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Matemática precisa entrar no centro da gestão educacional dos municípios

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Matemática precisa entrar no centro da gestão educacional dos municípios

Resultados nacionais mostram que avançar na alfabetização não basta. Redes municipais precisam acompanhar a aprendizagem matemática desde os anos iniciais, usar avaliações como diagnóstico e transformar dados em intervenção pedagógica.

O Brasil conseguiu construir, nos últimos anos, uma agenda mais organizada para a alfabetização. O Indicador Criança Alfabetizada mostra avanço de 56% das crianças alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental, em 2023, para 59% em 2024 e 66% em 2025. O resultado de 2025 superou a meta nacional de 64% prevista para aquele ano. Serviços e Informações do Brasil

O avanço merece atenção, mas traz uma pergunta importante para as secretarias municipais de Educação: o que acontece com a aprendizagem dessas crianças depois que elas aprendem a ler e escrever?

A questão ganha força diante de uma reportagem publicada pelo jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2026, que ouviu especialistas sobre os desafios da educação brasileira para os próximos anos. A matéria chama atenção justamente para a necessidade de o país avançar em matemática, melhorar a utilização das avaliações e transformar políticas educacionais em ações concretas dentro das escolas.

Para os municípios, o tema é particularmente relevante. Grande parte da trajetória escolar das crianças acontece nas redes municipais e os problemas que aparecem no 9º ano não começam no 9º ano. Dificuldades com números, operações, proporcionalidade, geometria, resolução de problemas e raciocínio matemático são construídas ou acumuladas ao longo dos anos.

A boa notícia é que as prefeituras não precisam esperar a próxima edição do Ideb para descobrir se algo está errado.

O alerta que vem das avaliações

Os resultados brasileiros em matemática permanecem preocupantes.

No Pisa 2022, apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em matemática, considerado pela OCDE um patamar a partir do qual o estudante consegue lidar com situações matemáticas relativamente simples. Na média dos países da OCDE, foram 69%. No Brasil, 73% ficaram abaixo desse nível. Apenas cerca de 1% atingiu os níveis mais elevados de desempenho. Inep Download

É preciso cuidado, porém, ao transportar esse resultado diretamente para a realidade municipal. O Pisa avalia estudantes de 15 anos e não é um indicador de desempenho de uma prefeitura específica. Ele funciona como sinal sistêmico de um problema que atravessa a educação brasileira.

O Saeb permite uma leitura muito mais próxima das redes. O Inep disponibiliza resultados nacionais, estaduais, municipais e escolares, além das escalas de proficiência e microdados. Serviços e Informações do Brasil

E há um ponto importante: a prova de matemática do Saeb não pretende verificar apenas se o estudante memorizou procedimentos. Segundo o próprio Inep, a avaliação trabalha com resolução de problemas e capacidades como estabelecer relações, argumentar, estimar e validar processos. Serviços e Informações do Brasil

Isso muda a pergunta que uma secretaria deveria fazer.

Em vez de perguntar apenas “qual foi a nota da nossa rede?”, é mais útil perguntar:

“O que nossos estudantes conseguem fazer matematicamente e em que momento da trajetória escolar começam a aparecer as dificuldades?”

A alfabetização pode ensinar algo à política de matemática

O avanço recente da alfabetização brasileira oferece uma pista interessante.

O país estabeleceu um padrão nacional, criou metas anuais, articulou avaliações estaduais, passou a divulgar resultados comparáveis e estruturou mecanismos de acompanhamento. O ponto de corte nacional estabelecido para alfabetização é de 743 pontos na escala utilizada pelo Saeb. Serviços e Informações do Brasil

Isso permitiu que União, estados e municípios compartilhassem uma referência mais clara sobre o que significa uma criança estar alfabetizada.

A matemática precisa caminhar para uma lógica semelhante de gestão: objetivos claros, currículo coerente, diagnóstico periódico, formação docente, intervenção rápida e acompanhamento das aprendizagens.

Não significa transformar a escola em preparação permanente para provas.

Significa utilizar a avaliação para descobrir quem precisa aprender o quê.

Essa diferença é decisiva.

Toda Matemática cria uma nova agenda para as redes municipais

Desde outubro de 2025 existe um instrumento federal diretamente relacionado a esse desafio.

O Compromisso Nacional Toda Matemática, instituído pelo Decreto nº 12.641/2025, estabelece uma política de colaboração entre União, estados, Distrito Federal e municípios voltada à aprendizagem matemática na educação básica. Presidência da República

O decreto inclui entre seus princípios a equidade educacional, a articulação entre gestão da secretaria, gestão escolar e sala de aula e o desenvolvimento profissional permanente dos educadores. Também prevê assistência técnica e financeira da União e fortalecimento da colaboração entre estados e municípios. Presidência da República

A adesão dos entes federativos é voluntária. Uma vez aderindo, porém, o ente assume responsabilidade pela melhoria da qualidade dos processos e dos resultados de aprendizagem em matemática. Diário Oficial da União

Há também possibilidade de apoio financeiro. A regulamentação do FNDE estabelece critérios para escolas elegíveis ao recebimento de recursos pelo Programa Dinheiro Direto na Escola, o PDDE, no âmbito do Compromisso. Estados e municípios selecionam, entre as escolas elegíveis apresentadas pelo MEC, aquelas que receberão os recursos e podem estabelecer critérios próprios de priorização. Serviços e Informações do Brasil

Portanto, para uma Secretaria Municipal de Educação, o Toda Matemática não deveria ser tratado simplesmente como mais um programa federal para adesão administrativa. Pode ser utilizado como oportunidade para rever a política municipal de aprendizagem matemática.

O município precisa enxergar a trajetória inteira do aluno

Um erro de gestão seria concentrar esforços apenas nas turmas que participarão do Saeb.

Quando um estudante chega ao 5º ano sem compreender adequadamente o sistema de numeração decimal, operações fundamentais ou relações entre grandezas, o problema provavelmente começou antes.

Quando chega ao 9º ano com dificuldade para compreender proporcionalidade, álgebra ou geometria, novamente há uma trajetória anterior que precisa ser investigada.

Por isso, a secretaria precisa construir uma espécie de linha de aprendizagem matemática da rede.

Do 1º ao 9º ano, deve estar claro quais conhecimentos são essenciais, quando devem ser consolidados e como a escola perceberá rapidamente quando isso não estiver acontecendo.

Essa organização precisa dialogar com o currículo, com a BNCC e com as matrizes das avaliações, mas não pode simplesmente transformar a matriz do Saeb no currículo municipal. O próprio Inep informa que as matrizes do Saeb estão em processo de transição e que, em 2023, por exemplo, 5º e 9º anos ainda utilizaram matrizes anteriores à BNCC para Língua Portuguesa e Matemática, justamente para preservar comparabilidade histórica. Serviços e Informações do Brasil

Essa distinção é fundamental para uma boa gestão: currículo define o que deve ser ensinado; avaliação produz evidências sobre parte do que foi aprendido.

Avaliação municipal precisa servir para decidir, não para produzir planilhas

Muitas redes já realizam avaliações diagnósticas e simulados. O problema começa quando a avaliação termina na apresentação dos resultados.

Uma prova só tem utilidade pedagógica quando produz alguma decisão.

Imagine uma rede que aplique uma avaliação no 4º ano e descubra que 42% dos estudantes de determinado conjunto de escolas apresentam dificuldade em resolver problemas envolvendo multiplicação.

O dado, isoladamente, descreve o problema.

A gestão começa depois dele.

É necessário identificar quais habilidades estão comprometidas, quais turmas concentram maior dificuldade, se o problema aparece em todas as escolas, quais estratégias os professores vêm utilizando, que apoio pedagógico será oferecido e quando os estudantes serão novamente avaliados.

A sequência deveria ser simples:

avaliar → diagnosticar → intervir → acompanhar → reavaliar.

Sem intervenção, avaliação vira burocracia.

Sem reavaliação, a secretaria não sabe se a intervenção funcionou.

Não use a média municipal para esconder desigualdades

Outro cuidado importante é abandonar a leitura exclusiva da média.

Um município pode melhorar sua proficiência média e, simultaneamente, manter grupos significativos de estudantes nos níveis mais baixos de aprendizagem.

A secretaria deveria analisar pelo menos quatro dimensões: evolução da rede ao longo do tempo; distribuição dos estudantes pelos níveis de proficiência; diferenças entre escolas e turmas; e desigualdades relacionadas ao contexto socioeconômico e aos grupos atendidos.

O próprio Compromisso Nacional Toda Matemática coloca a equidade entre seus princípios e determina atenção às desigualdades regionais, socioeconômicas, étnico-raciais e de gênero. Presidência da República

A pergunta de gestão, portanto, não pode ser somente “a média aumentou?”.

É preciso perguntar também: quem ainda não está aprendendo?

Professor precisa receber informação que consiga usar

Existe ainda uma distância entre os relatórios de avaliação e a sala de aula.

Uma planilha com médias, percentuais e escalas pode ser útil para uma equipe técnica, mas dificilmente muda uma aula por si só.

O professor precisa receber informações pedagogicamente traduzidas.

Em vez de informar apenas que determinada turma obteve 218 pontos, por exemplo, a equipe pedagógica deve mostrar quais habilidades estão consolidadas, quais aparecem parcialmente e quais exigem intervenção.

O relatório precisa terminar com uma consequência pedagógica.

Isso também evita transformar a avaliação em mecanismo de responsabilização individual do professor. Resultado educacional depende de currículo, formação, materiais, liderança escolar, frequência, condições de trabalho, contexto socioeconômico, trajetória dos estudantes e outras variáveis.

Avaliação deve ajudar o professor a ensinar melhor, não simplesmente classificá-lo.

Formação docente precisa nascer das dificuldades reais dos alunos

O mesmo raciocínio vale para a formação continuada.

Se os diagnósticos mostram dificuldades persistentes com frações, proporcionalidade ou resolução de problemas, esses conteúdos precisam entrar no plano de formação.

Uma formação genérica, desconectada dos dados da rede, tem menor possibilidade de modificar a prática.

Uma política municipal mais consistente conecta três elementos:

o que os estudantes precisam aprender, o que as avaliações mostram e o que os professores precisam estudar para ensinar melhor.

É uma mudança aparentemente simples, mas importante para transformar formação continuada em política de aprendizagem.

Um município já está construindo seu plano

Há exemplos recentes de redes começando a transformar o Compromisso Nacional Toda Matemática em planejamento local.

Em setembro de 2026, Paraíso das Águas (MS) informou estar elaborando seu Plano de Ação Municipal do programa, envolvendo gestores, diretores, coordenadores pedagógicos e professores dos anos iniciais e finais do ensino fundamental. Paraíso das Águas

O exemplo interessa menos pelo município isoladamente e mais pelo método: transformar uma política nacional em planejamento local com participação das pessoas responsáveis pela implementação.

A adesão formal é apenas o começo.

O que os municípios podem fazer na prática

Uma secretaria municipal não precisa criar imediatamente um novo sistema de avaliação nem comprar uma plataforma tecnológica. Antes disso, pode organizar melhor as informações que já possui.

Um roteiro inicial de trabalho pode reunir sete movimentos: levantar os resultados do Saeb e das avaliações estaduais e municipais; identificar habilidades críticas por ano escolar; cruzar os resultados com frequência, reprovação, abandono e contexto das escolas; definir poucas metas de aprendizagem por etapa; organizar intervenções para estudantes com maiores defasagens; alinhar formação docente às dificuldades identificadas; e estabelecer ciclos curtos de acompanhamento para verificar se houve aprendizagem.

Também é importante consultar os indicadores educacionais já disponibilizados pelo Inep. O instituto mantém dados de rendimento escolar para municípios e escolas, além de diferentes indicadores construídos a partir do Censo Escolar e de outras fontes. Serviços e Informações do Brasil

Municípios habilitados às condicionalidades do VAAR também precisam observar a relação entre atendimento, permanência e avanço nos indicadores educacionais, porque o componente do Fundeb considera resultados calculados pelo Inep a partir do Censo Escolar e das avaliações nacionais. Serviços e Informações do Brasil

A agenda da matemática, portanto, não está separada da agenda de gestão da rede.

Um painel que toda Secretaria de Educação deveria ter

Não precisa começar sofisticado.

Uma planilha bem construída já pode apresentar, por escola e ano escolar: número de estudantes; frequência; rendimento; resultados diagnósticos; distribuição por níveis de aprendizagem; habilidades prioritárias; estudantes que precisam de intervenção; ação prevista; responsável; prazo para nova avaliação.

O mais importante não é o software.

É criar uma rotina de decisão.

A cada ciclo, a secretaria deveria conseguir responder três perguntas: onde está o problema, o que será feito e como saberemos se funcionou?

Se o sistema de avaliação não permite responder a essas perguntas, ele provavelmente está produzindo mais informação do que gestão.

O que muda para prefeitos e secretários

O debate sobre matemática não deveria ficar restrito ao departamento pedagógico.

Prefeitos e secretários precisam compreender que melhorar aprendizagem exige continuidade administrativa, formação de professores, materiais adequados, tempo pedagógico, acompanhamento das escolas e estabilidade das políticas.

Também exige prudência com metas.

Uma prefeitura pode estabelecer objetivos ambiciosos, mas não deveria reduzir qualidade educacional a uma única nota, nem oferecer incentivos que estimulem escolas a trabalhar exclusivamente para elevar indicadores.

O Saeb deve funcionar como uma das evidências utilizadas pela gestão, e não como o currículo da escola.

O próprio debate apresentado pelo Valor aponta nessa direção: o próximo ciclo da educação brasileira dependerá menos da criação sucessiva de programas e mais da capacidade de executar, acompanhar e sustentar políticas.

Para os municípios, essa talvez seja a principal lição.

Da alfabetização à matemática: construir continuidade

O avanço de 56% para 66% no Indicador Criança Alfabetizada entre 2023 e 2025 mostra que metas, avaliação, colaboração federativa e acompanhamento podem produzir uma agenda pública mais organizada. Serviços e Informações do Brasil

Mas uma criança alfabetizada aos sete anos ainda tem muitos anos de escolarização pela frente.

A política educacional municipal precisa garantir que ela continue aprendendo.

Matemática deve começar a ser acompanhada desde os primeiros anos, antes que pequenas dificuldades se transformem em defasagens acumuladas. O município que identifica cedo, intervém rapidamente e acompanha continuamente tem melhores condições de transformar avaliação em aprendizagem.

Esse é o ponto central para prefeitos e secretários: o resultado do Saeb chega depois. A gestão da aprendizagem acontece todos os dias.

Fontes para consulta: Resultados do Saeb 2023 – Inep; Nota do Brasil no Pisa 2022 – Inep/OCDE; Compromisso Nacional Toda Matemática – Decreto nº 12.641/2025; Regulamentação da orientação curricular do Toda Matemática; Indicador Criança Alfabetizada – Inep; Indicadores do VAAR – MEC.

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