Santa Maria da Serra salta de 6,2 para 9,1 no Ideb e chega a 317,65 pontos em Matemática
Município paulista de pouco mais de 5 mil habitantes apresentou a maior evolução do Ideb dos anos iniciais no estado entre 2023 e 2025. O desempenho em Matemática no Saeb chama atenção, mas o dado mais interessante está na pergunta que ele provoca: o que aconteceu dentro da rede para produzir uma mudança dessa magnitude?
Às vezes, o resultado mais importante de uma avaliação educacional não está apenas em descobrir quem ficou na primeira posição. Está em identificar quem conseguiu mudar de patamar.
É o caso de Santa Maria da Serra, pequeno município do interior paulista com população estimada em 5.308 habitantes.
Nos anos iniciais do ensino fundamental, a rede municipal passou de Ideb 6,2 em 2023 para 9,1 em 2025. São 2,9 pontos de crescimento em apenas uma edição do indicador.
Levantamento realizado pela TV TEM a partir dos dados divulgados pelo Inep apontou Santa Maria da Serra como o município com o maior Ideb dos anos iniciais do estado de São Paulo e também com a maior evolução no período. Entre mais de 5 mil municípios avaliados no país, apenas 34 apareceram à frente no Ideb 2025.
Mas há outro número que torna esse caso especialmente interessante para quem trabalha com educação.
317,65 pontos em Matemática.
Foi a proficiência registrada no Saeb 2025 pela EMEB Dona Zina Saviolo Cury, principal escola municipal responsável pelos anos iniciais. Em Língua Portuguesa, foram 277,98 pontos. A média padronizada do Saeb chegou a 9,08 e a taxa de aprovação foi de 99,7%.
Mais do que comemorar os números, é preciso entender o que eles significam.
Não existe “Ideb de Matemática”
Essa distinção parece técnica, mas é importante.
O Ideb não é uma prova e não possui uma nota específica de Matemática. O índice combina duas dimensões: o desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática, medido pelo Saeb, e os dados de rendimento escolar, especialmente a aprovação registrada pelo Censo Escolar.
O próprio Inep define o Saeb como um sistema de avaliações externas destinado a diagnosticar a educação básica e produzir evidências para escolas, redes e políticas educacionais. As médias do Saeb, juntamente com os dados de fluxo escolar, entram no cálculo do Ideb.
Por isso, quando uma rede passa de 6,2 para 9,1, olhar apenas para o Ideb é insuficiente.
É preciso abrir a caixa.
Quanto mudou a aprendizagem?
Quanto mudou o fluxo?
Como Matemática e Língua Portuguesa se comportaram separadamente?
E quais estudantes estão por trás dessas médias?
É exatamente nesse momento que um indicador deixa de ser apenas uma nota e começa a se transformar em instrumento de gestão educacional.
Matemática chama atenção no resultado
O contexto paulista ajuda a dimensionar o dado.
Considerando os resultados do estado de São Paulo, a proficiência média de Matemática no 5º ano passou de 236,09 pontos em 2023 para 241,90 em 2025. Nos anos finais, foi de 265,35 para 269,03. O próprio Inep registrou avanço da aprendizagem paulista no período.
Santa Maria da Serra chegou a 317,65 pontos na escola municipal que concentra os anos iniciais.
Não se trata de uma diferença pequena.
Mas a comparação precisa ser utilizada com cuidado. Uma rede municipal pequena e um agregado estadual possuem populações, escalas e características muito diferentes. O dado serve para mostrar a dimensão do resultado, não para concluir automaticamente que determinada política municipal seja superior às demais.
E aqui começa a parte mais interessante da história.
O que mudou entre 2023 e 2025?
Uma análise documental mostra que, nesse intervalo, Santa Maria da Serra realizou diferentes movimentos em sua rede educacional.
Em 2023, o município contratou a implantação de um projeto de Robótica Educacional para estudantes dos 3º, 4º e 5º anos da EMEB Dona Zina Saviolo Cury. A iniciativa posteriormente foi ampliada para outros estudantes da rede. Os documentos municipais descrevem atividades relacionadas a tecnologia, criatividade, trabalho em equipe e raciocínio lógico.
Em 2024, foi instituída uma política municipal de Educação em Tempo Integral. O desenho normativo prevê ampliação da jornada, acompanhamento das aprendizagens prioritárias, apoio pedagógico, integração curricular, utilização de recursos didático-tecnológicos e atenção às diferentes necessidades de aprendizagem. Para os anos iniciais do ensino fundamental, o decreto estabeleceu jornada semanal ampliada, combinando currículo básico e atividades complementares.
Também há registro, em 2024, de contratação de formação para profissionais da rede, embora o conteúdo localizado esteja voltado principalmente a liderança, gestão de pessoas, trabalho em equipe e planejamento, e não especificamente à didática da Matemática.
Em julho de 2025, o município contratou ainda uma solução tecnológica digital e gamificada especializada em Matemática, com módulo explicitamente destinado à preparação e ao engajamento dos estudantes para o Saeb. O contrato foi de R$ 48,5 mil.
O conjunto forma uma linha de investigação interessante.
Mas não autoriza uma conclusão causal.
Uma boa matéria precisa resistir à tentação da resposta fácil
Seria simples escrever que a robótica aumentou o Ideb.
Ou que a escola em tempo integral produziu os 317,65 pontos.
Ou que a plataforma de Matemática foi responsável pelo resultado.
O problema é que os dados disponíveis não permitem afirmar nenhuma dessas coisas.
Políticas públicas educacionais raramente operam de maneira isolada. E a contratação da solução específica de Matemática ocorreu em julho de 2025, relativamente próxima da aplicação do Saeb daquele ano. Sua existência é um dado relevante para a apuração, mas não é prova de causalidade.
Esse cuidado é fundamental.
Uma das diferenças entre divulgação institucional e jornalismo educacional baseado em evidências está justamente aí: registrar o que foi feito sem transformar automaticamente uma sequência temporal em relação de causa e efeito.
O resultado pode estar associado a uma combinação de fatores: trabalho dos professores, gestão pedagógica, currículo, acompanhamento da aprendizagem, tempo de ensino, materiais, avaliações internas, frequência, participação das famílias, características da coorte avaliada e diferentes iniciativas implementadas durante o período.
É preciso entrar na rede para descobrir.
Uma pequena cidade e uma grande pergunta
Santa Maria da Serra possuía apenas 5.308 habitantes na estimativa populacional de 2025.
Essa dimensão também precisa fazer parte da análise.
Em redes pequenas, poucas escolas e grupos relativamente menores de estudantes podem fazer os indicadores variarem mais entre uma edição e outra. Isso não invalida o resultado, mas recomenda cautela antes de generalizá-lo.
O Inep estabelece, inclusive, critérios mínimos para divulgar resultados municipais do Saeb: pelo menos dez estudantes presentes na etapa avaliada e participação mínima de 50%. Para escolas, o requisito de participação é de pelo menos 80%.
Portanto, o verdadeiro teste para Santa Maria da Serra não termina no Ideb 2025.
Será importante observar se o município consegue sustentar resultados elevados nas próximas coortes de estudantes.
Um grande salto chama atenção.
Uma trajetória sustentada produz evidência mais robusta.
O indicador deve levar o gestor até a sala de aula
Há outro ensinamento importante nesse caso.
Nenhuma criança aprende Matemática porque existe um Ideb.
Ela aprende porque existem experiências de ensino capazes de produzir compreensão de números, operações, grandezas, geometria, estatística, resolução de problemas e raciocínio matemático.
É por isso que a investigação sobre Santa Maria da Serra deveria chegar até os professores.
Como a Matemática é ensinada?
Quanto tempo é dedicado à disciplina?
Como os professores identificam quem ainda não aprendeu?
Existem avaliações diagnósticas durante o ano?
Os resultados dessas avaliações alteram o planejamento?
Como os erros dos estudantes são tratados?
Há intervenções diferentes para alunos em níveis distintos de aprendizagem?
Que tipo de formação pedagógica os professores recebem?
Como direção e coordenação acompanham as turmas?
Qual foi, efetivamente, a contribuição da jornada ampliada?
E o que existia nas práticas da escola antes mesmo das políticas implantadas entre 2023 e 2025?
Essas perguntas valem mais para outros municípios do que simplesmente dizer que uma cidade atingiu 9,1.
De ranking a inteligência municipal
Há uma maneira pobre e uma maneira produtiva de utilizar os resultados do Ideb.
A maneira pobre é produzir apenas uma lista de vencedores e perdedores.
A maneira produtiva é usar os indicadores como um radar.
O radar encontrou Santa Maria da Serra.
Agora é necessário investigar o território.
O município passou de 6,2 para 9,1 no Ideb dos anos iniciais. Sua principal escola municipal registrou 317,65 pontos em Matemática, 277,98 em Língua Portuguesa e aprovação de 99,7%. São números suficientemente relevantes para justificar uma investigação aprofundada.
O próximo passo não é procurar uma fórmula pronta para copiar.
É compreender o sistema que produziu o resultado.
Se houve mudança na prática docente, precisamos conhecê-la.
Se houve melhor acompanhamento dos estudantes, precisamos demonstrá-lo.
Se a ampliação da jornada teve papel relevante, precisamos identificar como o tempo adicional foi utilizado.
Se tecnologias contribuíram, precisamos saber de que maneira foram incorporadas ao currículo.
E, principalmente, precisamos ouvir quem estava na sala de aula.
Quando uma boa história municipal pode ensinar o Brasil
Talvez esse seja o aspecto mais relevante de Santa Maria da Serra.
Uma cidade com pouco mais de cinco mil habitantes conseguiu colocar seus anos iniciais entre os maiores resultados educacionais do estado de São Paulo.
O número merece visibilidade.
Mas o conhecimento que pode existir por trás dele merece algo maior: documentação.
Transformar uma experiência municipal em referência não significa promover uma administração pública, uma empresa ou um programa específico.
Significa separar evidência de discurso, resultado de causalidade e indicador de aprendizagem.
É assim que uma experiência local pode se tornar útil para outros municípios.
Santa Maria da Serra já respondeu à primeira pergunta:
quanto os estudantes alcançaram?
Agora falta responder aquela que talvez seja a mais importante:
o que aconteceu no ensino para que eles chegassem até lá?
É nessa resposta que pode estar a verdadeira contribuição do município para a educação brasileira.



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