Pisa 2025: Brasil avançou em 20 anos, mas municípios têm papel decisivo para transformar progresso em aprendizagem
Resultados mostram redução da distância para países da OCDE no longo prazo, mas Matemática, Leitura e Ciências ainda expõem déficits relevantes. Experiências como a de Sobral mostram como avaliação, alfabetização, formação docente e continuidade entre redes podem transformar dados em política educacional.
O resultado brasileiro no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025 permite duas leituras que, longe de serem contraditórias, precisam ser feitas simultaneamente. No horizonte de quase duas décadas, o Brasil avançou. Na comparação entre 2006 e 2025, está entre os países que mais aumentaram suas proficiências: aparece na 7ª posição em evolução em Leitura e Matemática e na 8ª em Ciências, considerando o conjunto de mais de 50 países com séries comparáveis. A distância em relação à média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também diminuiu.
Mas isso não significa que o Brasil esteja entre os países de melhor desempenho educacional. Em 2025, os estudantes brasileiros obtiveram 408 pontos em Leitura, 377 em Matemática e 409 em Ciências e permaneceram abaixo das médias da OCDE nas três áreas. Quando se observa apenas a comparação com 2022, os resultados permaneceram estatisticamente estáveis.
Essa distinção é fundamental para prefeitos, secretários de Educação e dirigentes escolares. O Brasil pode comemorar uma trajetória de longo prazo sem confundir avanço com missão cumprida. E é justamente nos municípios que grande parte da próxima etapa dessa história será construída.
O que o Pisa realmente está dizendo ao Brasil
O Pisa não avalia simplesmente se o estudante memorizou conteúdos curriculares. A avaliação investiga se jovens de 15 anos conseguem mobilizar conhecimentos para compreender textos, raciocinar matematicamente, interpretar evidências científicas, resolver problemas e enfrentar situações próximas da vida real. Em 2025, Ciências foi o domínio principal, acompanhado de Leitura, Matemática e da nova dimensão de Aprendizagem no Mundo Digital.
O problema brasileiro aparece com ainda mais clareza quando se abandona a média e se observa quantos estudantes atingem pelo menos o nível básico de proficiência.
Somente 28% chegaram ao nível 2 ou superior em Matemática, diante de 65% na média da OCDE. Em Ciências, foram aproximadamente 48%, contra 74%. Em Leitura, 49%, ante 69% nos países da organização.
Em outras palavras, 72% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo esperado em Matemática, 52% em Ciências e 51% em Leitura. Para o Todos Pela Educação, esses números mostram que a estabilidade recente não pode ser confundida com suficiência: o país continua distante de garantir aprendizagem adequada a todos.
Matemática é o sinal de alerta mais evidente. Não basta elevar algumas médias escolares; é necessário aumentar substancialmente a proporção de estudantes capazes de interpretar uma situação, representá-la matematicamente e escolher estratégias para resolvê-la.
Se o Pisa avalia jovens de 15 anos, por que o município deveria se preocupar?
Porque o estudante não começa a aprender aos 15 anos.
Em 2025, participaram do Pisa no Brasil 30.140 estudantes de 1.053 escolas. Do total, 72,4% estavam em escolas estaduais e 84,7% cursavam a 1ª ou a 2ª série do ensino médio. Ao mesmo tempo, 78,1% estudavam em escolas localizadas no interior do país.
Esse perfil pode levar a uma interpretação equivocada: a de que o Pisa seria um problema dos estados e do ensino médio.
Não é.
Aos 15 anos, o estudante carrega aproximadamente uma década de trajetória educacional. Alfabetização, fluência leitora, compreensão de textos, desenvolvimento do raciocínio matemático, conhecimento científico, hábitos de estudo e atitudes diante da aprendizagem foram construídos muito antes da prova.
Grande parte dessa formação ocorreu justamente na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, etapas nas quais as redes municipais têm enorme responsabilidade.
O Pisa 2025 é, portanto, também uma avaliação indireta da capacidade brasileira de construir uma cadeia educacional coerente desde os primeiros anos.
O maior desafio não é somente desempenho. É desigualdade
A OCDE mostra outro resultado especialmente relevante para as políticas municipais.
No Brasil, estudantes pertencentes aos 25% socioeconomicamente mais favorecidos obtiveram, em Ciências, 96 pontos a mais que os 25% menos favorecidos. Nos países da OCDE, a diferença média foi de 85 pontos. O nível socioeconômico explica cerca de 16% da variação do desempenho científico no Brasil, frente a 12% na OCDE.
O Todos Pela Educação acrescenta uma dimensão ainda mais dura: entre os estudantes brasileiros de menor nível socioeconômico, 89% apresentaram baixo desempenho em Matemática, 70% em Ciências e 67% em Leitura.
Para um município, isso significa que uma política educacional não pode trabalhar apenas com a média da rede.
É necessário saber quem ainda não está aprendendo, em qual escola, turma, ano e habilidade; quais estudantes apresentam trajetória irregular; onde se concentra a distorção idade-série; quem falta frequentemente; e quais escolas enfrentam condições mais adversas.
A melhoria educacional precisa acontecer com redução das desigualdades. Caso contrário, a média sobe enquanto milhares permanecem para trás.
Pisa e Pisa para Escolas não são a mesma coisa
Há uma distinção importante para evitar comparações inadequadas.
O Pisa internacional, cujos resultados de 2025 acabam de ser divulgados, trabalha com uma amostra desenhada para representar o Brasil. Ele não é um ranking de municípios e seus resultados não devem ser utilizados para declarar que determinada cidade possui “o melhor Pisa do país”.
Já o Pisa para Escolas – PISA for Schools ou PISA-S utiliza referenciais semelhantes para produzir diagnósticos voltados a escolas e redes participantes. O objetivo é permitir comparações e apoiar decisões pedagógicas em escala local. A experiência brasileira dessa modalidade começou em 2017; em 2019, por exemplo, 11.484 estudantes de 229 escolas públicas e privadas participaram da aplicação.
Essa diferença metodológica é fundamental.
E é justamente no Pisa para Escolas que aparece um dos mais interessantes casos municipais brasileiros.
Sobral: usar uma avaliação internacional para descobrir o próximo problema
Sobral, no Ceará, não entrou no Pisa para confirmar que já era referência nacional. Entrou para descobrir onde ainda precisava melhorar.
O município participou do Pisa para Escolas em 2017, 2019 e 2021. Segundo a Secretaria Municipal da Educação, tornou-se o único município brasileiro a participar das três aplicações realizadas nesse período.
Na aplicação de 2021, aproximadamente 1.300 estudantes de 17 escolas públicas estaduais participaram. As médias do conjunto foram 427,19 em Leitura, 403,09 em Matemática e 401,11 em Ciências, acima das registradas pela cidade na aplicação anterior.
Há uma nuance importante: os estudantes avaliados estavam, em grande parte, no ensino médio estadual. Portanto, o resultado não deve ser tratado como se fosse exclusivamente da rede municipal.
É justamente aí que o caso fica mais interessante.
Na aplicação de 2019, a própria Secretaria de Educação explicou que os jovens avaliados eram egressos da rede municipal e estavam no primeiro ano do ensino médio estadual. O município utilizou o Pisa para provocar interlocução entre as duas redes e observar o que permanecia da aprendizagem construída anteriormente.
Poucas estratégias são mais úteis para gestores municipais: acompanhar seus alunos depois que eles deixam sua rede.
O que Sobral ensina além da nota
A experiência sobralense não começou com o Pisa.
No início dos anos 2000, avaliações mostraram graves problemas de alfabetização. A resposta do município foi colocar aprendizagem e alfabetização no centro da gestão, articulando avaliação externa, acompanhamento das escolas e intervenção pedagógica. O próprio Inep documentou a experiência como uma política estruturada em torno da aprendizagem nas séries iniciais.
Esse modelo continua deixando rastros institucionais. Sobral mantém avaliações diagnósticas próprias, aplicadas aos estudantes do ensino fundamental, com devolutivas por aluno e por turma. A rede utiliza os resultados para redesenhar políticas e intervenções pedagógicas.
Também possui estruturas permanentes de formação docente e de avaliação. Em seminários realizados para gestores de outras regiões do país, o município apresenta formação continuada, tutoria pedagógica, avaliação externa, currículo de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências e a própria experiência com o Pisa.
O aprendizado replicável, portanto, não é “copiar Sobral”.
É construir capacidade institucional para diagnosticar, agir, medir novamente e corrigir a política.
Novo Horizonte: quando uma escola brasileira se compara ao mundo
Outra experiência interessante ocorreu em Novo Horizonte, no interior paulista, durante o projeto-piloto do Pisa para Escolas de 2017.
Duas escolas estaduais localizadas no município participaram da experiência. A Escola Estadual Professor Mario Florence obteve 410,3 pontos em Leitura, diante de 407 pontos do Brasil no Pisa 2015; e 378,9 em Matemática, ante 377 do país. Em Ciências, registrou 391,5 pontos, resultado estatisticamente próximo à referência brasileira utilizada na comparação.
Não se trata, portanto, de resultado da rede municipal de Novo Horizonte. É um exemplo de escola pública localizada no município utilizando uma referência internacional para compreender seu desempenho.
Essa distinção importa porque o Pauta Municipal Brasil não deve transformar uma escola participante em “ranking municipal”.
O que o caso oferece é outra aprendizagem: uma escola ou rede pode utilizar referenciais internacionais não para produzir propaganda, mas para localizar fortalezas e fragilidades.
O município não precisa “treinar para o Pisa”
Esse talvez seja o principal risco após a divulgação de resultados internacionais.
O objetivo não deve ser criar simulados incessantes ou ensinar modelos de questões esperando elevar pontuações futuras. O Pisa mede competências construídas durante anos.
Um município ajuda o Brasil no Pisa quando melhora a educação cotidiana.
Isso significa alfabetizar bem, garantir compreensão leitora, desenvolver raciocínio matemático, trabalhar investigação científica, formar professores, acompanhar alunos vulneráveis, assegurar frequência, reduzir abandono e produzir escolas nas quais os estudantes consigam aprender.
Os questionários do próprio Pisa reforçam essa perspectiva.
Estudantes brasileiros que percebem valor na escola apresentaram desempenho em Ciências 35 pontos superior ao daqueles que consideravam a escola uma perda de tempo. Apenas 52% manifestaram uma mentalidade de crescimento, isto é, a crença de que capacidades podem ser desenvolvidas por esforço, estratégias e feedback. Cerca de 39% afirmaram planejar frequentemente sua forma de estudar.
Avaliação internacional, portanto, também está falando de práticas pedagógicas, motivação, autorregulação, pertencimento e qualidade da experiência escolar.
O mundo digital entrou definitivamente na avaliação
O Pisa 2025 também traz uma mensagem nova aos municípios.
A edição incluiu Aprendizagem no Mundo Digital. Na dimensão já divulgada de Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, o Brasil registrou 406 pontos.
Ao mesmo tempo, 48% dos estudantes brasileiros declararam usar chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para aprender. Quarenta por cento utilizam essas ferramentas em pesquisas preliminares, 31% para resumir textos e 27% para elaborar rascunhos de trabalhos.
Isso muda a agenda das secretarias municipais.
Não basta entregar dispositivo ou conexão. As redes precisarão ensinar os estudantes a verificar fontes, avaliar respostas geradas por IA, identificar erros, argumentar, resolver problemas e utilizar tecnologia sem terceirizar o pensamento.
O próximo avanço brasileiro no Pisa poderá depender tanto da alfabetização tradicional quanto da alfabetização científica, informacional e digital.
O que os municípios podem fazer na prática
- Transformar alfabetização em política de rede, e não em projeto temporário. Monitorar leitura, fluência e compreensão desde os primeiros anos e intervir imediatamente quando aparecem defasagens.
- Tratar Matemática como prioridade estratégica. Os 72% abaixo do nível mínimo no Pisa exigem revisão de currículo, formação docente, materiais, tempo pedagógico e práticas que desenvolvam raciocínio e resolução de problemas, e não apenas procedimentos mecânicos.
- Fortalecer Ciências desde o ensino fundamental. Investigação, argumentação, análise de evidências, sustentabilidade e tecnologia precisam fazer parte das experiências do aluno antes do ensino médio.
- Construir um sistema municipal de avaliação diagnóstica. Saeb, avaliações estaduais e Ideb são indispensáveis, mas chegam em ciclos determinados. A secretaria precisa de informações frequentes por habilidade, escola, turma e estudante.
- Criar protocolos de intervenção. Dado que não altera a prática vira apenas planilha. Cada diagnóstico deve resultar em apoio pedagógico, formação, recomposição, acompanhamento e nova avaliação.
- Monitorar equidade. Resultados devem ser analisados também por vulnerabilidade socioeconômica, território, raça/cor, sexo, deficiência e trajetória escolar, respeitando os limites metodológicos de cada base.
- Acompanhar o estudante na transição para o ensino médio. Municípios podem estabelecer cooperação com as redes estaduais para verificar a trajetória dos egressos do 9º ano. Sobral oferece uma experiência particularmente interessante nesse aspecto.
- Fortalecer formação docente baseada em problemas reais da rede. Formação continuada deve nascer das evidências de aprendizagem e retornar à sala de aula com acompanhamento.
- Desenvolver autorregulação e cultura de aprendizagem. Ensinar o estudante a definir metas, monitorar sua compreensão, pedir ajuda, revisar estratégias e persistir diante de tarefas complexas.
- Criar uma política municipal para IA e tecnologias digitais. O desafio não é escolher entre proibir ou liberar tecnologia, mas definir quando, por que e como ela contribui para aprender. As restrições ao uso indiscriminado de celulares convivem com a necessidade de desenvolver competência digital. O Pisa mostra que 81% dos estudantes brasileiros já estavam em escolas com restrições ao celular em 2025.
O que o caso de Sobral ensina
Talvez a principal contribuição de Sobral não seja uma determinada nota.
É uma cultura de gestão.
Em vez de tratar avaliação externa como julgamento da secretaria ou instrumento de marketing, a cidade passou a utilizá-la como mecanismo para encontrar problemas. A avaliação que identificou dificuldades de alfabetização no início dos anos 2000 produziu mudanças. Depois vieram novos indicadores, novas avaliações e novos desafios.
O Pisa para Escolas cumpriu a mesma função: aumentar a régua.
Esse é um princípio replicável em qualquer município, inclusive nos pequenos: avaliar para descobrir o próximo problema, e não apenas para comemorar o problema que já foi superado.
O avanço brasileiro começou antes dos 15 anos
O resultado do Pisa 2025 mostra um país em situação peculiar.
O Brasil melhorou sua posição relativa quando se observa a trajetória desde 2006 e reduziu parte da distância para a OCDE. Mas permanece praticamente estável nas avaliações mais recentes e ainda possui uma proporção muito elevada de estudantes sem proficiência mínima, principalmente em Matemática.
As duas informações são verdadeiras.
O avanço de longo prazo merece ser reconhecido; o déficit atual exige urgência.
E existe uma conclusão municipalista importante: embora grande parte dos participantes do Pisa esteja no ensino médio estadual, os resultados aos 15 anos são construídos muito antes.
Quando uma criança é alfabetizada no tempo adequado, aprende a compreender o que lê, desenvolve raciocínio matemático, investiga problemas científicos, recebe apoio quando apresenta dificuldades e chega ao final do ensino fundamental com uma trajetória escolar regular, o município já está ajudando o Brasil no Pisa.
O verdadeiro desafio, portanto, não é melhorar uma prova internacional.
É construir, escola por escola, uma educação capaz de preparar crianças e jovens para resolver problemas que ainda nem sabemos quais serão.
Fontes: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira — resultados e informações sobre o Pisa 2025. Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — PISA 2025 Results, Volume I: Brazil. Todos Pela Educação — análise técnica dos resultados brasileiros no Pisa 2025. Secretaria Municipal da Educação de Sobral — histórico, aplicações e resultados do Pisa para Escolas. Secretaria da Educação do Estado de São Paulo — experiência de Novo Horizonte no Pisa para Escolas.
Dando voz aos municípios, transformando boas ideias em resultados públicos!



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