Carregando agora

Esporte é qualidade de vida: como transformar a cidade em um espaço que convida as pessoas a se movimentar

Municípios Destaque

Esporte é qualidade de vida: como transformar a cidade em um espaço que convida as pessoas a se movimentar

Quadras e campeonatos são importantes, mas uma política municipal de esporte e atividade física precisa ir além. Calçadas, parques, ciclovias, praças, escolas e equipamentos públicos podem formar uma rede que ajude crianças, adultos e idosos a incorporar movimento à vida cotidiana.

A política municipal de esporte costuma aparecer para a população de maneira bastante visível: campeonato de futebol, escolinha esportiva, quadra reformada, ginásio, corrida de rua ou entrega de uniformes.

Tudo isso pode ter valor. Mas existe uma pergunta anterior que deveria orientar prefeitos e secretários:

a cidade facilita ou dificulta que seus moradores tenham uma vida fisicamente ativa?

A resposta envolve esporte, mas também saúde, educação, mobilidade, urbanismo, assistência social e planejamento.

Uma criança que encontra uma praça segura perto de casa tem uma oportunidade de brincar e se movimentar. Uma pessoa idosa que dispõe de calçada adequada, iluminação e espaço público acessível tem melhores condições para caminhar. Uma escola que abre sua infraestrutura esportiva de maneira organizada pode ampliar oportunidades para a comunidade. Uma ciclovia conectada a destinos cotidianos transforma deslocamento em atividade física.

Essa visão é coerente com o próprio Guia de Atividade Física para a População Brasileira, do Ministério da Saúde: a prática não ocorre apenas em academias ou instalações esportivas. Ela pode estar presente no lazer, no trabalho, nos estudos, nas tarefas cotidianas e no deslocamento.

O guia também chama atenção para algo essencial à administração municipal: ser fisicamente ativo não depende exclusivamente de decisão individual. Fatores ambientais, sociais, econômicos, culturais e políticos podem facilitar ou dificultar uma vida ativa.

Isso coloca a prefeitura diretamente dentro da discussão.

A inatividade física também é um problema das cidades

A Organização Mundial da Saúde estima que 31% dos adultos e 80% dos adolescentes no mundo não atingem os níveis recomendados de atividade física.

A OMS também aponta que pessoas insuficientemente ativas apresentam risco de morte entre 20% e 30% maior do que aquelas suficientemente ativas.

Atividade física regular está associada à prevenção e ao manejo de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes tipo 2 e alguns cânceres, além de benefícios relacionados à saúde mental, cognição, sono e prevenção de quedas. Em crianças e adolescentes, também está associada a benefícios para desenvolvimento motor, cognitivo, ósseo e muscular.

Essas evidências mudam o lugar do esporte dentro da prefeitura.

Investir em oportunidades para a população se movimentar não precisa ser entendido apenas como gasto com lazer. Pode integrar uma estratégia municipal de promoção da saúde e qualidade de vida.

Mas isso exige cuidado: não se pode afirmar que construir uma quadra, isoladamente, reduzirá internações ou determinada doença. Há muitos fatores envolvidos.

A política precisa criar condições para que a infraestrutura seja utilizada e a atividade física se torne parte da rotina da população.

Uma quadra vazia é infraestrutura, não política pública completa

Imagine dois municípios.

O primeiro constrói cinco quadras.

O segundo possui três, mas sabe quantas pessoas utilizam os equipamentos, quais bairros têm menor acesso, quais horários apresentam maior demanda, quais grupos participam menos e quais atividades interessam à população.

Qual deles conhece melhor sua política esportiva?

A quantidade de equipamentos é um indicador de oferta.

Não é necessariamente um indicador de resultado.

A prefeitura precisa avançar da pergunta:

“Quantas quadras temos?”

para:

“Quantas pessoas conseguem utilizá-las regularmente?”

Depois, para uma pergunta ainda mais importante:

“Quem não consegue?”

Essa mudança é central para uma política pública orientada por evidências.

Esporte municipal não pode ser apenas futebol

O futebol possui enorme importância cultural e esportiva no Brasil, mas uma política municipal precisa reconhecer a diversidade da população.

Crianças, adolescentes, adultos, idosos e pessoas com deficiência possuem necessidades e interesses diferentes.

Caminhada, corrida, ciclismo, dança, natação, ginástica, esportes coletivos, lutas, jogos, recreação e atividades adaptadas podem fazer parte da oferta.

A OMS trabalha com um conceito amplo de atividade física, incluindo caminhada, ciclismo, esporte, recreação ativa, brincadeiras e outras formas de movimento.

Isso tem uma consequência prática.

Uma Secretaria Municipal de Esportes não deveria medir seu desempenho exclusivamente pelo número de campeonatos organizados.

Precisa saber quantas pessoas consegue colocar em movimento e com que regularidade.

Criança ativa precisa de uma cidade que permita brincar

Para crianças, esporte não começa necessariamente em uma modalidade formal.

Começa no movimento.

Correr, brincar, pular, andar de bicicleta, jogar e explorar espaços são formas de atividade física.

A OMS associa atividade física em crianças e adolescentes a melhor aptidão física, saúde cardiometabólica e óssea, resultados cognitivos e saúde mental.

Isso aproxima esporte e educação.

As escolas municipais já possuem quadras, pátios e outros espaços. Em determinadas realidades, esses equipamentos podem constituir uma parte importante da infraestrutura esportiva de um bairro.

A discussão municipal pode avançar para perguntas como:

As escolas possuem espaços adequados?

Esses espaços estão conservados?

A Educação Física escolar dispõe das condições necessárias?

Existem projetos esportivos no contraturno?

É possível utilizar determinados equipamentos fora do horário escolar com regras claras de segurança, responsabilidade, manutenção e acesso?

Não existe uma resposta única para todos os municípios.

Mas existe uma oportunidade de pensar a infraestrutura educacional como parte de uma rede territorial de promoção do movimento.

Para o idoso, caminhar pela cidade também é política de qualidade de vida

O envelhecimento da população brasileira acrescenta outra dimensão ao problema.

Para uma pessoa idosa, uma política de atividade física pode começar muito antes de uma academia ao ar livre.

Começa na calçada.

Se o percurso possui buracos, obstáculos, travessias inseguras, iluminação inadequada ou falta de bancos para descanso, a cidade cria barreiras à atividade física.

O Ministério da Saúde destaca que a prática regular contribui para autonomia e independência durante o envelhecimento, melhora equilíbrio e postura, ajuda a reduzir risco de quedas e favorece saúde mental, sono e vínculos sociais.

Portanto, a política municipal de envelhecimento ativo não pertence exclusivamente à Secretaria de Saúde.

Ela também passa por esporte, mobilidade, obras, urbanismo e assistência social.

O espaço público pode funcionar como uma grande infraestrutura de saúde

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes para os municípios.

Uma praça bem planejada não é apenas paisagismo.

Um parque utilizado não é apenas lazer.

Uma ciclovia conectada não é apenas mobilidade.

Uma calçada acessível não é apenas infraestrutura.

Esses espaços podem criar oportunidades para atividade física cotidiana.

O Guia de Atividade Física para a População Brasileira reconhece justamente que condições coletivas e ambientais interferem na possibilidade de as pessoas serem fisicamente ativas e orienta a comunidade a dialogar com governos locais e áreas como saúde, esporte e lazer sobre como tornar os lugares mais favoráveis à atividade física.

Essa perspectiva altera a maneira de planejar investimentos.

Em vez de pensar isoladamente em “uma quadra”, a prefeitura pode pensar em uma rede municipal de espaços ativos.

A cidade precisa descobrir seus desertos de esporte e lazer

Pegue o mapa do município.

Marque nele:

quadras;

ginásios;

campos;

parques;

praças;

pistas de caminhada;

ciclovias;

academias ao ar livre;

escolas;

unidades de saúde;

centros comunitários;

equipamentos de assistência social.

Depois, sobreponha a distribuição da população.

A pergunta aparecerá rapidamente:

quais bairros têm boas oportunidades para atividade física e quais praticamente não têm?

Essas regiões podem ser tratadas pela gestão como áreas prioritárias para expansão da oferta.

Mas localização não é suficiente.

Um equipamento pode estar fisicamente próximo e ainda ser pouco acessível.

Horário, segurança, iluminação, conservação, acessibilidade, transporte, atividades oferecidas e percepção da população também influenciam o uso.

Por isso, a prefeitura precisa mapear infraestrutura e utilização.

Academia da Saúde mostra como esporte e saúde podem conversar

Existe uma política federal que materializa parte dessa integração.

O Programa Academia da Saúde trabalha com espaços públicos dotados de infraestrutura, equipamentos e profissionais para desenvolver práticas corporais, atividade física e outras ações de promoção da saúde.

O Ministério da Saúde apresenta o programa como estratégia para promoção da saúde e produção do cuidado no âmbito da Atenção Primária.

Para municípios, a lógica é particularmente interessante.

Uma Unidade Básica de Saúde pode identificar pessoas que se beneficiariam de atividades orientadas.

Equipamentos públicos podem oferecer oportunidades.

Profissionais podem organizar grupos.

A gestão pode acompanhar adesão e continuidade.

O esporte e a atividade física deixam de funcionar como iniciativa isolada e entram na rede municipal de promoção da saúde.

O município precisa medir participação, não apenas eventos

Imagine que uma prefeitura organize uma corrida para 5 mil pessoas.

É um evento expressivo.

Mas quantas dessas pessoas já praticavam atividade física regularmente?

Quantas começaram depois?

Quantas vivem no próprio município?

Quantas são mulheres?

Quantas são idosas?

Quantas são pessoas com deficiência?

Quais bairros participaram menos?

Um grande evento pode mobilizar a cidade, mas não substitui uma política permanente.

Para gestão pública, uma métrica particularmente importante é a regularidade.

É diferente oferecer atividade física a 2 mil pessoas uma vez por ano e manter 2 mil pessoas praticando regularmente durante meses.

A primeira informação mede alcance de um evento.

A segunda começa a medir continuidade da política.

Esporte também é convivência e pertencimento

Nem todo benefício precisa aparecer em um indicador clínico.

Uma quadra ocupada, uma praça utilizada por famílias ou um grupo de caminhada também produz convivência.

Atividades coletivas podem fortalecer vínculos e reduzir isolamento, especialmente entre pessoas idosas. O próprio Ministério da Saúde inclui fortalecimento de vínculos e prevenção do isolamento entre os benefícios associados à atividade física.

Essa dimensão importa para o município.

Espaços públicos utilizados regularmente podem se tornar pontos de encontro entre gerações e grupos diferentes da comunidade.

A política esportiva, portanto, pode contribuir para algo que é difícil medir, mas fundamental para a vida municipal: a relação das pessoas com a própria cidade.

O que a prefeitura precisa saber

Uma gestão municipal pode organizar um Painel da Cidade Ativa:

DimensãoO que acompanhar
Infraestruturaquadras, campos, ginásios, parques e pistas
Territóriodistribuição dos equipamentos por bairro
Acessopopulação próxima aos equipamentos
Utilizaçãopessoas que efetivamente usam os espaços
Regularidadefrequência de participação
Infânciacrianças e adolescentes atendidos
Idososparticipação e atividades específicas
Inclusãoparticipação de pessoas com deficiência
Diversidademodalidades e atividades oferecidas
Escolautilização da infraestrutura esportiva escolar
Saúdeações integradas com Atenção Primária
Mobilidade ativacondições para caminhada e bicicleta
Manutençãoestado de conservação dos equipamentos
Segurançailuminação e condições de utilização
Equidade territorialbairros com menor oferta
Investimentogasto por programa e território

O painel não precisa começar sofisticado.

Uma planilha georreferenciada com equipamentos, atividades, horários, capacidade e número de participantes já pode revelar desigualdades importantes.

Checklist: a cidade convida seus moradores a se movimentar?

☐ O município possui diagnóstico da prática esportiva e da atividade física?

☐ Todos os equipamentos esportivos estão mapeados?

☐ Sabemos quais bairros possuem menor oferta?

☐ Conhecemos quantas pessoas utilizam cada equipamento?

☐ Medimos frequência, e não apenas inscrições?

☐ Existem atividades para crianças e adolescentes?

☐ Há oferta adequada para pessoas idosas?

☐ Pessoas com deficiência conseguem participar?

☐ Mulheres e meninas estão representadas nas atividades?

☐ As modalidades oferecidas vão além do futebol?

☐ Esporte e Saúde possuem programas integrados?

☐ Esporte e Educação planejam ações conjuntamente?

☐ As escolas podem contribuir com a rede de espaços esportivos?

☐ Existem trajetos seguros para caminhada?

☐ A bicicleta pode ser utilizada em deslocamentos cotidianos?

☐ Praças e parques possuem iluminação e manutenção adequadas?

☐ Equipamentos ociosos são identificados?

☐ A prefeitura mede participação contínua?

☐ O orçamento esportivo está relacionado às prioridades territoriais?

☐ A população é ouvida sobre quais atividades deseja praticar?

Se muitas respostas forem negativas, talvez o município tenha equipamentos e eventos esportivos, mas ainda não tenha uma política integrada de cidade ativa.

Da Secretaria de Esportes para a cidade inteira

Uma boa política municipal de esporte não deveria ser medida apenas pelo tamanho do ginásio, pelo número de campeonatos ou pela quantidade de medalhas conquistadas.

Esses resultados têm seu lugar.

Mas existe um objetivo mais amplo para a administração municipal: criar condições para que mais pessoas possam se movimentar durante toda a vida.

Isso exige esporte.

E exige também calçada, praça, parque, escola, iluminação, acessibilidade, bicicleta, segurança, profissionais e planejamento.

A pergunta para o prefeito deixa então de ser apenas “quanto investimos em esporte?”.

Passa a ser:

nossa cidade ajuda as pessoas a terem uma vida mais ativa?

Uma cidade que consegue responder positivamente começa a tratar esporte e atividade física pelo que eles também são: componentes da saúde, da convivência e da qualidade de vida urbana.

Fontes para consulta

Organização Mundial da Saúde, Physical activity, atualização de 26 de junho de 2024.

Ministério da Saúde, Guia de Atividade Física para a População Brasileira, 2021.

Ministério da Saúde, orientações sobre atividade física e saúde da pessoa idosa.

Ministério da Saúde, Programa Academia da Saúde.

Publicar comentário

Você pode ter perdido