Os estudantes querem aprender: o recado que as prefeituras precisam levar a sério
Pesquisa sobre a escola pública ganha força quando confrontada com dados de alfabetização, desempenho e exclusão escolar. Para os municípios, a resposta exige professores em sala, apoio pedagógico e acompanhamento de quem está ficando para trás.
Uma escola pode manter matrículas, cumprir seu calendário e apresentar relatórios de atividades sem conseguir responder à pergunta que mais importa às famílias: os estudantes estão aprendendo?
A pesquisa “O que os estudantes pensam sobre a Educação?”, divulgada em outubro de 2026, recoloca essa questão no centro do debate. Realizado pelo Instituto Datafolha, o levantamento ouviu 5.296 estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio da rede pública estadual, nas cinco regiões do país. Entre os alunos do ensino médio, pelo menos um quarto mencionou espontaneamente melhorias no ensino e na aprendizagem como principal expectativa para os governos que começam em 2027. Todos Pela Educação
Embora o recorte seja estadual, o alerta interessa diretamente às prefeituras. A trajetória que desemboca no ensino médio começa antes, na educação infantil, na alfabetização e no ensino fundamental. Dificuldades precisam ser identificadas e enfrentadas durante esse percurso.
O desafio municipal é transformar a preocupação com a qualidade em decisões verificáveis: garantir continuidade das aulas, descobrir o que cada turma ainda precisa aprender, apoiar os professores e acompanhar os estudantes que começam a se afastar da escola.
O alcance da pesquisa precisa ser respeitado
O Todos Pela Educação informa que o levantamento foi realizado em grandes centros. Seus percentuais, portanto, não devem ser apresentados como diagnóstico de cada município ou como retrato específico das redes municipais. Também não se trata de uma avaliação de proficiência: ouvir a percepção dos estudantes e medir suas aprendizagens são procedimentos diferentes. Todos Pela Educação
Essa distinção aumenta a utilidade da pesquisa. Em vez de importar os números para a realidade local, cada secretaria pode usá-los para formular perguntas às suas escolas.
Os estudantes compreendem as explicações? Conseguem pedir ajuda? Há disciplinas com interrupções frequentes? Recebem devolutivas sobre os erros? Sentem segurança para participar?
A escuta precisa alcançar também quem falta muito, quem tem deficiência, quem mora longe e quem apresenta maiores dificuldades. Ouvir apenas os alunos mais participativos produz um diagnóstico incompleto.
Professor em sala: uma condição que precisa ser acompanhada
Um dos resultados mais preocupantes do levantamento é o relato de períodos sem professor em determinadas disciplinas: 61% dos estudantes dos anos finais e 66% dos alunos do ensino médio concordaram total ou parcialmente com essa situação. São percepções dos entrevistados, não percentuais de aulas perdidas. Ainda assim, justificam investigação administrativa. Todos Pela Educação
Para uma prefeitura, o primeiro passo é conferir o que ocorre em sua própria rede: quantas aulas previstas foram efetivamente ministradas, quais turmas tiveram interrupções e quanto tempo levou a substituição.
Esse acompanhamento deve distinguir afastamento legal, cargo vago, dificuldade de contratação e falhas de organização. Tratar situações diferentes como um único problema favorece respostas injustas e pouco eficazes.
Também é necessário assegurar condições de trabalho. Cobrar melhores explicações sem oferecer planejamento, materiais, coordenação pedagógica e apoio diante das dificuldades da turma transfere ao professor uma responsabilidade que pertence à rede.
Uma formação útil pode começar com um problema concreto: estudantes que ainda não compreendem frações, por exemplo. A equipe analisa suas respostas, planeja intervenções, aplica atividades e verifica o avanço. A formação passa a dialogar com o trabalho que precisa acontecer na sala.
A alfabetização avançou, mas a rede precisa enxergar quem ainda não aprendeu
Segundo o Inep, o percentual nacional de estudantes alfabetizados ao final do 2º ano do ensino fundamental passou de 56% em 2023 para 59% em 2024 e 66% em 2025. A evolução é relevante. Ao mesmo tempo, o resultado de 2025 significa que aproximadamente um terço ainda não havia alcançado o padrão nacional considerado pelo indicador. Inep
O Indicador Criança Alfabetizada estabelece uma referência de leitura e escrita para essa etapa. Ele não significa domínio de todas as aprendizagens de língua portuguesa, nem substitui a avaliação pedagógica feita pela escola. Inep
Para a gestão municipal, a pergunta decisiva é: o que está sendo oferecido às crianças que ainda precisam de apoio?
A resposta deve aparecer na rotina. É preciso identificar as habilidades não consolidadas, organizar intervenções, assegurar frequência e verificar novamente a aprendizagem. Um resultado registrado no sistema, sem mudança no ensino, permanece apenas um registro.
O mesmo cuidado vale para os estudantes que já avançaram de ano. Uma criança com dificuldade persistente de leitura precisa continuar recebendo apoio, com atividades adequadas à sua idade e sem exposição diante dos colegas.
Os anos finais exigem continuidade, não uma nova largada
A passagem do 5º para o 6º ano merece atenção própria. Na organização mais comum, o estudante encontra mais professores, novas rotinas e maior exigência de autonomia. A rede deve verificar se ele recebeu preparação e se suas necessidades foram comunicadas à equipe que o recebe.
O histórico nacional ajuda a dimensionar a importância desse cuidado. No Pisa 2022, avaliação de estudantes de 15 anos, somente 27% dos participantes brasileiros atingiram pelo menos o nível básico em matemática; em leitura, foram 50%. Esses resultados se referem àquela edição e não constituem diagnóstico de uma prefeitura. OECD
Eles reforçam, porém, a necessidade de acompanhar aprendizagens essenciais ao longo da escolarização. Esperar o fim do ensino fundamental para descobrir dificuldades acumuladas reduz o tempo disponível para enfrentá-las.
Quando os anos iniciais e finais pertencem a redes diferentes, município e estado podem estabelecer uma transição acompanhada: troca responsável de informações pedagógicas, reuniões entre equipes e identificação dos estudantes que precisarão de apoio desde o início do ano.
Tecnologia precisa demonstrar utilidade pedagógica
A pesquisa também aponta que 71% dos entrevistados utilizam inteligência artificial com frequência ou às vezes para estudar ou fazer trabalhos escolares. Ao mesmo tempo, aproximadamente um terço discorda de que os professores estejam bem preparados para usar tecnologia nas aulas. Fundação Itaú
A presença dessas ferramentas exige orientação. Uma atividade pode resultar em um texto bem escrito sem demonstrar que o estudante compreendeu o assunto.
Para as secretarias, isso recomenda critérios mais claros para o uso pedagógico: pedir explicação do raciocínio, comparação de fontes, revisão de respostas e produção acompanhada. Na aquisição de plataformas, a decisão deve considerar acessibilidade, proteção de dados, suporte aos professores e evidências de utilidade para o objetivo pretendido.
Equipamentos e licenças precisam estar ligados a um problema de ensino definido. Quantidade de acessos, sozinha, não demonstra aprendizagem.
Quem deixou de frequentar também precisa entrar no diagnóstico
Uma pesquisa realizada com estudantes matriculados não alcança toda a exclusão educacional. A prefeitura precisa procurar também quem já saiu da escola ou nunca conseguiu ingressar.
Em análise divulgada em julho de 2025, UNICEF e Undime apontaram, com base na PNAD Contínua 2024, aproximadamente 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos fora da escola no Brasil. Esse é um dado referente a 2024, não uma contagem de 2026. unicef.org
As organizações informaram ainda que, entre 2017 e 2025, mais de 300 mil crianças e adolescentes identificados pela Busca Ativa Escolar retornaram às salas de aula. O resultado mostra a escala de atuação da estratégia; não permite atribuir a ela, isoladamente, toda mudança na exclusão escolar. unicef.org
A aprendizagem para os municípios está no método: identificar a pessoa, compreender a barreira e articular atendimento. Transporte, violência, trabalho infantil, dificuldades de saúde e outras situações podem exigir participação de diferentes serviços.
Rematricular é uma etapa. Acompanhar a permanência e a aprendizagem completa o trabalho.
O que os municípios podem fazer na prática
Um roteiro inicial de 90 dias pode ajudar a transformar o alerta em ação. Trata-se de uma proposta de organização da gestão, não de prazo legal.
| Período sugerido | Ação prioritária | Entrega verificável |
|---|---|---|
| Primeiros 30 dias | Cruzar frequência, avaliações, interrupções de aulas e escuta dos estudantes | Diagnóstico por escola, com problemas e públicos prioritários |
| Até 60 dias | Organizar apoio pedagógico, substituições e atendimento às barreiras de permanência | Plano com responsáveis, recursos e datas |
| Até 90 dias | Verificar execução e primeiros avanços | Devolutiva às escolas e ajustes nas intervenções |
Esse plano precisa de poucos indicadores, compreensíveis e úteis: aulas ministradas em relação às previstas; estudantes com faltas recorrentes; alunos atendidos nas intervenções; e evolução nas habilidades trabalhadas.
Os resultados devem ser examinados por escola e por grupos de estudantes, com proteção dos dados pessoais. Uma média municipal pode melhorar enquanto determinadas comunidades continuam sem atendimento adequado.
O que muda para prefeitos e secretarias
A pesquisa não cria obrigações legais nem anuncia um novo repasse. Ela oferece evidências para revisar prioridades.
Há instrumentos públicos que podem apoiar essa resposta. O Programa Escola das Adolescências prevê apoio aos anos finais do ensino fundamental. Na orientação consultada do FNDE, a participação envolve critérios de elegibilidade, adesão, seleção e plano de ação; os recursos têm finalidades específicas, inclusive materiais e espaços voltados à progressão das aprendizagens. gov.br
Cabe à secretaria verificar a situação de suas escolas, as regras e os calendários aplicáveis. A existência do programa não significa recebimento automático de recursos.
Ao prefeito, cabe assegurar que planejamento, pessoal e orçamento sustentem as prioridades educacionais. À secretaria, organizar a execução e apoiar as escolas. À Câmara e aos conselhos, acompanhar o atendimento e cobrar explicações sobre problemas persistentes.
O alerta deve ser acionado quando a gestão sabe que um estudante não está aprendendo e não consegue demonstrar qual apoio ele está recebendo. Uma resposta pública consistente começa com essa capacidade: identificar a dificuldade, agir e conferir se a intervenção funcionou.
Fontes para consulta
- Todos Pela Educação: divulgação da pesquisa sobre a percepção dos estudantes.
- Fundação Itaú: resultados e caracterização do levantamento.
- Inep: construção e resultados do Indicador Criança Alfabetizada.
- OCDE: nota sobre o Brasil no Pisa 2022.
- UNICEF: exclusão escolar e resultados da Busca Ativa Escolar.
- FNDE: Programa Escola das Adolescências.



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