Aprendizagem na rede pública avança, mas o desafio dos municípios agora é transformar resultado em gestão
Saeb e Ideb 2025 mostram melhora em português e matemática. Para as prefeituras, porém, a pergunta mais importante não é apenas quanto a rede cresceu, mas quais alunos ainda não aprenderam, em quais habilidades estão as maiores dificuldades e o que precisa mudar dentro das escolas.
Os resultados mais recentes da educação básica brasileira trazem uma notícia importante: os estudantes da rede pública avançaram em aprendizagem.
Entre 2023 e 2025, as médias nacionais do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) cresceram em língua portuguesa e matemática no 5º e no 9º ano do ensino fundamental e também no 3º ano do ensino médio. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da rede pública também aumentou nas três etapas.
O movimento merece atenção. Mas, para uma prefeitura, conhecer a média nacional é apenas o começo.
O dado realmente útil é aquele que chega à escola e ajuda a responder perguntas concretas: em quais habilidades os estudantes estão avançando? Onde estão as maiores dificuldades? Quais escolas precisam de maior apoio? Existem diferenças importantes entre grupos de alunos? O currículo ensinado está chegando efetivamente à sala de aula? E as formações oferecidas aos professores estão relacionadas aos problemas de aprendizagem identificados?
É nesse ponto que avaliações como Saeb, Ideb e Indicador Criança Alfabetizada podem deixar de ser apenas números divulgados periodicamente e passar a funcionar como instrumentos de gestão.
O que os números mais recentes mostram
O Saeb 2025 alcançou cerca de 5,9 milhões de estudantes, 73,7 mil escolas e 247,7 mil turmas. A avaliação produz informações sobre o desempenho dos estudantes e permite análises da educação básica em diferentes níveis de agregação.
Na rede pública brasileira, as médias divulgadas pelo Inep mostram o seguinte movimento:
| Etapa | Área | 2023 | 2025 | Variação |
|---|---|---|---|---|
| 5º ano | Língua Portuguesa | 207,6 | 215,1 | +7,5 |
| 5º ano | Matemática | 218,3 | 227,4 | +9,1 |
| 9º ano | Língua Portuguesa | 252,9 | 256,6 | +3,7 |
| 9º ano | Matemática | 249,9 | 255,3 | +5,4 |
| 3º ano EM | Língua Portuguesa | 269,1 | 272,3 | +3,2 |
| 3º ano EM | Matemática | 263,9 | 268,0 | +4,1 |
Fonte: Inep/Saeb 2025.
Há um aspecto particularmente interessante para as redes municipais: os ganhos foram maiores no 5º ano do ensino fundamental do que nas etapas posteriores.
Em matemática, por exemplo, o avanço do 5º ano foi de 9,1 pontos entre as duas edições. No 9º ano, de 5,4 pontos.
Isso não autoriza concluir, isoladamente, que determinada política produziu o resultado. O Saeb mede desempenho e permite acompanhar tendências, mas não estabelece sozinho relações causais entre uma ação educacional e a aprendizagem observada.
Ainda assim, os resultados oferecem uma base objetiva para que secretarias municipais investiguem o que está funcionando e onde permanecem as dificuldades.
Ideb também cresceu, mas ele não deve ser lido sozinho
O movimento também aparece no Ideb.
Considerando apenas a rede pública, o índice passou:
Anos iniciais: de 5,7 em 2023 para 6,1 em 2025.
Anos finais: de 4,7 para 5,0.
Ensino médio: de 4,1 para 4,3.
É um avanço nacional relevante.
Mas existe uma diferença que todo gestor precisa compreender: Ideb não é sinônimo de aprendizagem.
O índice combina dois componentes: o desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática, medido pelo Saeb, e informações de aprovação escolar obtidas a partir do Censo Escolar.
Isso significa que duas redes com Ideb semelhante podem ter situações educacionais diferentes.
Uma pode apresentar bom desempenho no Saeb e fluxo escolar menos favorável. Outra pode registrar elevada aprovação, mas aprendizagem mais baixa.
Por isso, a pergunta de uma secretaria não deveria ser apenas “qual é o nosso Ideb?”.
É necessário abrir o indicador.
A prefeitura precisa chegar às habilidades
Há outra mudança de perspectiva necessária.
Uma média de matemática informa que existe um problema ou um avanço. Ela não diz, sozinha, o que o professor precisa fazer na segunda-feira.
Para isso, é preciso chegar às matrizes e às escalas de proficiência.
No Saeb, as escalas descrevem competências e habilidades demonstradas pelos estudantes em diferentes níveis de desempenho. O próprio Inep explica que elas permitem interpretar os resultados e subsidiar decisões voltadas à melhoria educacional.
Em língua portuguesa, a avaliação tradicional do Saeb tem como foco a leitura e investiga diferentes níveis de compreensão, análise e interpretação de textos.
Em matemática, o foco está na resolução de problemas e envolve capacidades como estabelecer relações, argumentar, estimar e desenvolver estratégias de solução.
Essa distinção é fundamental.
Uma rede municipal não melhora matemática simplesmente porque estabelece como meta “subir cinco pontos no Saeb”.
Ela melhora quando identifica quais conhecimentos os estudantes ainda não dominam e organiza ensino, currículo, materiais, acompanhamento e formação docente para enfrentar essas lacunas.
O município precisa conhecer sua própria curva de aprendizagem
Comparar o resultado municipal apenas com a média brasileira é insuficiente.
Uma análise de gestão deveria observar pelo menos quatro dimensões.
A primeira é tempo. O município precisa construir uma série histórica e verificar se o resultado representa avanço consistente, estabilidade ou oscilação.
A segunda é etapa. Uma rede pode apresentar resultados satisfatórios nos anos iniciais e perder desempenho nos anos finais.
A terceira é escola. A média municipal pode esconder unidades com trajetórias muito diferentes.
A quarta é equidade. Melhorar a média enquanto determinados grupos permanecem muito atrás não significa resolver o problema educacional.
É aqui que o trabalho técnico da secretaria ganha importância.
O Saeb produz resultados para diferentes níveis de agregação e sua metodologia permite comparações ao longo do tempo.
O município pode, portanto, sair da fotografia e construir um filme da aprendizagem.
Alfabetização precisa ser tratada como indicador antecedente
Antes do 5º ano existe uma etapa decisiva: a alfabetização.
Os resultados municipais do Indicador Criança Alfabetizada estão disponíveis para consulta pelo Inep, inclusive com dados e metas das redes municipais.
Isso permite que a secretaria acompanhe a aprendizagem antes de esperar pelo próximo ciclo do Saeb.
Há experiências municipais recentes que ajudam a mostrar como esse acompanhamento pode ser utilizado.
Vinhedo, em São Paulo, informou ter alcançado 72% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano em 2025, ante 61% no Estado de São Paulo e 66% no Brasil, segundo os dados divulgados pelo MEC e Inep citados pela prefeitura.
Canaã dos Carajás, no Pará, registrou 75,15% em 2025, segundo dados oficiais do Indicador Criança Alfabetizada apresentados pelo município.
Esses resultados são referências úteis para investigação, mas não devem ser transformados automaticamente em ranking de qualidade educacional. Alfabetização é uma dimensão essencial da educação, não a única.
O mais interessante para outros municípios é investigar quais políticas, rotinas pedagógicas, avaliações formativas, materiais e mecanismos de acompanhamento estão associados às trajetórias dessas redes.
Avaliação externa e avaliação da rede cumprem funções diferentes
Outro cuidado é evitar que o Saeb vire currículo.
Avaliação externa não substitui o acompanhamento cotidiano da aprendizagem.
O Saeb é realizado a cada dois anos e produz indicadores para redes e escolas. Não existe boletim individual de desempenho do estudante.
Uma secretaria precisa de informação muito mais frequente.
O desenho mais útil combina três níveis:
avaliação de sala de aula, conduzida pelo professor para ajustar o ensino;
avaliação diagnóstica e formativa da rede, utilizada ao longo do ano para localizar dificuldades e acompanhar avanços;
avaliação externa, como o Saeb, utilizada para analisar resultados sistêmicos e tendências.
Quando essas três informações conversam entre si, a rede começa a construir um sistema de acompanhamento da aprendizagem.
O erro mais perigoso é transformar avaliação em cobrança
Existe uma diferença importante entre responsabilização e uso pedagógico dos dados.
Se os resultados servirem apenas para produzir ranking de escolas, pressionar diretores ou comparar professores, existe o risco de gerar respostas defensivas e pouco aprendizado institucional.
O caminho mais produtivo é usar os resultados para localizar necessidades.
Uma escola com dificuldade em matemática pode precisar de formação docente específica.
Outra pode apresentar elevada rotatividade de professores.
Uma terceira pode ter problemas de frequência.
Outra pode estar recebendo estudantes com defasagens acumuladas dos anos anteriores.
O mesmo indicador pode esconder problemas diferentes.
Por isso, dado educacional precisa ser interpretado junto com o contexto da escola.
Aprendizagem também passou a dialogar diretamente com financiamento
Existe ainda uma razão financeira para que prefeitos e secretários acompanhem os indicadores.
O novo Fundeb estabeleceu a complementação VAAR, Valor Aluno Ano por Resultado, destinada às redes que, além de cumprirem determinadas condicionalidades de gestão, apresentem evolução em indicadores de atendimento e de melhoria da aprendizagem com redução das desigualdades.
Para 2027, as metodologias de aferição das condicionalidades e dos indicadores de atendimento e aprendizagem foram disciplinadas por resoluções da Comissão Intergovernamental de Financiamento para a Educação Básica de Qualidade publicadas em 2026.
Portanto, aprendizagem, equidade, gestão e financiamento estão cada vez mais conectados.
Isso não significa ensinar para obter recursos.
Significa reconhecer que uma secretaria que não acompanha aprendizagem e desigualdades pode ter simultaneamente um problema pedagógico, de gestão e de financiamento.
O que a prefeitura precisa fazer na prática
Um bom ponto de partida é construir um Painel Municipal de Aprendizagem que não dependa apenas da divulgação bienal do Ideb.
Ele pode reunir, no mínimo:
| Dimensão | O que acompanhar |
|---|---|
| Alfabetização | Indicador Criança Alfabetizada |
| Aprendizagem | Proficiência Saeb em português e matemática |
| Fluxo | aprovação, reprovação e abandono |
| Trajetória | distorção idade-série |
| Equidade | diferenças entre escolas e grupos de estudantes |
| Frequência | estudantes com faltas recorrentes |
| Currículo | habilidades previstas × habilidades aprendidas |
| Avaliação interna | diagnósticos periódicos da rede |
| Formação | necessidades docentes identificadas pelos resultados |
| Financiamento | condicionalidades e indicadores relacionados ao VAAR |
A partir daí, cada escola deveria responder a poucas perguntas, mas perguntas que realmente orientem decisões:
O que nossos alunos deveriam ter aprendido?
O que efetivamente aprenderam?
Quem ainda não aprendeu?
Em quais habilidades estão as maiores dificuldades?
Que mudança no ensino será feita?
Quando verificaremos novamente se houve aprendizagem?
Esse ciclo parece simples. Na prática, ele exige capacidade técnica, acompanhamento e continuidade.
Checklist do gestor municipal
Antes de elaborar o próximo plano de ação da educação, a secretaria pode verificar:
☐ Consultamos os resultados municipais do Saeb 2025?
☐ Comparamos 2025 com 2023 e com outras edições?
☐ Separamos português e matemática?
☐ Analisamos anos iniciais e finais separadamente?
☐ Consultamos as escalas de proficiência e não apenas a média?
☐ Identificamos escolas que necessitam de maior apoio?
☐ Verificamos o Indicador Criança Alfabetizada?
☐ Cruzamos aprendizagem com aprovação, frequência e distorção idade-série?
☐ Investigamos desigualdades dentro da própria rede?
☐ Transformamos as dificuldades encontradas em pauta de formação docente?
☐ Definimos intervenções para estudantes que ainda não aprenderam?
☐ Estabelecemos quando esses estudantes serão avaliados novamente?
☐ A equipe responsável pelo Fundeb acompanha as regras e indicadores do VAAR?
Se boa parte dessas respostas for negativa, o problema talvez não seja falta de dados. Pode ser falta de um processo de gestão que transforme dados em decisão.
Da média da rede ao nome do aluno
O Brasil apresentou melhora nos indicadores de 2025. Isso precisa ser reconhecido. Mas uma média nacional crescente não garante que cada criança esteja aprendendo.
Para o município, a unidade final de análise não deveria ser o Ideb, o Saeb nem o ranking.
É o estudante.
O indicador mostra onde olhar. A secretaria organiza as condições. A escola transforma informação em ação pedagógica. E a sala de aula mostra se a estratégia funcionou.
O avanço mais importante acontecerá quando uma rede conseguir responder não apenas quanto seus alunos aprenderam, mas quem ainda não aprendeu, o que ainda precisa aprender e o que será feito a partir de amanhã para mudar essa trajetória.
Fontes oficiais para consulta
Resultados do Ideb 2025 por Brasil, estados, municípios e escolas Inep
Resultados finais do Saeb 2025 Inep
Resultados da Avaliação da Alfabetização Inep
Matrizes e escalas de proficiência do Saeb Inep
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