.

Antes disso, é preciso perguntar: qual problema esse município resolveu, quais recursos utilizou, como organizou o trabalho, quais resultados conseguiu medir e quais condições do nosso território são diferentes?

Há centenas de experiências municipais circulando pelo SUS neste momento. A oportunidade está em transformar esse conhecimento disperso em aprendizagem entre governos locais.

Nesse sentido, o caso de Guaíra merece atenção porque sugere algo particularmente útil para municípios com recursos limitados: às vezes, uma das tecnologias mais importantes que uma Secretaria de Saúde pode implantar é um processo de trabalho melhor organizado.

Fontes para consulta

A apuração foi realizada prioritariamente em fontes oficiais e institucionais: OPAS/OMS 20 experiências municipais reconhecidas em São Paulo; Ministério da Saúde 21ª Mostra Brasil, Aqui Tem SUS; Ministério da Saúde Observatório de Boas Práticas de Equidade; COSEMS/SP Da Escuta à Efetividade, Guaíra; COSEMS/SP Transição do Cuidado Materno-Infantil de Guaíra; e Ministério da Saúde balanço da Atenção Primária.

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