O SUS que aprende com as cidades: o que municípios brasileiros ensinam sobre cuidar melhor da população
Experiências reconhecidas em 2025 e 2026 mostram que parte das inovações mais interessantes da saúde municipal não começa com grandes obras. Elas surgem quando a prefeitura sabe quem precisa de cuidado, reorganiza fluxos, acompanha o paciente ao longo da rede e transforma dados do território em decisão.
Em uma Unidade Básica de Saúde, uma pessoa com hipertensão deixa de retornar às consultas. Em outra parte da cidade, uma mulher recebe uma suspeita de câncer e precisa percorrer exames, consultas e encaminhamentos até chegar ao tratamento. Em outro bairro, uma criança está com a vacinação atrasada, mas ninguém a procurou.
Separadamente, são histórias individuais. Para a gestão municipal, porém, elas revelam uma questão maior: o município consegue perceber quando alguém está se perdendo dentro da rede de saúde?
Essa pergunta ajuda a compreender algumas das experiências municipais reconhecidas recentemente no Sistema Único de Saúde.
Em abril de 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) premiou 20 iniciativas paulistas no “Prêmio OPAS: Municípios que Cuidam”. São experiências relacionadas à Atenção Primária à Saúde (APS), câncer, vacinação, autismo, saúde materna, envelhecimento, sífilis, saúde mental, vulnerabilidade social e outras áreas. A própria OPAS considerou essas práticas referências positivas para o SUS com potencial de disseminação. Paho
Três meses depois, a 21ª Mostra “Brasil, Aqui Tem SUS”, realizada durante o Congresso do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), reuniu experiências de municípios de todas as regiões. A mostra selecionou 397 trabalhos, sendo 355 municipais ou do Distrito Federal e 42 apresentados pelos Conselhos de Secretarias Municipais de Saúde. Entre os critérios de avaliação estavam relevância, inovação, aplicabilidade e resultados. Serviços e Informações do Brasil
O conjunto dessas experiências permite enxergar algo mais interessante do que uma coleção de prêmios.
Permite perguntar: o que municípios que estão conseguindo melhorar processos de cuidado estão fazendo de diferente?
Guaíra: antes de criar outro programa, reorganizar o trabalho
Um dos casos que merece atenção vem de Guaíra, no interior paulista.
O município desenvolveu a experiência “Da Escuta à Efetividade: Remodelação do Processo de Trabalho das Equipes da Atenção Básica de Guaíra”. O projeto foi apresentado nacionalmente na 21ª Mostra “Brasil, Aqui Tem SUS”, em julho de 2026, depois de também obter reconhecimento no Congresso do Cosems-SP.
A iniciativa começou em 2022 e procurou modificar o funcionamento das equipes de Atenção Básica, ampliando autonomia, participação dos profissionais e reorganização dos processos internos.
Os resultados divulgados pela própria prefeitura são expressivos. A cobertura/acompanhamento relacionado à hipertensão teria passado de aproximadamente 13% para 63,53%; no diabetes, de cerca de 10% para 62,22%; e a adesão ao exame citopatológico do colo do útero, de 7% para 54,37%.
Esses números devem ser interpretados corretamente: são resultados informados pelo município e, isoladamente, não permitem atribuir causalidade exclusivamente à intervenção. Ainda assim, a evolução e o reconhecimento externo da experiência justificam atenção ao modelo.
O aspecto mais interessante talvez seja outro: Guaíra mexeu no processo de trabalho antes de simplesmente aumentar a estrutura.
Esse princípio pode ser relevante para centenas de secretarias municipais.
Uma prefeitura pode contratar profissionais, reformar UBS, comprar equipamentos e ampliar recursos tecnológicos. Mas, se não souber quais pacientes precisam ser acompanhados, quem abandonou o tratamento, quais exames estão atrasados e onde estão os gargalos, continuará administrando atendimentos sem necessariamente administrar cuidado.
Jaborandi: quando o mapa deixa de mostrar ruas e passa a mostrar necessidades
Em Jaborandi, também em São Paulo, uma experiência reconhecida pela OPAS colocou o território no centro da decisão.
O projeto “Saúde Monitor” utiliza georreferenciamento na gestão do cuidado e dos indicadores da Atenção Primária. Paho
A ideia parece tecnológica, mas a questão administrativa por trás dela é bastante concreta.
Imagine um município com cobertura vacinal de 90%. O indicador agregado parece satisfatório. Mas os 10% restantes podem estar concentrados justamente em determinadas áreas rurais, periferias, comunidades vulneráveis ou regiões com dificuldade de transporte.
A média municipal não mostra isso.
Quando a informação é territorializada, a pergunta muda.
Em vez de perguntar apenas “qual é a nossa cobertura?”, a secretaria pode perguntar:
onde estão as pessoas que ainda não conseguimos alcançar?
Essa mudança é importante porque o Ministério da Saúde vem ampliando justamente a capacidade de análise territorial dos dados da Atenção Primária. Em julho de 2026, uma atualização do Sistema de Informação para a Atenção Primária à Saúde (Siaps) passou a permitir consultas com variáveis como raça/cor, escolaridade, nacionalidade, pertencimento a povos e comunidades tradicionais e condição de pessoa com deficiência. Serviços e Informações do Brasil
Para os municípios, dado territorial não deveria servir apenas para elaborar relatório. Deve orientar busca ativa.
São Bernardo do Campo: ninguém deveria se perder no caminho até o tratamento
São Bernardo do Campo foi reconhecida pela OPAS com a experiência “Tempo é vida: navegação como estratégia para garantir cuidado integral ao paciente oncológico”. Paho
O nome revela um problema conhecido de qualquer gestor de saúde.
O paciente não precisa apenas receber uma consulta. Ele precisa atravessar uma sequência:
suspeita → investigação → diagnóstico → encaminhamento → tratamento → acompanhamento.
Cada seta representa um risco.
Uma solicitação que não foi realizada. Um exame que demorou. Um retorno que não aconteceu. Uma regulação pendente. Um paciente que não compreendeu o encaminhamento.
É nesse ponto que a ideia de navegação do paciente ganha relevância para a gestão municipal.
A secretaria deixa de observar somente quantos procedimentos foram realizados e começa a acompanhar a trajetória da pessoa pela rede.
Para um município que pretende adaptar esse princípio, uma pergunta simples pode revelar muito:
quantos dias, em média, um cidadão leva entre uma etapa e outra do cuidado?
E há uma segunda pergunta ainda mais incômoda:
quantos pacientes desaparecem entre essas etapas sem que o sistema perceba?
Paulínia: alta hospitalar não deveria significar interrupção do cuidado
Outra experiência premiada pela OPAS foi a implantação de um hospital de transição em Paulínia. Paho
Nem todo município brasileiro terá população, estrutura assistencial ou capacidade financeira para reproduzir uma unidade desse tipo.
Isso não reduz o valor da experiência. Apenas muda o que deve ser replicado.
A lição não é necessariamente “construa um hospital de transição”.
É outra:
organize a transição do cuidado.
Quando uma pessoa recebe alta hospitalar, quem assume seu acompanhamento? A UBS sabe que ela retornou para casa? A equipe de Saúde da Família recebe as informações necessárias? Existe necessidade de reabilitação? Há medicamentos disponíveis? A família foi orientada? É necessário atendimento domiciliar?
Uma política municipal de transição pode começar com protocolo, comunicação e definição de responsabilidades, sem necessariamente começar por um prédio.
Esse é um exemplo importante de como boas práticas precisam ser interpretadas antes de serem copiadas.
Morungaba: vacinação também é relacionamento
Morungaba recebeu reconhecimento pelo “Programa Imuniza Morungaba”, que trata a imunização como parte do acolhimento na Atenção Primária. Paho
Essa perspectiva desloca a vacinação de uma lógica puramente operacional.
Não basta perguntar:
“Quantas doses aplicamos?”
A pergunta de gestão é:
quem deveria ter recebido a vacina e ainda não recebeu?
A diferença é enorme.
No primeiro caso, mede-se produção. No segundo, acompanha-se população.
É a mesma lógica aplicável à hipertensão, diabetes, pré-natal, câncer, saúde bucal e acompanhamento infantil.
Santa Bárbara d’Oeste: aproximar o cuidado de onde as pessoas vivem
Santa Bárbara d’Oeste foi reconhecida pela implantação de protocolo municipal de sífilis associado à descentralização do Centro de Testagem e Aconselhamento para as Unidades Básicas de Saúde. Paho
O aprendizado aqui está na descentralização acompanhada de protocolo.
Centralizar pode fazer sentido para procedimentos altamente especializados. Para determinadas ações de prevenção, diagnóstico e acompanhamento, entretanto, obrigar o cidadão a atravessar a cidade pode transformar distância em barreira assistencial.
Descentralizar, porém, não significa simplesmente transferir tarefas.
Exige capacitação, protocolo, supervisão, disponibilidade de insumos, registro adequado e mecanismos de referência e contrarreferência.
A pergunta para a secretaria municipal passa a ser: quais serviços ainda estão excessivamente centralizados sem necessidade clínica ou operacional?
Santos: o desafio do cuidado às pessoas com autismo
Santos foi reconhecida pela OPAS pela experiência do CREN, apresentada como modelo de política pública para o cuidado relacionado ao autismo no SUS. Paho
É um tema particularmente relevante para os municípios porque envolve saúde, educação, assistência social e famílias.
Municípios menores dificilmente conseguirão reproduzir integralmente estruturas existentes em cidades maiores. Mas podem analisar componentes do modelo: porta de entrada definida, protocolos, equipe de referência, articulação intersetorial, acompanhamento longitudinal, orientação às famílias e integração com serviços regionais.
Nesse caso, replicar não significa reproduzir um centro com a mesma estrutura.
Significa evitar que a família tenha de descobrir sozinha onde procurar ajuda.
Barreiras: uma experiência de gestão que precisa ser lida com a metodologia correta
No oeste baiano, Barreiras recebeu em 2025 reconhecimento na categoria Saúde e Bem-Estar do Prêmio Band Cidades Excelentes, na faixa dos municípios com mais de 100 mil habitantes.
Aqui é necessária uma distinção editorial.
Esse reconhecimento não utiliza a mesma metodologia da OPAS ou da Mostra Brasil, Aqui Tem SUS. O prêmio é baseado no Índice de Gestão Municipal Aquila (IGMA), que utiliza indicadores públicos para avaliar diferentes dimensões da administração municipal.
Portanto, não seria tecnicamente adequado concluir apenas a partir dessa premiação que Barreiras possui “a melhor saúde do Brasil”.
O que o reconhecimento permite afirmar é que o município apresentou desempenho de destaque dentro da metodologia e da categoria avaliadas pelo prêmio.
Entre as ações divulgadas pelo município no período aparecem ampliação da Atenção Básica, realização de cirurgias eletivas, serviços destinados a pessoas com transtorno do espectro autista, Consultório na Rua e ampliação de especialidades.
A experiência merece ser observada, mas com uma regra que vale para qualquer ranking municipal: o gestor deve conhecer os indicadores e a metodologia antes de transformar uma posição em evidência de qualidade.
O Brasil real da saúde municipal é muito maior que os casos premiados
Talvez o dado mais interessante encontrado nesta apuração esteja fora dos prêmios.
Em 2026, o Ministério da Saúde recebeu mais de 750 relatos para o Observatório de Boas Práticas de Equidade na Atenção Primária.
Foram selecionadas 674 experiências desenvolvidas por profissionais de 289 municípios. Todas as regiões brasileiras estavam representadas. O Nordeste concentrou 91 municípios participantes e 190 relatos, e aproximadamente 60% das experiências selecionadas foram apresentadas por equipes de Saúde da Família. Serviços e Informações do Brasil
Isso muda a perspectiva sobre inovação municipal.
Inovação em saúde não está restrita a capitais, hospitais de alta complexidade ou cidades com grande capacidade fiscal.
Ela pode estar acontecendo em uma UBS.
Em uma equipe de Saúde da Família.
Em uma comunidade ribeirinha.
Em um território quilombola.
Em uma equipe que decidiu procurar os hipertensos que haviam deixado de retornar.
Ou em uma secretaria que finalmente integrou bases de dados que antes não conversavam.
O padrão que aparece por trás das experiências
Quando observamos os casos reconhecidos em 2026, aparecem alguns elementos recorrentes.
O primeiro é a força da Atenção Primária à Saúde. O fato de cerca de 60% dos relatos selecionados pelo Observatório de Boas Práticas de Equidade terem sido produzidos por equipes de Saúde da Família é particularmente significativo. Serviços e Informações do Brasil
O segundo é a continuidade do cuidado. Guaíra reorganiza acompanhamento. São Bernardo trabalha a navegação oncológica. Paulínia enfrenta a transição assistencial. Ubatuba organiza o plano de parto em rede. Americana utiliza busca ativa hospitalar para governança do cuidado domiciliar. Paho
O terceiro é o uso do território como unidade de gestão. Jaborandi utiliza georreferenciamento. Lavínia trabalha estratificação da vulnerabilidade familiar. O Ministério da Saúde amplia ferramentas de leitura territorial da APS. Paho
Existe ainda um quarto elemento menos visível: muitas dessas experiências reorganizam processos antes de criar novas estruturas.
Essa talvez seja uma das lições mais importantes para municípios com restrições orçamentárias.
O que os municípios podem fazer na prática
Uma prefeitura não precisa começar criando um programa novo. Pode começar escolhendo um problema assistencial concreto e mensurável.
Por exemplo: pacientes hipertensos que deixaram de ser acompanhados.
Primeiro, estabeleça a linha de base: quantos hipertensos estão cadastrados, quantos estão sendo efetivamente acompanhados, quantos estão com avaliação atualizada e quantos desapareceram do acompanhamento.
Depois, localize territorialmente essas pessoas e procure compreender por que não estão chegando à unidade.
A partir daí, teste uma intervenção em uma UBS ou território, acompanhe resultados e somente depois decida pela expansão.
A mesma lógica pode ser aplicada a outros problemas: tempo entre suspeita e início do tratamento oncológico; crianças com vacinação atrasada; gestantes que iniciam tardiamente o pré-natal; pacientes diabéticos sem acompanhamento; mulheres com rastreamento do câncer do colo do útero atrasado; pessoas que recebem alta hospitalar e não retornam à Atenção Primária.
É uma mudança aparentemente pequena, mas importante.
A pergunta deixa de ser “quantos atendimentos realizamos neste mês?” e passa a ser:
“quem precisava do SUS municipal e nós ainda não conseguimos alcançar?”
Para replicar com responsabilidade
Boas práticas não devem ser copiadas como franquias.
Um hospital de transição pode funcionar em Paulínia e ser inviável em um município de 8 mil habitantes. Um centro especializado pode fazer sentido em Santos e precisar ser organizado regionalmente em cidades menores. Uma plataforma de georreferenciamento pode ser sofisticada em determinado município e começar com instrumentos muito mais simples em outro.
O que deve viajar entre municípios são os princípios de gestão.
Conhecer a população. Identificar risco. Organizar fluxos. Definir responsabilidades. Registrar informação. Procurar quem abandonou o acompanhamento. Medir o intervalo entre as etapas. Avaliar resultados. Corrigir o processo.
A tecnologia pode acelerar tudo isso. A atualização recente do prontuário eletrônico e-SUS APS, por exemplo, incorporou funcionalidades relacionadas ao cadastro, pré-natal, puerpério, vacinação, prescrições e acompanhamento da população. Serviços e Informações do Brasil
Mas nenhuma plataforma substitui uma pergunta de gestão bem formulada.
O que esses municípios ensinam
As experiências de Guaíra, Jaborandi, São Bernardo do Campo, Paulínia, Morungaba, Santa Bárbara d’Oeste, Santos, Barreiras e dos demais municípios reconhecidos não autorizam a construção de um ranking definitivo sobre quem oferece “a melhor saúde”.
Elas oferecem algo mais útil.
Mostram soluções concretas para problemas concretos.
A OPAS reconheceu 20 experiências paulistas com potencial de disseminação. O Ministério da Saúde selecionou 674 relatos de boas práticas de equidade provenientes de centenas de municípios. A Mostra Brasil, Aqui Tem SUS reuniu quase quatro centenas de experiências selecionadas em 2026. Paho
Existe, portanto, um patrimônio de conhecimento municipal sendo produzido dentro do SUS que frequentemente permanece restrito a congressos, mostras e equipes técnicas.
Transformar esse conhecimento em aprendizado entre municípios é uma oportunidade.
Porque talvez a principal medida de uma boa rede municipal de saúde não seja quantas pessoas passaram por suas unidades.
É quantas pessoas que precisavam de cuidado a rede conseguiu identificar, alcançar, acompanhar e não deixar pelo caminho.
Essa é uma diferença importante entre administrar procedimentos e cuidar de uma população.
Fontes consultadas
OPAS/OMS Prêmio Municípios que Cuidam e as 20 experiências reconhecidas em 2026
Ministério da Saúde Observatório de Boas Práticas de Equidade na Atenção Primária
Ministério da Saúde 21ª Mostra Brasil, Aqui Tem SUS
Ministério da Saúde atualização territorial do Siaps
Ministério da Saúde atualização do prontuário eletrônico e-SUS APS
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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