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Busca Ativa Escolar: por que todo município deveria transformar a estratégia em política permanente

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Busca Ativa Escolar: por que todo município deveria transformar a estratégia em política permanente

Gratuita, intersetorial e apoiada por UNICEF e Undime, a Busca Ativa Escolar ajuda prefeituras a localizar crianças e adolescentes fora da escola, compreender as causas da exclusão e articular Educação, Saúde e Assistência Social para promover retorno e permanência. Experiências de Cariacica, Maragogi, Sousa, São Félix e municípios paraibanos mostram que, quando a metodologia sai da plataforma e chega ao território, os resultados aparecem.

No Brasil, quase 1 milhão de crianças e adolescentes de 4 a 17 anos ainda estavam fora da escola segundo a PNAD Contínua 2024. Eram 993 mil brasileiros em idade de escolarização obrigatória sem frequentar uma unidade de ensino. O problema não se distribui igualmente: 67% eram crianças e adolescentes pretos, pardos ou indígenas, 440 mil tinham entre 15 e 17 anos e quase 400 mil estavam entre os 20% mais pobres da população.

É diante desse cenário que uma ferramenta já disponível gratuitamente às prefeituras merece muito mais atenção: a Busca Ativa Escolar (BAE).

Desenvolvida pelo UNICEF e pela União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com apoio do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social (Congemas) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), a estratégia combina tecnologia, metodologia de trabalho e articulação da rede de proteção.

Para uma prefeitura, há uma característica particularmente relevante: não se trata de comprar mais um sistema. A metodologia e a plataforma são disponibilizadas gratuitamente.

E talvez esteja justamente aí uma das grandes oportunidades para os municípios brasileiros.

A plataforma é importante. Mas o verdadeiro produto é a governança

Chamar a Busca Ativa Escolar apenas de “plataforma” reduz seu potencial.

A tecnologia registra alertas e casos, organiza informações e facilita o acompanhamento. Mas a lógica da BAE começa antes do sistema: alguém identifica uma criança ou adolescente fora da escola ou em situação de infrequência; a família é procurada; as razões são investigadas; a rede pública é mobilizada; ocorre o encaminhamento adequado; a matrícula ou rematrícula é realizada; e o caso continua sendo acompanhado para evitar uma nova ruptura da trajetória escolar.

Isso é particularmente importante porque evasão e exclusão raramente são problemas exclusivamente pedagógicos.

Podem existir pobreza, deficiência sem atendimento adequado, trabalho infantil, violência, gravidez na adolescência, dificuldades de transporte, sucessivas reprovações, necessidade de trabalhar, problemas familiares, ausência de documentação, questões de saúde ou simplesmente uma progressiva perda de vínculo com a escola.

A secretaria de Educação, isoladamente, não consegue responder a todas essas situações.

É por isso que a metodologia prevê participação de Educação, Saúde, Assistência Social, Conselho Tutelar e outras áreas, dependendo da realidade municipal. A escola identifica o sinal; o município organiza a resposta.

Esse talvez seja o maior mérito da Busca Ativa Escolar: ela transforma evasão escolar de um problema difuso em um fluxo de gestão.

Os resultados nacionais justificam atenção

Uma avaliação conduzida entre 2024 e 2025 encontrou evidências importantes. Entre gestores municipais participantes, 70,8% disseram que a BAE contribuiu para identificar crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade; 68,5% apontaram maior agilidade no enfrentamento das causas da exclusão; 67% relataram maior assertividade nas ações de busca ativa; e 58,1% identificaram avanços na detecção de situações de violência.

A avaliação também concluiu que a estratégia favoreceu uma cultura de colaboração intersetorial nas administrações e ajudou a colocar o enfrentamento à exclusão escolar na agenda das gestões.

Em março de 2026, mais de 2.700 municípios e 21 estados participavam da iniciativa.

Os dados mais recentes do Selo UNICEF reforçam o alcance. Na primeira medição do ciclo 2025-2028, encerrada em agosto de 2026, 1.851 dos 2.277 municípios participantes — 81,3% — atingiram a meta de rematrícula vinculada à Busca Ativa Escolar.

São números expressivos. Mas os exemplos municipais mostram melhor o que existe por trás deles.

Cariacica mostra o valor de usar dados para acompanhar cada estudante

Cariacica, no Espírito Santo, oferece uma das experiências municipais mais consistentes documentadas pela iniciativa.

O município utiliza a plataforma desde 2021 para registrar e monitorar situações de risco e evasão. O resultado acumulado já ultrapassou 1.390 rematrículas cadastradas no sistema. Em uma das escolas acompanhadas, um levantamento inicial identificou 116 estudantes em risco de evasão; posteriormente, essa lista chegou a zero.

O ponto mais relevante não é simplesmente o volume de rematrículas. Cariacica institucionalizou a governança: o município constituiu Comitê Intersetorial da Busca Ativa Escolar para articular o acompanhamento, em consonância com seu Plano Municipal de Educação.

É uma lição replicável: Busca Ativa não deve depender da boa vontade de uma pessoa específica. Precisa virar processo.

Maragogi: quando a gestão aprende com os próprios casos

Em Maragogi, Alagoas, as equipes perceberam que algumas visitas domiciliares terminavam sempre com a mesma dificuldade: famílias reconheciam a infrequência, mas o problema continuava.

O município decidiu revisar o procedimento. A Busca Ativa passou a incluir orientações formalizadas e um termo de compromisso com as famílias, como instrumento complementar de responsabilização e acompanhamento.

Segundo os dados divulgados pela própria estratégia, em 2025 o município superou em mais de 200% o número de rematrículas registrado no ano anterior.

Maragogi foi além de uma campanha temporária. A Lei Municipal nº 877, de novembro de 2025, instituiu o Programa de Busca Ativa Escolar no município para identificar, acompanhar e promover o retorno de crianças e adolescentes em situação de exclusão e prevenir abandono e evasão.

Essa é uma evolução institucional importante: sair do projeto e caminhar para uma política municipal permanente.

O cuidado para outros municípios é não transformar instrumentos de compromisso em mecanismos meramente punitivos. A pergunta central continua sendo: por que aquela criança não está frequentando a escola e que barreira o poder público precisa ajudar a remover?

Sousa: respeito à cultura fez a frequência subir de 47% para 93%

Talvez uma das experiências mais interessantes esteja em Sousa, na Paraíba.

Em uma escola municipal que atende importante comunidade cigana Calon, a solução não poderia ser simplesmente exigir frequência. Existiam desconfianças culturais históricas entre famílias e instituição escolar.

A equipe trabalhou com visitas domiciliares, participação de profissionais pertencentes à própria comunidade, diálogo com lideranças e valorização cultural. Em vez de trabalhar apenas sobre as faltas, passou também a reconhecer e reforçar a presença dos estudantes.

Na Escola Municipal Irmã Maria Iraídes Holanda Lavor, que atende cerca de 143 estudantes, aproximadamente 70% deles da etnia Calon, a frequência passou de 47% em 2023 para 93% ao final de 2025.

No conjunto da BAE em Sousa, desde a adesão em 2018, foram acompanhados 271 casos e registradas 205 rematrículas.

O ensinamento é relevante para qualquer rede: busca ativa eficaz não é simplesmente “ir atrás do aluno”. É compreender o território e construir uma resposta compatível com a realidade daquele estudante e daquela família.

Coremas, Pombal e Catolé do Rocha: chegar a territórios historicamente excluídos

Em 2026, UNICEF e municípios paraibanos desenvolveram trabalho específico em áreas com presença de comunidades quilombolas.

Coremas, Pombal e Catolé do Rocha registraram juntos 64 rematrículas para uma meta de 46, superando-a em 39%. Coremas contabilizou 31 rematrículas; Pombal, 18; e Catolé do Rocha, 15.

Desde dezembro de 2025, o trabalho nesses territórios incluiu visitas às escolas e comunidades quilombolas, diálogo com famílias e lideranças, formação das equipes, assistência técnica, identificação das barreiras de acesso e construção de planos de ação locais.

A experiência deixa outro recado aos gestores: um painel municipal pode informar onde está o problema; somente o trabalho territorial explica por que ele existe.

São Félix decidiu agir antes da evasão

Outro caso merece atenção porque muda a lógica de atuação.

São Félix, na Bahia, decidiu não esperar que um estudante abandonasse definitivamente a escola. A equipe municipal passou a atuar quando surgem três faltas consecutivas sem justificativa.

Cada escola conta com profissionais envolvidos no processo, e Educação, Saúde, Assistência Social e Conselho Tutelar participam da rede. Segundo relato publicado pela Busca Ativa Escolar em julho de 2025, a maior parte dos estudantes abordados retornava após o primeiro contato ou visita domiciliar.

É provavelmente essa a mudança mais importante que a BAE pode provocar numa secretaria:

trocar a busca do estudante que desapareceu pela identificação precoce daquele que está começando a se afastar.

Prevenção custa menos humana, pedagógica e administrativamente do que tentar reconstruir anos depois uma trajetória escolar rompida.

A Paraíba mostra o que acontece quando a estratégia ganha escala

Os resultados recentes da Paraíba ajudam a compreender o potencial sistêmico.

Entre julho de 2025 e agosto de 2026, municípios paraibanos contabilizaram 4.631 rematrículas por meio da Busca Ativa Escolar. Dos 203 municípios com adesão concluída, 179 atingiram suas metas, o equivalente a 88,2%.

Nesse estágio, deixa de ser apenas uma coleção de boas experiências municipais. Começa a surgir uma política articulada em escala estadual.

O que os municípios podem fazer na prática

Para uma prefeitura que ainda utiliza pouco ou sequer aderiu à estratégia, o caminho é bastante objetivo:

  1. Formalizar a adesão e definir liderança. O município cadastra o gestor político e posteriormente o coordenador operacional; a própria plataforma orienta o processo.
  2. Montar uma equipe verdadeiramente intersetorial. Educação deve liderar a agenda educacional, mas Saúde, Assistência Social, Conselho Tutelar e demais serviços precisam participar da resposta.
  3. Criar um protocolo de infrequência. A rede não deve esperar meses para agir. É necessário estabelecer quando a escola aciona a Busca Ativa e quem assume cada etapa.
  4. Mapear causas, e não apenas nomes. Saber quantos estão fora da escola é importante; compreender por que estão fora permite construir políticas melhores.
  5. Acompanhar a permanência depois da rematrícula. O sucesso não termina com uma matrícula registrada. O estudante precisa permanecer, aprender e reconstruir seu vínculo com a escola.
  6. Transformar os dados em gestão. Prefeito, secretário e equipes devem acompanhar periodicamente alertas, casos, motivos de exclusão, tempo de resposta, rematrículas e reincidências.

O próprio portal da Busca Ativa Escolar detalha três etapas iniciais — adesão, confirmação das informações e cadastro da equipe e disponibiliza curso autoformativo gratuito e certificado para apoiar os profissionais envolvidos.

O que prefeitos e secretários precisam compreender

A Busca Ativa Escolar oferece algo raro à administração municipal: uma política com metodologia pronta, tecnologia gratuita, materiais formativos, suporte e uma rede de parceiros nacionais.

Mas há uma condição.

A prefeitura precisa usá-la.

Um login criado e esquecido não encontra nenhuma criança. Uma plataforma cheia de casos sem encaminhamento também não resolve exclusão escolar. O diferencial está no arranjo institucional construído ao redor da ferramenta.

Por isso, o prefeito tem um papel importante ao colocar o tema entre as prioridades de governo; o secretário de Educação precisa organizar fluxos e cobrar acompanhamento; os diretores escolares devem tratar sinais de infrequência precocemente; e Saúde e Assistência Social precisam compreender que permanência escolar também depende de políticas que ultrapassam os muros da escola.

Rematricular é essencial mas não é o ponto final

Há ainda uma cautela necessária para não transformar uma boa política pública em propaganda vazia.

Quantidade de rematrículas é um indicador relevante de alcance, mas não equivale automaticamente a aprendizagem, permanência ou melhoria do Ideb. Não seria metodologicamente correto atribuir à Busca Ativa Escolar, sozinha, eventual avanço nesses indicadores.

O verdadeiro ciclo precisa ser maior:

identificar → compreender a barreira → atender → rematricular → acompanhar → garantir permanência → promover aprendizagem.

Essa distinção, longe de diminuir a estratégia, mostra sua importância.

Sem o estudante dentro da escola, nenhuma política de alfabetização, recomposição, educação integral ou melhoria da aprendizagem consegue alcançá-lo.

Uma ferramenta que os municípios já têm e deveriam aproveitar melhor

A melhor propaganda para uma política pública não é um slogan. São resultados verificáveis.

Cariacica demonstra escala e continuidade. Maragogi mostra institucionalização. Sousa ensina que diversidade cultural precisa fazer parte da solução. Coremas, Pombal e Catolé do Rocha mostram a importância de alcançar territórios vulnerabilizados. São Félix mostra que é possível agir preventivamente.

São experiências diferentes, com um elemento em comum: nenhuma delas tratou evasão escolar apenas como problema da escola.

Esse talvez seja o principal motivo para recomendar a Busca Ativa Escolar aos municípios brasileiros.

Ela oferece gratuitamente tecnologia. Mas, sobretudo, oferece método.

E diante de quase 1 milhão de crianças e adolescentes ainda fora da escola, deixar uma estrutura dessas sem utilização efetiva significa abrir mão de uma ferramenta concreta de gestão e proteção social.

A mensagem para prefeitos e dirigentes municipais de Educação é objetiva: se o município ainda não aderiu, vale conhecer. Se já aderiu, vale verificar se a estratégia realmente está funcionando. E, se está funcionando, o desafio seguinte é transformá-la em política permanente.

Acesso oficial: Conheça e acesse a Busca Ativa Escolar

Fontes consultadas: UNICEF Brasil, avaliação da Busca Ativa Escolar 2024-2025; Busca Ativa Escolar/UNICEF-Undime; Undime; Selo UNICEF; dados e relatos oficiais das experiências de Cariacica (ES), Maragogi (AL), Sousa (PB), Coremas (PB), Pombal (PB), Catolé do Rocha (PB) e São Félix (BA). A avaliação nacional registra que a estratégia alcança grupos historicamente mais vulneráveis e fortalece a colaboração intersetorial, aspecto central para interpretar os resultados municipais apresentados neste artigo.

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