IA na educação: municípios começam a formar professores, mas o desafio é transformar cursos em política de rede
Experiências de Caraguatatuba, Cubatão, Satuba e Uruguaiana mostram caminhos para incorporar a inteligência artificial com intencionalidade pedagógica, formação continuada, proteção de dados e acompanhamento. A prioridade não deveria ser ensinar professores a usar uma ferramenta, mas capacitá-los para decidir quando, por que e como usar IA.
A inteligência artificial já entrou nas escolas brasileiras, muitas vezes antes de as redes de ensino definirem regras, objetivos pedagógicos ou programas de formação para seu uso. O desafio para as secretarias municipais de Educação, portanto, deixou de ser descobrir se professores utilizarão IA. Passou a ser organizar institucionalmente um fenômeno que já está em andamento.
Os dados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS) 2024 ajudam a dimensionar essa mudança. Entre os professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental pesquisados, 56% afirmaram ter utilizado inteligência artificial em seu trabalho acima da média de 36% dos países e economias participantes da OCDE. Entre os que usavam IA, 77% recorriam à tecnologia para produzir planos de aula ou atividades. Ao mesmo tempo, 39% dos docentes indicaram alta necessidade de formação para utilizar IA no ensino e na aprendizagem. Entre os que não haviam utilizado a tecnologia, 64% alegaram falta de conhecimentos e habilidades, e 60% apontaram insuficiência de infraestrutura em suas escolas.
É nesse contexto que ganha importância a discussão apresentada pelo Porvir sobre a formação de professores para IA. A questão central não é simplesmente escolher entre ChatGPT, Gemini, Copilot ou qualquer outra plataforma. Ferramentas mudam rapidamente. Uma política pública de formação docente precisa desenvolver competências que permaneçam relevantes mesmo quando a tecnologia for substituída. Leia a reportagem do Porvir que motivou esta pauta
Para os municípios, essa distinção é decisiva: comprar tecnologia é uma decisão administrativa; transformar tecnologia em aprendizagem é uma decisão pedagógica e de gestão.
Formação em IA precisa ir muito além de ensinar a fazer prompts
Uma referência importante para as redes públicas é a nota técnica Recomendações para Formação Docente em Inteligência Artificial na Educação Básica, publicada em 2026 pela Fundação Telefônica Vivo, em parceria com o Instituto IA.Edu e a Cátedra UNESCO IA Desplugada na Educação.
O documento propõe quatro dimensões interdependentes para a formação: ensinar sobre IA; ensinar com IA; compreender criticamente a IA; e utilizar IA no desenvolvimento profissional docente.
A diferença parece semântica, mas muda substancialmente o desenho de uma política municipal.
Ensinar sobre IA significa permitir que o professor compreenda minimamente como esses sistemas funcionam, suas possibilidades e limitações. Isso inclui reconhecer que uma resposta produzida por IA generativa pode parecer convincente e ainda assim conter erros, informações inventadas ou vieses.
Ensinar com IA envolve o uso pedagógico propriamente dito: planejamento, elaboração e adaptação de atividades, diferenciação de propostas, produção de materiais, apoio à avaliação formativa ou organização de sequências didáticas.
A terceira dimensão é talvez a mais sensível: compreender criticamente a IA. Professores precisam discutir vieses algorítmicos, autoria, propriedade intelectual, desinformação, privacidade, proteção de dados, desigualdades digitais e consequências sociais do uso dessas tecnologias.
Finalmente, utilizar IA para o desenvolvimento profissional significa compreender como essas ferramentas podem apoiar a organização do trabalho docente, a pesquisa, a produção de materiais, a reflexão sobre práticas e a aprendizagem profissional sem transferir à máquina decisões pedagógicas que exigem julgamento humano.
Essa abordagem ajuda a evitar um erro comum: transformar formação continuada em demonstração de ferramentas. Uma oficina do tipo “20 prompts que todo professor precisa conhecer” pode ser útil, mas dificilmente constitui, sozinha, política de formação docente.
O ponto de partida deve ser o diagnóstico, não a plataforma
A recomendação técnica para as redes é começar por um diagnóstico das competências docentes, das necessidades pedagógicas e das condições concretas das escolas.
O estudo elaborado pela Fundação Telefônica Vivo recomenda avaliar repertórios, interesses, níveis de maturidade tecnológica, capacidade de análise crítica, infraestrutura e conectividade. Também chama atenção para desigualdades sociais e territoriais que podem fazer com que a mesma política produza condições muito diferentes entre escolas de uma rede.
Isso significa que uma secretaria municipal deveria saber, antes de estruturar sua formação, quantos professores já utilizam IA, para quais finalidades, quais aplicações conhecem, quais dificuldades encontram, que escolas possuem conectividade adequada e onde estão as maiores necessidades de apoio.
Há uma razão simples: o professor que nunca utilizou uma ferramenta generativa demanda uma formação diferente daquele que já produz materiais diariamente com IA, mas precisa aprofundar aspectos relacionados à avaliação, autoria, segurança e qualidade pedagógica.
Formação personalizada não significa oferecer um curso individual para cada docente. Significa reconhecer diferentes níveis de maturidade e construir percursos progressivos.
Caraguatatuba: diagnóstico, gestores, comunidade e acompanhamento
Entre as experiências municipais que merecem atenção está a de Caraguatatuba (SP).
O projeto Inov@Educa – A Inteligência Artificial na Educação, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação, foi incorporado ao Mapa Brasileiro da Educação Midiática do governo federal em 2026. A descrição oficial mostra uma arquitetura mais ampla do que a realização de cursos isolados.
A iniciativa prevê diagnóstico do conhecimento tecnológico dos profissionais, formações presenciais e on-line, workshops, oficinas práticas, capacitação de gestores escolares, formação de estagiários de tecnologia educacional, comunidades digitais de aprendizagem e acompanhamento de indicadores relacionados ao uso pedagógico da tecnologia.
Esse desenho traz uma lição importante para outras redes: a escola não muda apenas porque o professor participou de uma palestra.
Diretores e coordenadores pedagógicos também precisam compreender a política. Professores precisam de oportunidades para experimentar. As experiências precisam circular entre pares. E a secretaria precisa acompanhar o que acontece depois da formação.
A própria classificação da iniciativa no Mapa Brasileiro da Educação Midiática é de “Inspiração”. Portanto, sua inclusão no mapa não deve ser interpretada como comprovação de impacto sobre a aprendizagem dos estudantes. O que pode ser considerado referência, neste momento, é principalmente o desenho de implementação e governança adotado pela rede.
O que Caraguatatuba ensina
O elemento mais replicável é a sequência: diagnosticar, formar, envolver gestores, criar comunidades profissionais e acompanhar indicadores.
Para municípios menores, todas essas etapas podem existir em escala reduzida. Não é necessário construir uma grande estrutura tecnológica para começar.
Cubatão: formação estruturada dentro da própria política municipal
Cubatão (SP) oferece outro caminho.
Em fevereiro de 2026, pelo menos 120 professores da rede municipal iniciaram o curso IAEDU Professores e Inteligência Artificial: Práticas Inovadoras na Educação Pública, promovido pelo Centro de Educação a Distância (Cemead), ligado à Secretaria Municipal de Educação.
A formação tem 60 horas e seis módulos. O conteúdo vai dos fundamentos da IA à aplicação pedagógica, passando por planejamento, avaliação, produção de materiais, ética, limites da tecnologia, inovação pedagógica e elaboração de um projeto final aplicado à realidade profissional do participante.
O aspecto interessante aqui não é apenas o número de participantes. É o fato de a formação estar vinculada a uma estrutura municipal permanente de desenvolvimento profissional.
Isso reduz o risco de a IA ser tratada como moda passageira. O tema passa a integrar uma política mais ampla de formação continuada.
Outro ponto relevante é exigir um produto aplicado. Em vez de medir o sucesso apenas pela presença ou emissão de certificado, a rede pode observar aquilo que o professor consegue produzir e justificar pedagogicamente ao final do processo.
Satuba mostra um caminho possível para pequenos municípios
Municípios pequenos não precisam enfrentar essa agenda sozinhos.
Em Satuba (AL), a Secretaria Municipal de Educação estabeleceu parceria com o Instituto Federal de Alagoas (Ifal) para capacitar professores do ensino fundamental. O curso de extensão Inteligência Artificial como Recurso Pedagógico: Teoria e Prática foi estruturado para trabalhar o uso ético, crítico e criativo da tecnologia. A primeira divulgação registrou 25 docentes participantes e uma organização combinando encontros presenciais em laboratório e atividades on-line.
A sistematização posterior do Ifal informa que os participantes trabalharam conceitos, possibilidades e limites da IA, além de oficinas práticas voltadas ao planejamento e à adaptação de atividades pedagógicas.
Satuba oferece talvez uma das lições mais úteis para os milhares de municípios brasileiros de menor porte: universidades públicas, institutos federais e outras instituições de ensino superior podem ser parceiros estratégicos para políticas de formação.
Uma secretaria não precisa necessariamente contratar uma solução completa de mercado para iniciar a discussão. Pode mapear competências existentes no próprio território ou na região e construir cooperação técnica.
Uruguaiana: IA dentro da agenda regular de desenvolvimento docente
Outro modelo aparece em Uruguaiana (RS).
Em julho de 2026, a Secretaria Municipal de Educação realizou sua quinta formação continuada de professores com o tema “Inteligência Artificial na Educação: usos práticos, criativos e responsáveis”. Mais de 70 docentes dos 4º e 5º anos participaram.
Nesse caso, o aspecto relevante é a inserção do tema dentro de uma agenda já existente de formação continuada.
Isso evita que IA se transforme em um projeto paralelo da área de tecnologia. A discussão passa a fazer parte do desenvolvimento profissional dos professores e pode dialogar diretamente com currículo, planejamento e aprendizagem.
O que esses municípios têm em comum
As experiências são diferentes em escala, desenho e maturidade, mas apresentam uma convergência importante: nenhuma das propostas mais estruturadas restringe formação em IA a aprender comandos para uma determinada plataforma.
Há preocupação com prática pedagógica, pensamento crítico, ética, produção docente e desenvolvimento profissional.
Também é necessário registrar uma limitação importante. As fontes consultadas documentam principalmente implementação, participação e desenho formativo; elas ainda não oferecem evidências suficientes para afirmar que essas ações produziram melhora causal na aprendizagem dos estudantes.
São, portanto, experiências municipais relevantes para observar e acompanhar não provas de que determinado curso ou ferramenta melhora IDEB, SAEB ou qualquer outro indicador.
Essa distinção é essencial para que boas práticas municipais não sejam transformadas prematuramente em propaganda.
A agenda de IA já se encontra com obrigações educacionais dos municípios
A formação para inteligência artificial não aparece isoladamente no ordenamento educacional.
A Resolução CNE/CEB nº 1/2022 estabeleceu as normas sobre Computação na Educação Básica em complemento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e determinou que a formação inicial e continuada dos professores considere essas competências.
Posteriormente, a Resolução CNE/CEB nº 2/2025 estabeleceu diretrizes nacionais sobre o uso de dispositivos digitais nos espaços escolares e sobre a integração curricular da educação digital e midiática.
Há ainda uma implicação financeira que as secretarias precisam acompanhar. Segundo o MEC, a Comissão Intergovernamental de Financiamento para a Educação Básica de Qualidade definiu que a comprovação da atualização curricular relacionada à educação digital seria exigida em 2026, compondo o processo de habilitação à complementação-VAAR do Fundeb em 2027.
Isso não significa que exista uma obrigação específica de cada município criar um “curso de ChatGPT”. Significa que educação digital, computação, cidadania digital e desenvolvimento das competências dos profissionais da educação deixaram definitivamente de ser temas periféricos.
No campo específico da IA, o cenário regulatório continua em construção. Em 2026, o próprio MEC instituiu um Sandbox Regulatório para testar soluções, identificar riscos e salvaguardas e produzir evidências destinadas a subsidiar futuras normas e diretrizes nacionais sobre inteligência artificial na educação.
Proteção de dados precisa entrar na formação
Há uma dimensão que não pode ficar delegada apenas ao setor de Tecnologia da Informação: dados de estudantes.
Professor algum deveria precisar descobrir sozinho se pode inserir em uma plataforma aberta o nome de uma criança, sua avaliação, dificuldades de aprendizagem, deficiência, comportamento, produção textual ou qualquer outra informação pessoal.
A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) estabelece proteção específica para o tratamento de dados de crianças e adolescentes. Além disso, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente Lei nº 15.211/2025, em vigor desde março de 2026 reforçou deveres de proteção, segurança, privacidade e melhor interesse de crianças e adolescentes nos ambientes digitais.
Portanto, uma política municipal de IA precisa reunir Educação, área pedagógica, tecnologia, jurídico e encarregado de proteção de dados.
A inovação pode ser rápida. O tratamento de dados pessoais não pode ser improvisado.
O que os municípios podem fazer na prática
Uma rede municipal pode estruturar sua política sem começar pela aquisição de uma plataforma. O caminho mais seguro é organizar um ciclo de implementação:
- Diagnosticar a rede. Mapear conhecimentos dos professores, usos atuais de IA, infraestrutura, conectividade, necessidades por etapa escolar e riscos já existentes.
- Definir uma governança municipal para IA. Estabelecer orientações claras sobre usos permitidos, usos que exigem cautela e práticas que não devem ocorrer; definir responsabilidades e critérios para proteção de dados, autoria, revisão humana e avaliação de ferramentas.
- Construir uma matriz de formação. Trabalhar as quatro dimensões: aprender sobre IA, ensinar com IA, compreender criticamente a tecnologia e utilizar IA para desenvolvimento profissional.
- Diferenciar a formação por perfil. Professor iniciante em tecnologia, docente que já utiliza IA, coordenador pedagógico, diretor e equipe técnica possuem necessidades distintas. Educação Infantil, anos iniciais e anos finais também demandam abordagens diferentes.
- Formar pela prática. Cada módulo deveria gerar algum produto utilizável: sequência didática, plano de aula, rubrica, atividade adaptada, protocolo de verificação de informações ou projeto pedagógico. O professor precisa testar, analisar e revisar, não apenas assistir.
- Criar professores multiplicadores e comunidades de prática. Redes pequenas podem trabalhar por polos ou escolas de referência. Redes maiores podem formar núcleos regionais. O conhecimento precisa continuar circulando depois do curso.
- Garantir suporte e condições de uso. Formação sem conectividade, equipamento, tempo de estudo e apoio da gestão tende a produzir frustração. Os dados da TALIS mostram que infraestrutura continua sendo uma barreira concreta no Brasil.
- Avaliar antes de escalar. A secretaria deve acompanhar participação, evolução das competências docentes, qualidade dos produtos desenvolvidos, frequência e finalidade do uso da IA, percepção dos professores e estudantes, problemas de segurança e evidências de integração pedagógica. Só depois disso faz sentido decidir se determinada experiência merece expansão.
A própria recomendação nacional sobre formação em IA enfatiza que o monitoramento deve ocorrer durante todo o processo e pode utilizar portfólios, autoavaliações periódicas, observação, grupos focais e evidências da incorporação das competências às práticas de planejamento, ensino e avaliação.
Um plano de 90 dias é suficiente para começar não para declarar sucesso
Para uma secretaria que ainda não iniciou essa agenda, os primeiros 30 dias podem ser dedicados ao diagnóstico, criação do grupo de governança e definição das regras mínimas.
Entre 30 e 60 dias, uma formação piloto pode envolver um grupo diversificado de professores, coordenadores e gestores de algumas escolas.
Dos 60 aos 90 dias, a rede pode avaliar produtos desenvolvidos, dificuldades, riscos, infraestrutura e mudanças percebidas pelos participantes. A partir daí, toma-se a decisão de ajustar, ampliar ou interromper determinadas estratégias.
O que não cabe em 90 dias é afirmar que a IA melhorou a aprendizagem dos estudantes. Para isso, será necessário tempo, indicadores, comparação e métodos de avaliação capazes de separar o efeito da tecnologia de outras mudanças na rede.
Para replicar com responsabilidade
Caraguatatuba mostra a importância do diagnóstico, da formação de gestores, das comunidades de aprendizagem e do acompanhamento. Cubatão evidencia como o tema pode ser incorporado a uma estrutura permanente de formação. Satuba demonstra o potencial das parcerias com institutos federais e universidades. Uruguaiana mostra que a IA pode entrar na agenda regular de desenvolvimento profissional, em vez de sobreviver como evento isolado.
Nenhuma dessas experiências deveria ser simplesmente copiada.
A pergunta correta para um secretário municipal não é “qual ferramenta eles estão usando?”. É outra: qual problema educacional queremos resolver, qual competência nosso professor precisa desenvolver e que evidência mostrará que estamos avançando?
A inteligência artificial provavelmente continuará mudando mais rapidamente do que qualquer currículo de formação conseguiria acompanhar. É justamente por isso que as redes municipais precisam investir menos na formação para uma marca ou aplicativo e mais na capacidade profissional dos professores de analisar, decidir, criar, verificar e ensinar.
O município que construir essa capacidade não estará apenas preparando seus professores para a IA disponível em 2026. Estará preparando sua rede para tecnologias que ainda nem chegaram às escolas.
Fontes consultadas: Porvir IA na educação: guia para formação de professores; Fundação Telefônica Vivo Recomendações para Formação Docente em IA na Educação Básica; OCDE TALIS 2024, nota do Brasil; Mapa Brasileiro da Educação Midiática Inov@Educa, Caraguatatuba; Prefeitura de Cubatão formação IAEDU; Ifal formação de professores de Satuba; Prefeitura de Uruguaiana formação continuada em IA; MEC Educação Digital e VAAR/Fundeb; MEC Sandbox Regulatório de IA na Educação; ANPD ECA Digital.
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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